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O mercado “ignorou” o discurso de Fernando Haddad? Analistas comentam

A primeira fala do novo ministro da Fazenda careceu de conteúdo, segundo analistas

O mercado “ignorou” o discurso de Fernando Haddad? Analistas comentam
Fernando Haddad será o novo ministro da Fazenda a partir de 2023. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
  • O novo ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), tomou posse nesta segunda-feira (02) e fez seu primeiro discurso no cargo
  • O ex-prefeito de São Paulo falou sobre reduzir déficit primário e se comprometeu a enviar um novo modelo de âncora fiscal ao Congresso Nacional no primeiro semestre do ano
  • Entretanto, as falas do novo ministro da Fazenda não ganharam peso esperado no mercado. “Careceu de substância, focou muito no ataque ao antigo governo e foi vago em relação ao arcabouço fiscal. Foi relativamente vazio”, ressalta Jason Vieira, economista chefe da Infinity

O novo ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), tomou posse nesta segunda-feira (02) e fez seu primeiro discurso no cargo. O ex-prefeito de São Paulo falou sobre reduzir déficit primário de R$ 220 bilhões, recuperar as contas públicas e fazer o Brasil voltar a crescer, mas com responsabilidade social.

Ele se comprometeu também a enviar um novo modelo de âncora fiscal ao Congresso Nacional ainda no primeiro semestre do ano. Essa nova regra substituirá o atual teto de gastos, que estabelece um limite para despesas primárias. “Não existe mágica nem malabarismos financeiros. O que existe para garantir um Estado fortalecido é a previsibilidade econômica, a confiança dos investidores e a transparência com as contas públicas”, afirmou Haddad, durante a cerimônia.

Entretanto, em um dia de agenda política cheia, as falas do novo ministro da Fazenda não ganharam peso esperado no mercado. “Careceu de substância, focou muito no ataque ao antigo governo e foi vago em relação ao arcabouço fiscal. Foi relativamente vazio”, ressalta Jason Vieira, economista chefe da Infinity.

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O dia de agenda política cheia também ofuscou a autoridade econômica. A mensagem passada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em seu discurso de posse, realizado no último domingo (1), e os primeiros decretos do petista ganham protagonismo no pregão.

O chefe do Executivo decidiu retirar estatais como Petrobras (PETR 4 e PETR3) e Correios do programa de privatização e manteve a desoneração dos combustíveis por mais dois meses – medida que teve início no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Às 14h, o Ibovespa caía 3,08%, aos 106.276,36 pontos.

“A fala do Haddad foi mais uma, entre diversas falas, que mostram que uma nova era política começa no Brasil. Acho que o motivo principal dessa queda do mercado não é nem o discurso de um ou de outro, mas sim o grau de incerteza que o investidor tem”, explica Rodrigo Cohen, analista de investimentos e co-fundador da Escola de Investimentos.

Cohen também acredita que a reação negativa do mercado é “exagerada”. “O Boletim Focus mostrou dólar estável em relação aos últimos relatórios. Não mostrou inflação tão mais alta e os juros subiram apenas 0,25. Não é nada de surreal, mas é óbvio que essas novidades (políticas) mexem com o mercado”, diz.

Leia na íntegra a opinião de analistas:

Marcelo Boragini, sócio da Davos Investimentos e especialista em renda variável

“Me pareceu ser um discurso meio que no improviso. O tom do discurso é uma continuidade do que ele tem pregado até agora: um estado forte e mais atuante. A sensação é de que isso representa uma reversão em relação à política anterior, que era mais centrada na contenção de gastos e evitar o aumento da carga tributária. O discurso deixou claro que o novo governo não primará pelo controle de gastos. Essa preocupação fiscal é, e vai continuar sendo, o calcanhar de Aquiles do governo.”

Gustavo Cruz, especialista da RB Investimentos

“Acredito que o Haddad está dando um discurso bem mais neutro do que o de Lula ontem (na cerimônia de posse), ao qual o mercado teve uma reação mais forte. As falas do ministro sobre o programa de parceria público-privada são positivas. Ele fala de retomar a obra pública, que se não houver exageros, não tem problema. E o novo desenho da regra fiscal fica em um ritmo de espera. Acredito que Haddad será foco quando apresentar a regra fiscal.

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Já as sinalizações do presidente Lula sobre as estatais está impactando bastante. Petrobras e Banco do Brasil (BBAS3) estão caindo muito, mas sem grandes surpresas. Depois dos últimos anos tendo resultados mais fortes, essas empresas devem começar a apresentar resultados fracos frente às novas políticas e gestão.”

Jason Vieira, economista-chefe da Infinity

“O discurso de Haddad careceu, acima de tudo, de substância. Focou muito no ataque ao último governo, foi de certa maneira vago em relação ao arcabouço fiscal. Não trouxe nada de substancial, foi relativamente vazio. Isso para o mercado é ruim, pois se espera sinais melhor emitidos da autoridade econômica.

As falas do novo ministro não foram ignoradas totalmente. Diria que o mercado está receoso, mas atento às decisões e ao discurso de Haddad. Contudo, ainda não houve grandes novidades. Ele segue a mesma linha na qual presumia-se que ele adotaria.”

Rodrigo Cohen, analista de investimentos e co-fundador da Escola de Investimentos

“Fernando Haddad manteve todo o discurso dele pós nomeação e isso é uma coisa boa, mostra responsabilidade. Só que o mercado está com uma queda sistêmica grande hoje. Ou seja, o mercado todo cai, não é um setor específico.

A fala do Haddad foi mais uma, entre diversas falas, que mostram que uma nova era política começa no Brasil. Acho que o motivo principal dessa queda do mercado não é nem o discurso de um ou de outro, mas sim o grau de incerteza que o investidor tem. E nesse grau de incerteza, o investidor pensa: tendo uma renda fixa lá em cima, para que colocar dinheiro em bolsa?

Entretanto, foi uma queda exagerada. Tanto que no Boletim Focus, não mostrou o dólar para 2023 e 2024 subindo, mostrou o dólar estável em relação aos últimos relatórios. Não mostrou inflação tão mais alta e os juros subiram apenas 0,25. Não é nada de surreal, mas é óbvio que essas novidades (políticas) mexem com o mercado.”

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