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Mercado

Ações de GOLL4, AZUL4 e CVCB3 dispararam. Sinal de retomada das aéreas?

Apesar da alta, especialistas não indicam a compra dos papéis

Por Thiago Lasco

03/06/2020 | 20:11 Atualização: 10/07/2020 | 14:34

(Estadão Conteúdo/Fabio Motta)
(Estadão Conteúdo/Fabio Motta)

Em meio ao otimismo que a Bolsa brasileira tem vivido nos últimos dias, as ações que tiveram altas mais expressivas foram as companhias aéreas Gol e Azul e a operadora de turismo CVC.

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No fechamento de quarta-feira (3), GOLL4 ganhou 16,4%, AZUL4 avançou 11,8% e CVCB3 chegou a registrar variação positiva de 12,3%. Considerando os três pregões desta semana, as altas acumuladas de Gol, Azul e CVC são de 42,8%, 29,4% e 37,6%, respectivamente.

São dados que impressionam, já que as empresas foram duramente atingidas pela pandemia do coronavírus. Especialistas consultados pelo E-Investidor garantem, no entanto, que é preciso ler esses registros com cautela.

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“Esse movimento é apenas uma recuperação, não houve ganho algum. Primeiro é preciso devolver as perdas, para depois se falar em crescimento”, frisa a economista-chefe da Reag Investimentos, Simone Pasianotto.

E ainda há muito o que recuperar. Já computando os três dias de alta desta semana, Gol acumula perda de 53% no ano. O papel da Azul recuou 68,27% e o da CVC, 54,70% desde janeiro.

O otimismo é uma brisa que sopra de fora

O otimismo que está influenciando as cotações desses papéis é uma brisa que sopra de fora. Ele vem da expectativa do mercado em relação à retomada da atividade econômica em outros países, em meio à queda no número de casos da covid-19. “Esse clima acaba contaminando os países emergentes”, diz o chefe de análises da Toro Investimentos, Rafael Panonko.

Quando a Latam apresentou pedido de recuperação judicial, em março, isso acabou se refletindo no preço de todas as companhias aéreas, já que elas têm atuação semelhante. Com isso, elas tiveram quedas de até 80% ao ano.

“Agora o mercado começa a ver que esses valores tão baixos não se justificam, porque elas não vão chegar ao fundo do poço como se temia dois meses atrás”, afirma o analista Henrique Esteter, da Guide Investimentos.

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Mas também há boas notícias vindas do cenário doméstico. Uma delas é a retomada gradual da operação de certos voos, como trechos entre capitais que trazem um fluxo relevante de passageiros. Outra é o recuo na valorização do dólar, o que reduz o custo dos passivos das aéreas e também o preço das viagens para o consumidor. Tudo isso tende a beneficiar tanto a Gol e a Azul como a CVC.

Contudo, ainda que as altas desses papéis sejam um sintoma de melhora do ambiente do mercado, o impacto no Ibovespa é tímido, em razão do baixo peso dessas empresas na composição do índice.

“Hoje, as altas da Azul e da Gol acrescentaram 26 pontos e 13 pontos ao Ibovespa, respectivamente. A título de comparação, a ação do Bradesco subiu apenas 5%, e isso gerou um incremento de 250 pontos no índice”, ilustra Esteter.

Operação das empresas no País é desafiadora

Se a conjuntura parece estar um pouco mais amigável, não é demais lembrar da dificuldade que a operação das companhias aéreas enfrenta no Brasil. Todas são muito sensíveis ao câmbio: despesas como o querosene e o leasing das aeronaves são atreladas ao dólar, que ainda está muito apreciado. Enquanto isso, a receita delas é em reais. Como os custos são elevados, as margens acabam sendo muito baixas.

“O setor aéreo não é um business fácil no Brasil”, resume Panonko. “Nos últimos trinta anos, boa parte das companhias brasileiras quebrou, simplesmente desapareceu ou se fundiu com outras empresas.”

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Além disso, mesmo se a retomada da economia internacional vier como se está prevendo, a melhora do cenário externo não garante que o turismo vá deslanchar no Brasil tão cedo. Seja porque a evolução da curva de covid-19 é mais tardia que em outros países, limitando os deslocamentos, seja pelos efeitos da recessão econômica na sociedade.

“Gol, Azul e CVC são empresas são brasileiras, e não sabemos o que vai acontecer no ambiente doméstico”, pondera Simone. “As pessoas ainda estão com muito medo de viajar. Pelos próximos seis meses, as perspectivas são de aumento do desemprego e queda da renda média das famílias, que vão consumir apenas o básico.”

O recente rebaixamento de Gol e Azul pela agência de risco Moody’s não teve efeito imediato nos preços das ações dessas empresas. Mas a economista da Reag diz que isso acabará impactando o seu valor de mercado.

“Como o mercado entende que há maior risco de essas empresas não honrarem obrigações com credores, tomar empréstimos e fazer hedge fica mais caro para elas. Custos maiores achatam os lucros, reduzem a distribuição de dividendos aos acionistas e, com isso, o preço dos papéis tende a cair”, diz Simone.

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No balanço geral, o cenário não parece positivo para as aéreas. “Se, por um lado, a melhora do cenário internacional e a simples expectativa da retomada dos voos no médio e longo prazo estimulam os preços das ações a subirem, a baixa demanda, o desemprego e a queda da renda das famílias e o aumento do custo de crédito das empresas pressionam os valores para baixo”, diz.

Comprar ou não comprar?

Ainda que o ritmo de alta dos últimos dias chame a atenção, os especialistas ouvidos pela reportagem são, no mínimo, reticentes em indicar a compra dos papéis de Gol, Azul e CVC neste momento.

Para Rafael Panonko, por exemplo, esse movimento é subproduto de um fluxo comprador mais generalizado, e que está olhando muito mais para o preço baixo que para o valor das empresas em questão. “O investidor que pensa no curto prazo enxerga uma oportunidade de compra para especular. O de longo prazo não enxerga dessa maneira: ele não vai se desfazer de papéis de bancos só porque as aéreas subiram 20%”, diz.

Ele considera que a exposição da carteira ao setor de turismo não é recomendável antes que se saiba o real impacto que o coronavírus terá nessa atividade. “O turismo vai voltar? Como estará o desemprego? O otimismo é exagerado, nada justifica a retomada dos preços neste momento”, argumenta.

Simone Pasianotto, da Reag, diz que a aquisição dos papéis só é indicada para quem tem perfil “amante de risco”. E, mesmo assim, com a ressalva de que o ganho no curto e médio prazo é temerário.

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“Ainda há muita volatilidade pela frente. Não sabemos como será a recuperação da própria economia internacional e como o covid-19 vai impactar o valor patrimonial das empresas”, alerta.

Na visão do analista de research da Ativa Investimentos, Marcio Loréga, altas tão fortes em apenas três dias não devem ser desprezadas, e há até espaço para novos avanços. Mesmo assim, o investidor deve ter menos impulso e mais cautela.

“Qual é o nível de risco que você aceita para se posicionar agora visando a alta desses papéis?”, indaga. “É preciso tolerar o risco de sofrer oscilação de 30% ou 40% para baixo. Se você não aguenta esse risco, então não compre”, diz Lórega.

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