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Investimentos

Tesouro quer atrair estrangeiros com títulos ESG, mas a ideia não basta

País tem que avançar em pautas importantes para reconquistar a confiança do exterior, dizem especialistas

Por Jenne Andrade

09/02/2021 | 3:00 Atualização: 09/02/2021 | 9:31

Foto: Envato Elements
Foto: Envato Elements

O Tesouro Nacional anunciou no início do mês que estuda a emissão de títulos públicos com selo ‘ESG’, sigla para boas práticas ambientais, sociais e de governança. Dessa forma, a União deve mapear despesas lastreadas nesses três critérios, que ganham cada vez mais importância para os investidores do Brasil e, principalmente, para os estrangeiros.

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Investir segundo preceitos ESG significa selecionar ativos de empresas ou organizações que estejam comprometidas a reduzir os impactos negativos decorrentes dos negócios na sociedade. Com a nova medida, o Tesouro pretende reconquistar o interesse dos estrangeiros na dívida pública brasileira. Entre dezembro de 2015 até dezembro de 2020, por exemplo, a participação dessa categoria de investidor na dívida caiu de 18,79% para 9,24%.

“Os efeitos positivos dessa agenda tendem a se refletir em maior interesse pelos investidores não residentes nos títulos temáticos e em outros instrumentos de financiamento da Dívida Pública Federal. Uma base de investidores diversificada, em termos de horizontes de investimento, preferências pelos diferentes indexadores e motivações para a comercialização de ativos, é vital para fomentar o mercado de títulos públicos”, afirma o Tesouro Nacional, em nota.

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Contudo, apenas emitir um segmento de títulos públicos ESG pode não ser suficiente para fazer com que o capital estrangeiro volte para o País – inclusive, a ideia é vista com estranheza por alguns especialistas.

“O anúncio é um pouco esquisito: a ideia apresentada seria amarrar uma emissão de títulos a um projeto específico, mas os recursos captados nessa emissão entrariam em uma conta única com todos os orçamentos do Governo. É difícil entender como isso seria vantajoso”, explica João Beck, economista e sócio da BRA.

Outro ponto levantado pelo especialista é quanto à eficácia da medida, já que seria possível investir dinheiro, ao mesmo tempo, em um projeto totalmente voltado ao ESG e outro danoso à temática. Beck afirma que o Executivo deveria mostrar as providências voltadas às boas práticas ambientais, sociais e de governança, em todo o orçamento público, em vez de emissões específicas de captação de recursos.

“O investidor quer saber se o Governo como um todo adere à prática, assim como acontece em empresas. Uma companhia não emite papéis ‘verdes’ e papéis ‘não-verdes’, por exemplo. De mesma forma, não adianta emitir títulos públicos ESG se existem outros setores do Governo poluindo.”

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Essa também é a visão de Fabio Alperowitch, gestor da Fama Investimentos. “ESG estar na agenda é sempre bom, mas não adianta usar algo assim para querer limpar a imagem do Brasil. O País está sendo questionado nas três frentes, de social, ambiental e de governança”, diz.

Brasil no retrovisor

Segundo Alperowitch, o Brasil ainda está pouco engajado no campo ESG e a emissão de títulos não diminui essa percepção. “Estamos afastados da questão ambiental, não estamos engajados na questão climática, as metas que mostramos na Conferência do Clima são piores do que as anteriores, a gestão que o Governo fez da pandemia também virou chacota mundial, é complicado”, explica. “Ter meia dúzia de avanços é bom, mas não ataca o problema.”

Já para Beck, o País não está tão atrasado nessa discussão em torno das boas práticas. De acordo com o analista, as empresas brasileiras estão caminhando em um ritmo acelerado em direção ao ESG – e não só por ideologia.

“É um movimento que não está acontecendo por caridade, financeiramente faz muito sentido. A captação de dinheiro fica mais barata”, explica Beck. “Os fundos de investimento brasileiros também estão indo nessa direção, já que recebem também muitos recursos de investidores estrangeiros, que exigem cada vez mais comprometimento com essa pauta.”

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