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Mercado

Por que perda de US$ 100 bi do Adani Group não abalou mercados da Índia

Ações do grupo entraram em queda livre, mas não impactaram ecossistema financeiro do país

Por Alex Travelli, New York Times

16/02/2023 | 17:45 Atualização: 16/02/2023 | 17:45

O fundador do Adani Group, Gautam Adani. Foto: REUTERS/Amir Cohen
O fundador do Adani Group, Gautam Adani. Foto: REUTERS/Amir Cohen

Quando as ações do Adani Group, até bem pouco tempo atrás o maior conglomerado da Índia, iniciaram sua queda livre no final do mês passado, fazendo desaparecer mais de US$ 100 bilhões em questão de dias, alguns observadores temiam que isso pudesse derrubar os mercados de capitais do país e, com eles, a economia indiana.

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Essa seria uma perspectiva assustadora não apenas para a Índia, mas para o mundo. A economia do país recentemente ultrapassou a da Grã-Bretanha, tornando-se a quinta maior do mundo, e é a única dessas maiores – incluindo a China – que registrou um crescimento forte e constante desde que as restrições para conter a pandemia foram flexibilizadas.

Mas os temores de um contágio mais amplo no mercado não viraram realidade. As ações indianas como um todo têm se mantido em grande parte estáveis desde a queda das ações do Adani. O principal índice de mercado da Índia está quase 2,5% acima de onde estava há um ano, ainda que as ações dos EUA tenham caído mais de 4% durante o mesmo período.

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A estabilidade confirma a dimensão e a aparente força do cenário empresarial indiano em geral. As ações do Adani despencaram de forma espetacular depois do grupo ter sido acusado de fraude e manipulação de mercado por uma pequena empresa intermediária de Nova York. Porém, a Índia abriga cerca de 1,5 milhão de empresas e um mercado de ações bem capitalizado: a bolsa do país oscilou confortavelmente entre US$ 3 trilhões e US$ 3,5 trilhões no ano passado.

Ao chamar o Adani Group de “o maior vigarista da história financeira”, a Hindenburg Research, empresa de investimentos de Nova York, fez um comentário otimista em relação à Índia, chamando-a de “uma superpotência emergente com um futuro empolgante”.

Mais diretamente, o banco central do país, o Reserve Bank Of India, sinalizou recentemente a que continuaria com as atividades como de costume, elevando as taxas de juros em 0,25 ponto percentual e deixando em aberto a possibilidade de novos aumentos. Isso coloca-o em sintonia com seus pares ocidentais, que também estão priorizando conter a inflação.

A preocupação inicial, já que as consequências das acusações da Hindenburg obrigaram o Adani Group a cancelar uma grande oferta de ações em 1º de fevereiro, era que a praga da dúvida se espalhasse pelos mercados de capitais da Índia. Será que os investidores indianos ou estrangeiros liquidariam as ações e títulos da Índia aleatoriamente de repente, com medo de que o valor delas também despencasse?

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A reputação do sistema regulatório indiano foi prejudicada e o primeiro-ministro Narendra Modi tem enfrentado problemas devido aos seus laços estreitos com o fundador do Adani Group, Gautam Adani. Entretanto, as ações de outras empresas, sejam elas de infraestrutura ou de áreas não relacionadas, estão se saindo bem. O lado discreto do capitalismo indiano pretende continuar ganhando dinheiro, sem se importar com onde os destroços do império Adani possam ir parar.

Desde que Modi assumiu o poder, Adani deixou claro que sua empresa estava a serviço do governo indiano, e quando seu conglomerado foi atacado pela Hindenburg, lançou uma defesa nacionalista, acusando seus opositores de causar “angústia aos cidadãos indianos”.

A natureza da ligação entre as empresas de Adani e Modi, no entanto, não é típica do capitalismo indiano no século 21. Saurabh Mukherjea, fundador da Marcellus Investment Managers em Mumbai, disse que na última década US$ 1,5 trilhão em valor foi adicionado ao mercado indiano, 80% vindo de apenas 20 empresas.

Algumas delas, como as do Adani, fazem muito barulho, vangloriando-se de sua influência e de suas ligações políticas. Mas 90% são “franquias regulares e bem administradas”, disse Mukherjea. Os líderes das “maiores e mais consistentes máquinas de fazer dinheiro mantêm a boca fechada e evitam correr riscos”.

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Ainda é cedo demais para dizer até onde irá a derrocada do Adani Group ou como ele ficará depois disso tudo. A queda calamitosa no preço das ações de um conglomerado que já foi avaliado em US$ 220 bilhões parou no início da semana passada, quase na metade do caminho para chegar a zero, quando os caçadores de pechinchas adquiriram ações a preços de liquidação. Mas as ações do Adani voltaram a cair no final da semana; o MSCI World, um índice influente, decidiu diminuir parte do peso das ações na sexta-feira, o que, por sua vez, levou os investidores a vender suas ações.

Nathan Anderson, o fundador da Hindenburg, tuitou que o trabalho da empresa havia sido “validado” pela decisão do MCSI. Desde que a Hindenburg acusou o Adani de crimes financeiros, alguns bancos se recusaram a aceitar as ações do grupo como garantia, e a Moody’s rebaixou na sexta-feira sua classificação para seis títulos do Adani, deixando-os quase sem grau de investimento.

Outros defenderam o Adani, de forma cautelosa. Os sinais ainda são contraditórios: o fundo soberano da Noruega, por exemplo, liquidou suas participações em três ações do Adani ao mesmo tempo em que o Goldman Sachs classificou a Adani Ports, uma subsidiária do grupo, como uma ação “para se comprar”.

Aswath Damodaran, professor de finanças da Universidade de Nova York, escreveu que, mesmo que o pior dito a respeito do Adani se provasse verdade, ele não praticou “um golpe”. Ao aceitar enormes quantias de dívida para alimentar o seu crescimento, escreveu Damodaran, o Adani assumiu “um risco, talvez mal avaliado”, embora não seja incomum no setor de infraestrutura, principalmente num lugar como a Índia, onde os investidores talvez esperem um crescimento robusto nos próximos anos.

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Um dos temores que se tornaram realidade quando as ações do Adani Group começaram a cair foi o de que seus problemas poderiam repercutir com seus credores e afetar outros mutuários. Mas, conforme seus livros são analisados, tornou-se claro que sua dívida está concentrada entre os credores apoiados pelo estado indiano, principalmente a Life Insurance of India (corretora de seguros de vida do setor público do país) e o State Bank Of India, e por bancos estrangeiros. Nenhum dos dois representa um grande risco de transtornos para os cidadãos comuns da Índia, mas se a corretora de seguros de vidas tiver perdas de bilhões, isso poderia impor uma sobrecarga ao déficit orçamental do país.

De qualquer modo, existe o perigo de que o Adani talvez tenha fontes secretas de influência. Se fosse descoberto que ele tinha empréstimos ocultos por meio de algumas das empresas de fachada verificadas pela Hindenburg, isso poderia ajudar a explicar por que o conglomerado tentou fazer com que sua avaliação tivesse proporções astronômicas.

Se o Adani acabar falindo – não se sabe ao certo o grau de probabilidade desse risco – seus grandes planos para a construção do sonho de infraestrutura e painéis solares de Modi iriam por água abaixo. Mesmo assim, seus principais ativos, como portos e redes de energia elétrica, manteriam seu valor se fossem assumidos pelos credores./TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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