IPCA fica em 0,33% em dezembro e “deixa gosto amargo”; entenda os impactos nos juros
Inflação desacelera no acumulado de 12 meses e volta a ficar abaixo do teto da meta, mas pressão de serviços reforça postura conservadora do Banco Central
Resultado do IPCA de dezembro confirma inflação dentro do teto da meta, mas pressão dos serviços mantém o Banco Central cauteloso na condução dos juros. (Foto: Adobe Stock)
A divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de dezembro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na manhã desta sexta-feira (9), trouxe um retrato ambíguo do processo inflacionário no Brasil. O índice avançou 0,33% no mês, acelerando em relação à alta de 0,18% registrada em novembro. Ainda assim, no acumulado de 12 meses, a inflação recuou para 4,26%, ante 4,46% até novembro, voltando a ficar abaixo do limite superior do sistema de metas, que é de 4,5%.
Na leitura de Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg, o resultado veio muito próximo das projeções da instituição e confirma um primeiro objetivo importante da política monetária. Para ele, o desafio agora é mais complexo: conduzir a inflação para perto do centro da meta, de 3%.
A composição do índice ajuda a explicar essa leitura cautelosa. Segundo Serrano, os serviços seguem como principal foco de pressão, com alta de 0,70% em dezembro, influenciada sobretudo pelo aumento de 12,6% nas passagens aéreas. Os produtos industriais também aceleraram, subindo 0,48%, puxados por vestuário e artigos de residência.
Em contrapartida, a inflação foi contida pela alimentação no domicílio, que avançou apenas 0,14%, e pelos preços administrados, que recuaram 0,22%, com destaque para a queda de 2,4% na energia elétrica, reflexo da mudança da bandeira tarifária para amarela.
Serrano avalia como correta a sinalização do Banco Central de manter os juros em patamar significativamente contracionista, com início do ciclo de cortes apenas em março.
Já o economista sênior do Inter, André Valério, chama atenção para a aceleração dos núcleos de inflação (medidas que excluem itens mais voláteis) cuja média saltou de 0,23% para 0,46% no mês, levando o acumulado de 2025 a 4,61%, acima do teto da meta.
“Apesar da boa notícia da desinflação observada em 2025, o dado de dezembro deixa um gosto amargo”, avalia.
Do ponto de vista histórico, Valério destaca que o processo de desinflação ao longo de 2025 foi significativo. Para 2026, a expectativa do Inter é de continuidade da acomodação, com o IPCA encerrando o ano em 3,90%.
Já o C6 Bank avalia que o resultado de dezembro veio com pressão concentrada no grupo de Transportes, que subiu 0,74%.
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Apesar de o IPCA ter fechado 2025 abaixo do teto da meta, o banco ressalta que o cenário segue desafiador, sobretudo por causa da inflação de serviços, que acumulou alta de 6% no ano, sustentada por um mercado de trabalho aquecido.
“A tendência é de que o controle da inflação continue sendo uma tarefa difícil nos próximos meses”, avalia a instituição, que projeta um IPCA de 4,8% em 2026 e 2027, pressionado por um real mais depreciado e preocupações fiscais.
Ainda assim, o C6 Bank entende que os dados não alteram o cenário para a política monetária. “A Selic deve ser mantida em 15% na próxima reunião do Copom[Comitê de Política Monetária], e o ciclo de cortes deve começar em março”, afirma o banco.
Já Matheus Pizzani, economista do PicPay, projeta um IPCA de 4,20% em 2026, com aceleração no primeiro trimestre devido a fatores sazonais e reajustes de preços administrados, como combustíveis e transporte público, seguida por um comportamento mais benigno ao longo do ano, em linha com o arrefecimento da atividade econômica e do mercado de trabalho.