

O fim do primeiro semestre de 2023 reforçou que a Bolsa de Valores não é para amadores. As empresas que estão entre as maiores altas do Ibovespa no acumulado do período, antes estavam entre as maiores quedas da Bolsa, aponta Jadye Lima, economista e operadora de renda variável na WIT Invest. Nesta reportagem, veja qual foi o investimento mais rentável do semestre
Essa mudança de cenário, segundo a especialista, serve para mostrar ao investidor que é necessário atenção e cautela na hora de escolher as ações que entrarão na sua carteira, já que as altas podem estar ligadas a fatores macros e não da companhia em si.
“Esses movimentos requerem uma análise mais aprofundada sobre os riscos que representam e as motivações das altas atuais, pois muitas vezes elas podem estar vinculadas ao movimento de mercado e pouco ancoradas nos fundamentos das empresas”, afirma.
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Para saber se vale a pena investir ou não nessas empresas, o perfil e objetivo de cada investidor deve ser analisado, já que a renda variável está muito sujeita riscos e uma somatória de questões que devem ser analisadas.
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“Os retornos auferidos não representam necessariamente a tendência de alta daqui para frente. É importante que o investidor entenda os riscos e volte nas razões individuais de comprar uma ação para entender se essas informações estão de acordo com esses princípios ou não”, diz.
As 5 maiores altas do Ibovespa no semestre
Ao E-Investidor, a Ágora Investimentos realizou uma pesquisa que mostra as maiores altas do Ibovespa do dia 2 de janeiro a 30 de junho. Em ordem, estão Azul (AZUL4), Yduqs (YDUQ3), Gol (GOOL4), IBR Re (IRBR3) e Cyrela (CYRE3). Confira os principais comentários sobre cada uma.
Azul (AZUL4)
Como campeã do ranking, aparece uma das maiores companhias aéreas brasileiras, a Azul (AZUL4), que avançou 98,55% no 1S23, cotada, nesta sexta-feira (30), a R$ 21,86. Para Lima, as razões da alta podem ser atribuídas à normalização da demanda pelo transporte aéreo, bastante impactado pela pandemia, somado a outros dois aspectos.
“O primeiro são os recentes incentivos fiscais com o programa Voa Brasil, que visa otimizar a ocupação nos voos. Em segundo lugar, podemos atribuir ao real que se apreciou frente ao dólar, e consequentemente, contribui para reduzir os custos da companhia”, diz.
Ao olhar os indicadores fundamentalistas, a economista destaca o P/L negativo, que indica que a empresa está operando no prejuízo. “Por essa e por outras razões, a maior parte das casas de análise tem recomendação neutra para a ação”, complementa.
“Os principais riscos da tese, segundo analistas, são a concorrência cada vez mais intensa que reduz a margem da companhia, a depreciação cambial e o aumento do preço do petróleo que impactaria os custos nos transportes”, explica.
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Projeção XP (XPB31):
- Preço-alvo R$ 30
- Risco 56 em uma escala de 0 a 100
Yduqs (YDUQ3)
Em segundo lugar, com um avanço de 94,89% nos seis primeiros meses, vemos a Yduqs (Yduq3), cotada a R$ 19,82 nesta sexta. A Yduqs é uma das maiores empresas de educação superior do Brasil, em termos de quantidade de alunos, e teve grande impacto negativo nos últimos anos por conta da pandemia e dos juros altos, o que explica uma correção.
“O setor de educação foi muito prejudicado pela pandemia, e as ações ainda ofereciam um prêmio a ser capturado pelos investidores. Além disso, no começo do mês a companhia anunciou um aumento de posição por parte de investidor estratégico, o que pode ter contribuído para uma maior visibilidade dos ativos, combinado com um ambiente relativamente mais favorável para teses de duração mais longa, a partir do cenário de corte dos juros”, avalia a Ágora.
Lima, por sua vez, volta o olhar para os fatores micros da empresa. Segundo a economista, o P/L (Preço/Lucro) da empresa está em níveis bastante altos, o que em uma tradução livre, significa que a empresa está cara. Já o ROE (retorno sobre patrimônio), mostra baixa eficiência da empresa, aponta a especialista. Contudo, apesar desses fatores micros, ela cita que a maior parte das casas de análises têm recomendação de compra para o ativo.
“Os principais riscos são o cenário macro, um crescimento econômico abaixo do esperado, que pode impactar na renda e no emprego. Além disso, a concorrência e tecnologia, cada vez mais em evolução no setor; e alguma mudança nos benefícios fiscais como, por exemplo, no Programa Prouni, também impactaria”, destaca.
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Projeção XP (XPB31):
- Preço-alvo R$ 23,50
- Risco 43 em uma escala de 0 a 100
Gol (GOLL4)
Pioneira no modelo de transporte aéreo de baixo custo na América Latina, a Gol (GOLL4) está na terceira colocação das maiores altas do semestre, com um avanço de 79,43%, cotada a R$ 13,17 nesta sexta (30).
Para a Ágora, o forte recuo do dólar no mês, além do anúncio da redução de 12,6% no querosene de aviação pela Petrobras, favoreceram a redução dos custos operacionais e recomposição das margens.
“Grande parte dos analistas tem recomendação neutra para a ação. Os fundamentos também chamam a atenção negativamente, o P/L da companhia está negativo e o ROE não surpreende”, completa Lima.
Projeção XP (XPB31):
- Preço-alvo R$ 22
- Risco 57 em uma escala de 0 a 100
IRB (IRBR3)
Na quarta posição, está IRB Re (IRBR3), resseguradora com mais de 84 anos de história. No primeiro semestre de 2023, ela apresentou alta de 68,8%, cotada a R$ 43,55 na última sessão de junho.
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Os motivos do destaque, segundo Lima, estão atrelados ao juros altos até então, que se matém em 13,75%. “O setor de seguros é um dos que mais se beneficia do ambiente de juros altos”, diz.
Contudo, sobre os fatores micros, a especialista relembra que os escândalos de governança que a empresa passou em 2020, impactaram sua imagem e colocou em xeque a confiabilidade dos indicadores fundamentalistas.
A IRB também possui P/L negativo, bem como seu indicador de eficiência ROE. A maior parte do consenso de mercado tem recomendação neutra para a ação.
Projeção Eleven (XP não projeta preço-alvo para IRB):
- Preço-alvo R$ 42
Projeção XP (XPBR31) para risco:
- Risco 29 em uma escala de 0 a 100
Cyrela (CYRE3)
Por último, está a Cyrela (CYRE3), uma das maiores empresas do ramo imobiliário do País. Ela apresentou no primeiro semestre de 2023 uma valorização de 59,38%, cotada a R$ 20,13 na última sessão de junho.
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Segundo a Ágora, o forte fechamento nas curvas de juros no primeiro semestre beneficiou as empresas de construção civil, principalmente a Cyrela, em função da elevada liquidez na Bolsa. “Ela está como principal escolha do investidor estrangeiro para se posicionar no setor na B3”, comenta a casa.
Somado a isso, a Ágora analisa que a queda dos juros torna as linhas de crédito imobiliário mais acessíveis, o que impacta positivamente a demanda das construtoras, além de trazer menos atratividade para investimentos em renda fixa. “Isso faz com que investidores busquem outras alternativas mais rentáveis, e a compra de imóveis para especulação ou como forma de renda recorrente via aluguéis, volta a ser uma opção interessante”, afirma.
Ou seja, assim como para Yduqs, o ambiente de juros altos acaba impactando diretamente a atividade do setor, pois o custo de financiamento fica mais caro e prejudica a demanda. Como os dados econômicos desse semestre foram positivos, o setor ganhou fôlego, mostra Lima.
“Nos últimos meses, o indicador macroeconômico relevante no modelo de negócios da companhia, o IGP-M (conhecido como a inflação do ramo imobiliário), mostrou um arrefecimento nos dados reportados, inclusive com deflação, isso torna o investimento em imóveis mais atrativo o que beneficia positivamente as projeções da empresa”, explica.
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Somado a isso, a diversificação do portfólio de negócios da Cyrela, que está focando em média e baixa renda, vêm captando as atenções dos investidores. Em função desse modelo, a maior parte dos analistas tem recomendação de compra para a empresa.
“[Contudo], os indicadores fundamentalistas como o P/L mostram que as cotações atuais não estão tão baratas com relativo nível de eficiência e ROE de 11%”, diz Lima.
“Os principais riscos são os custos que podem impactar a curto prazo, o menor poder de precificação, com taxas de juros imobiliárias mais altas afetando o poder de compra; e a concentração no mercado de São Paulo, onde há outros players que podem pressionar os preços”, conclui.
Projeção XP (XPB31):
- Preço-alvo R$ 26
- Risco 44 em uma escala de 0 a 100