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Mercado

Em “novembro mágico” na B3, saldo de investimento estrangeiro salta 10 vezes sobre outubro

Saldo foi positivo em R$ 31,5 bilhões, valor recorde na contagem mensal desde o início da série histórica, em 1995

Por Isaac de Oliveira

01/12/2020 | 10:57 Atualização: 03/12/2020 | 8:03

Foto: Renato Cerqueira/Futura Press
Foto: Renato Cerqueira/Futura Press

Uma combinação de fatores aconteceu para novembro ser um mês “mágico” na bolsa brasileira, ao menos na perspectiva de entrada de capital estrangeiro, a maior em 25 anos. Ainda que o pregão de ontem (30) tenha sido de ajuste, com realização de lucros, o saldo de recursos do exterior foi positivo de mais R$ 31,462 bilhões até a última quinta-feira (26), valor recorde na contagem mensal desde o início da série histórica, em 1995. Apesar do otimismo e da liquidez no mercado, para que esses recursos fiquem no País, será necessário que a “lição de casa” seja feita.

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“O mês de novembro foi um mês de notícias bastante positivas, principalmente sobre a vacina, o que trouxe apetite ao risco”, diz Rossano Oltramari, estrategista e sócio da 051 Capital. “Isso fez com que os ativos de risco tivessem um mês mágico, com o Ibovespa subindo mais de 17% no mês”, afirma.

Para efeito de comparação, o saldo de investimento estrangeiro na B3 em outubro foi positivo em R$ 2,867 bilhões, resultado de compras de R$ 282,428 bilhões e vendas de R$ 279,561 bilhões. Ou seja, o saldo positivo da entrada de capital gringo em novembro é mais de dez vezes o de outubro. No acumulado de 2020 (até o dia último dia 26), contudo, o saldo é negativo, com a saída de R$ 33,812 bilhões da bolsa.

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Antes de entender o que fez tanto dinheiro de fora escoar para o Brasil, é preciso entender o que o fez sair. A resposta está na pandemia: os temores e as incertezas provocadas pela crise sanitária levaram investidores a retirar seus recursos de economias emergentes praticamente o ano todo.

Mas, em novembro, uma onda de otimismo foi desencadeada no mercado internacional por dois motivos: o resultado das eleições nos Estados Unidos, com a vitória de Joe Biden, e uma sequência de notícias sobre as vacinas para a covid-19, com diversas candidatas com eficácia superior a 90%. Otimismo tão forte que superou até os temores de uma nova onda de coronavírus, com países da Europa recrudescendo mais uma vez as medidas de segurança.

Essas informações beneficiaram o mercado global como um todo, pois investidores saíram em busca de negócios com rentabilidade. Movimento esse que explica por que os índices de diversas bolsas internacionais disparam em novembro, como a do México, com alta de 13%, a da Coreia do Sul, com ganho de 16%, e nos Estados Unidos, o índice S&P 500 avançando mais de 11%.

Além das notícias, vale lembrar que há muito recurso no sistema financeiro após os estímulos monetários nos Estados Unidos. Somado a isso, cresceu também uma forte demanda por investimentos de risco, e é aí onde entram os mercados emergentes, em especial o Brasil. Com o Ibovespa chegando a acumular ganhos de quase 18% no mês, o País virou opção para os gringos, uma vez que o real foi uma das moedas que mais se desvalorizaram na crise, deixando os investimentos por aqui muito baratos.

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“Quando o investidor estrangeiro parou para analisar onde ele poderia buscar retorno, naturalmente as primeiras opções que vêm são os mercados emergentes. E o Brasil estava extremamente barato em dólar na análise deles”, explica Jerson Zanlorenzi, responsável pela mesa de renda variável e derivativos do BTG Pactual digital.

O estrategista e sócio da 051 Capital lembra também que, dentre os países emergentes, o Brasil é um dos grandes destinos em termos não de qualidade de investimento, mas em tamanho de mercado.

Quem se benefia com essa entrada de recurso gringo?

Quando o investidor estrangeiro procura o País, normalmente vem em busca de papéis com maior liquidez na bolsa, e as blue chips acabam levando vantagem, explica Francisco Cataldo, head de renda variável da Ágora Investimentos. “As ações mais líquidas são os veículos de entrada para o investidor entrar em volumes maiores. Esse foi um mês onde teve uma valorização expressiva de papéis de bancos, Vale, Petrobras”, diz Cataldo.

Neste sentido, o investidor local, seja pessoa física ou institucional, acaba tirando proveito. “A bolsa se valorizou e os papéis também. Esses investidores entraram com um volume muito grande e isso puxou o índice. Quem estava posicionado se beneficiou”, explica o head de renda variável da Ágora Investimentos.

É preciso considerar também que os investidores locais foram os que “seguraram as pontas” quando os estrangeiros deixaram o país devido ao risco da pandemia. Com o baixo patamar da taxa de juros, a bolsa viu saltar o volume de novos CPFs se cadastrando junto à B3, já que investimentos mais conservadores perderam muita atratividade no quesito rentabilidade.

Resultado no ano ainda está abaixo de 2019

Ainda que novembro tenha sido positivamente fora da curva, o acumulado do ano ainda é bem abaixo do que se viu em 2019. Os Investimentos Diretos no País (IDP), entre janeiro e outubro, somaram US$ 31,9 bilhões, valor abaixo da metade dos US$ 69,2 bilhões que ingressaram no mesmo período de 2019, segundo o Banco Central.

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Em outubro, foram investidos US$ 1,8 bilhão por estrangeiros no setor produtivo, quando no mesmo período do ano passado o montante foi de US$ 8,2 bilhões.

Entre outubro de 2019 e outubro de 2020, o saldo de investimento estrangeiro ficou em US$ 43,5 bilhões. O Banco Central estima que neste ano o IDP seja de US$ 50 bilhões.

O que pode manter e atrair o capital estrangeiro no País?

Analistas ouvidos pelo E-Investidor avaliam que esse volume recorde não deve se repetir em dezembro mas, ainda assim, a expectativa é positiva para os próximos 12 meses. “Vamos ter um movimento de continuidade de entrada de fluxo internacional. Não nessa intensidade de novembro, que foi um mês bem atípico”, afirma Rossano. Para ele, isso se justifica porque o mercado brasileiro tem muitas oportunidades e liquidez atualmente.

Mas otimismo por si só não se sustenta. Para que o volume de recursos estrangeiros seja maior de entrada do que saída é necessário que algumas medidas saiam do papel, como as reformas que podem tornar o cenário fiscal do País mais claro para o investidor de fora, que normalmente gosta de aplicar no longo prazo.

“Se fizer o dever de casa no ano que vem, arrumar o rumo do quadro fiscal, avançar as reformas e mostrar pelo menos alguma estabilidade nesta questão político-econômica, o País pode continuar recebendo um fluxo por um bom tempo”, diz Zanlorenzi, que não descarta riscos com a pandemia, como uma nova onda da covid-19 e problemas na distribuição da vacina.

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Além das reformas, os analistas lembram que é preciso apagar algumas interrogações atuais, como a manutenção do teto de gastos e o que vai ser feito com o auxílio emergencial. Recentemente, o ministro Paulo Guedes afirmou que, se uma nova onda de coronavírus se instaurar no País, o auxílio será prorrogado.

Apesar do cenário positivo em novembro, João Beck, economista e sócio da BRA, afirma que o “jogo ainda não virou” e que a “paciência do mercado tem prazo de validade”. “Pandemia é como uma guerra e ainda nem saímos dela”, avalia Beck. “Precisamos apagar o fogo contendo gastos e prosseguindo com reformas, antes de falarmos em agenda positiva”.

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