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Mercado

Conflito entre Bolsonaro e STF pode ser catastrófico para a recuperação da economia

Analistas consultados pelo E-Investidor opinam sobre os problemas da crise política

O presidente Jair Bolsonaro em evento no Planalto (Foto: Marcos Corrêa/PR)
  • Presidente Jair Bolsonaro eleva a temperatura da crise política com desagravo ao STF
  • O mercado financeiro, que já tinha "precificado" o fim da pandemia do coronavírus, agora terá de refazer os cálculos

O presidente Jair Bolsonaro elevou ainda mais a temperatura da crise política instalada em Brasília desde a saída do ex-juiz Sérgio Moro do governo. Na manhã de quinta-feira 28, o presidente da República fez um discurso inflamado na porta do Palácio da Alvorada e disse “não teremos outro dia igual a ontem”, data em que a Polícia Federal realizou operação ordenada pelo ministro dos STF Alexandre de Moraes no âmbito do inquérito das fake news: “Acabou, porra”, berrou Bolsonaro.

O mercado financeiro, que já tinha “precificado” o fim da pandemia do coronavírus, agora terá de refazer os cálculos com os novos elementos que colocam a crise política como o centro da atenções.

O E-Investidor conversou com os especialistas para ajudar o investidor a entender o atual momento:

Rafael Bevilacqua, estrategista chefe da Levante Ideias de Investimentos

“Não é de hoje que a gente vê esse acirramento entre forças no Brasil, o mercado sofre com a questão política desde 2011. A gente vê forças disputando o tempo inteiro o poder, a ideologia e tudo mais. No curto prazo, não vai gerar um impacto sem precedentes, é um impacto pontual. Hoje vamos a nossa Bolsa caindo, enquanto lá fora está subindo. Vai ser como aconteceu com o próprio ex-ministro Sérgio Moro: o mercado ficou estressado com a demissão e dois dias depois voltou ao normal.

“Entretanto, isso vai ter um impacto maior no médio prazo, porque estamos, novamente, perdendo energia discutindo ideologia, quando deveríamos estar vendo medidas econômicas para estimular a economia, para sair dessa zona de recessão. Estamos perdendo o momento da retomada econômica por conta dessas discussões. Por exemplo, nossa recessão vai ser muito mais branda que a dos EUA, mas os americanos vão se recuperar muito mais rápido que nós, porque tomaram medidas para incentivar a economia.

“Nós tivemos um negócio muito mais brando, mas vamos perder a retomada porque não estamos focados em resolver o problema, pelo contrário, estamos criando mais problemas. É um pandemônio dentro de uma pandemia. Em resumo: temos um impacto pontual no primeiro momento. Pensando mais no médio prazo, isso é um negócio que impacta a retomada econômica, com nossa bolsa defasada em relação às demais. É o preço político, o preço de não se discutir uma solução e criar ainda mais problemas.”

Luis Sales, analista da Guide Investimentos

“De fato traz uma insegurança essas disputas entre os poderes. O presidente Jair Bolsonaro já vinha criticando abertamente e participando de manifestações contra o STF, mas é difícil avaliar nesse ponto se isso vai se desenrolar de uma forma mais a acirrar as tensões nos próximos dias ou se vai ter um certo encontro.

“Acredito que é uma tensão menos negativa do que uma tensão contra o legislativo, em função da agenda de reformas, mas também trava um pouco a questão de governabilidade. Os ministros do STF têm reduzido o poder de atuação do Bolsonaro, então acredito que alguns atos podem ficar prejudicados caso esse acirramento continue. O impacto, por enquanto, é bem pontual, precisamos de mais informações para saber como será daqui para frente. Entretanto, essa conjuntura tem pressionado o Ibovespa, trazendo um pouco de realização de lucros.”

Bruce Barbosa, sócio-fundador da Nord Research

“A crise política tem, sim, potencial de impactar a Bolsa à medida que ela vai adiar as reformas, que são tão importantes para o desenvolvimento do Brasil no longo prazo. Agora, um caso pessimista é a mudança da política econômica, como tirar o Paulo Guedes do comando da Economia e trocar por alguém com viés mais populista focado no curto prazo e que faça os gastos do governo crescerem, que foi a mesma coisa do governo Dilma. Esse pode ter um impacto relevante.

“Eu imagino que isso não vá acontecer, até pelo tamanho que o Guedes tomou no governo e a confiança que o presidente parece depositar na política econômica do Guedes. Além disso, o presidente da Câmara, o Rodrigo Maia, foi eleito com base em uma plataforma bastante econômica. Então, o Congresso já não é mais aquele de 2015/16 de mudar suas convicções e passar pautas-bomba como aconteceu naquele período.

“Acredito que a crise política impacte, sim, o crescimento da economia brasileira a longo prazo porque vai, pelo menos, atrasar, as reformas que são tão importantes para o desenvolvimento do País. E agora com a pandemia e com a dívida pública maior ainda, isso ainda é mais preocupante.

“Ao mesmo tempo, não impacta o nosso trabalho de analistas de ações. Não olhamos se o Brasil vai crescer no ano que vem. Vou procurar uma empresa que esteja a um bom preço, um bom resultado e que continue tendo bom desempenho, independentemente se a economia vai crescer ano que vem.

“O risco, claro, é acontecer uma catástrofe. Mas acredito que o Brasil já se provou resiliente algumas vezes às catástrofes e quando olha para o despenhadeiro, na beira do precipício, acaba voltando. Vimos isso acontecer algumas vezes na história.”

Gustavo Bertotti, economista da Messem Investimentos

“A crise política que vivemos no País tem um peso muito relevante na economia e podemos ver isso pelos indicadores, que não são nada bons. Temos um PIB com expectativas sendo reduzidas a cada semana e o câmbio também já foi muito impactado.

“Na minha opinião, a questão política foi um dos fatores principais para isso. A troca de ministros e o embate entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário tiveram um peso muito grande. Esses fatos refletem muito internacionalmente, mexendo com as expectativas e a confiança do Brasil no mundo e isso, claro, impacta a economia negativamente.

“Nosso problema é que a tensão política não tem fim e a divergência recente entre os poderes colocam o Brasil em dúvida e tem o poder afetar negativamente nossa economia.”

Ernani Reis, analista da Capital Research

“Quando a gente olha para o que está acontecendo na Bolsa de Valores, a gente vai percebendo que esse estilo de liderança do presidente Jair Bolsonaro já foi precificado pelo mercado. Quando a gente fala do governo brasileiro, já se entende que é um ambiente com muito ruído político, conflito, atrito. Isso acaba gerando um resultado único, que é a incerteza, que acaba afetando mais diretamente a percepção do investidor estrangeiro, com um aumento do Risco-Brasil para eles.

“O impacto desse ambiente conflituoso, a longo prazo, seria a redução do número, por exemplo, de investidores interessados nas privatizações do ano que vem. Porque eles vão continuar olhando para o Brasil como um país emergente, em processo de recuperação da pandemia de covid-19, mas com um ambiente político muito conturbado. Acaba que isso vai resultar em um processo de recuperação mais lento.

“O Ibovespa está trabalhando em lateralização desde abril. Nesta segunda-feira, 25, foi feriado nos EUA. O mercado já começando a reagir, então essa perspectiva mais otimista com a flexibilização do isolamento social, a gente viu o rompimento dos 83 mil pontos. Isso traduz, para mim, que o mercado está mais interessado na recuperação econômica, com essa flexibilização, do que os conflitos políticos neste momento.

“Hoje o mercado não precifica o impeachment do Bolsonaro. Hoje o mercado vê o governo de Jair Bolsonaro com um estilo ‘truncado’, meio bruto para lidar com os demais poderes e lideranças, mas que é o estilo característico dele. E isso não é o suficiente para tirar a expectativa de retomada econômica. Até porque o que define o governo Bolsonaro é a equipe econômica que ele tem.”

Pablo Spyer, diretor da Mirae Asset

“Como a crise política é interpretada nas moedas? O real está disparando hoje 1,27% e isso é culpa da crise política, a volatilidade implícita do dólar está alta. A cesta de moedas DXY, que mostra a relação do dólar contra moedas de países desenvolvidos, cai 0,5% hoje.

“Ou seja, a crise política fez o dólar frente ao real disparar enquanto ele frente a uma cesta de moedas fortes afundou. Assim, fica claro que isso é uma situação local. Enquanto mundialmente o dólar se desvaloriza, aqui ele sobe.”

Lucas Carvalho, analista da Toro Investimentos

“Sobre o efeito na bolsa, a gente percebe que o Ibovespa acelerou a movimentação de queda. Cabe frisar que precisamos analisar também o mercado externo, que impacta diretamente o mercado doméstico. Hoje, nos EUA, temos altas bem moderadas nos principais índices, muito em função da divulgação de alguns indicadores estadunidenses, como pedidos por seguro-desemprego e revisão do PIB, além dos atritos entre Pequim e Washington. Portanto, hoje o viés é de queda para ativos ligados à bolsa.

“No Brasil, a confirmação do veto ao reajuste dos servidores foi bem recebida pelo mercado e já está um tanto quanto precificada. Mas um contraponto negativo é justamente esse atrito entre STF e Governo, por conta da investigação das fake news. O presidente Jair Bolsonaro disse que “nenhuma violação de liberdade de expressão deve ser aceita passivamente”, então novamente a gente percebe uma tensão entre os poderes. Isso contribui para esse viés de queda.

“A gente percebe que esses atritos políticos diminuem o apetite ao risco pelos ativos brasileiros e é isso que a gente está percebendo agora. Claro, carece de maiores informações, ou seja, como isso se dará no longo prazo, se surgirão mais investigações nesse sentido ou outros fatores. Mas, a percebemos que sempre quando acontece uma movimentação em Brasília, isso acaba embutindo no preço. Mas é um efeito de curto prazo. No longo prazo a tendência é que tenhamos um movimento de alta no ibovespa por conta da condução de uma política econômica mais liberal.”

Joelson Sampaio, coordenador do curso de economia da FGV EESP

“A crise política tem uma relação direta com o mercado, pois ele reage muito a expectativas e a como o governo atua. Então, a economia é muito sensível à política e, de alguma forma, ela sempre vai acompanhar o que o governo faz e pensa.

“Quando eu falo mercado estou me referindo à bolsa de valores, ao câmbio, aos investidores estrangeiros, aos investidores locais e às empresas também. Então, quando temos mais crises políticas, aumenta as incertezas e o mercado não entende muito bem o que pode acontecer no futuro do País, e também o que pode acontecer com a economia.

“Logo, ele interpreta isso como um risco e o mercado fica mais volátil. Então, o conflito atual entre os poderes aumenta as incertezas, que pode refletir em aumento de risco e volatilidade no mercado.”

Ivan Kraiser, sócio da Garín Investimentos

Renan Pieri, doutor e mestre em economia pela FGV EESP

“É claro que há um embate entre Planalto e STF, isso ficou claro nas últimas ações em que a Polícia Federal visitou algumas lideranças ligadas ao presidente Jair Bolsonaro, com intuito de combater fake news. Então tem um claro atrito, acima do normal, sobre o tom com relação a essas ações, e isso cria uma crise institucional. Hoje, o filho do presidente usou um termo muito duro,”ruptura”, para se tratar do assunto e isso gera incerteza em relação ao futuro, em questão da instabilidade política. Surgem algumas dúvidas, como: será que esse conflito vai acelerar um processo de impeachment? Será que vai ter algum outro tipo de consequência, de ruptura mesmo, por parte do governo?

“Independentemente de cenários mais extremos, essa conjuntura cria uma percepção de risco maior para o investidor. A situação já está difícil, a gente já vem de um risco de crise econômica muito alto por conta da pandemia e os dados do CAGED consolidaram esses impactos, isto é, a gente tem mais de oito milhões de empregos com suspensão ou redução de jornada, mais um milhão de pessoas que perderam os empregos formais nos últimos dois meses. Tudo isso somado a esse capítulo entre STF e Governo põe ainda mais fogo nessa lenha.

“O outro ponto é como o Governo vai reagir politicamente, a gente tem percebido nas últimas semanas um movimento do presidente de procurar deputados do centrão para aumentar sua base no Congresso e, no momento que o Governo fica mais fragilizado, é natural que ele aumente essa procura e fique mais caro ainda para conseguir esse apoio. Consequentemente, o perfil muda um pouco, já que até fevereiro o Governo tinha um verniz reformista que dava ao mercado uma certa tranquilidade, com a expectativa de haver reformas estruturais. Com essa mudança de composição do governo – que talvez aumente mais agora – essa perspectiva vai embora de vez e talvez a gente possa perceber um certo desânimo do mercado com o futuro da economia.”

(Com a colaboração de Isaac de Oliveira, Jenne Andrade, Márcio Kroehn e Mateus Apud)

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