

Em uma situação complicada, com juros elevados e inflação acelerada, as empresas brasileiras atuantes em varejo e e-commerce perderam o favoritismo do mercado para uma empresa estrangeira, a argentina Mercado Livre (MELI34). Não é que Magazine Luiza (MGLU3) e Casas Bahia (BHIA3) estejam com uma gestão ruim, mas o Mercado Livre conquistou a confiança de oito dos nove analistas ouvidos pela reportagem. Um os motivos é que a companhia argentina apresentou resiliência em seu modelo de negócio durante e depois da pandemia da covid-19.
A ação do Mercado Livre tem recomendação de compra do Citi, Goldman Sachs, BTG Pactual, Ativa Investimentos, XP Investimentos, Levante, Itaú BBA e Santander. Já a Suno é a única que não recomenda compra para o papel, pois considera que o ativo está caro. Em contrapartida, as varejistas genuinamente brasileiras ficam com recomendação neutra ou de venda.
O Magazine Luiza lidera as recomendações neutras, principalmente após a divulgação do último balanço. Algumas casas, como o Goldman Sachs, apontam que a empresa tende a enfrentar uma falta de recuperação na demanda por sua oferta principal de bens duráveis em 2025, devido à maior concorrência online. Já para a XP, o cenário macroeconômico e a forte concorrência do setor são os fatores fundamentais para o investidor não comprar a ação, uma vez que o resultado da empresa já apontou desaceleração no último trimestre de 2024 em meio ao ciclo de alta de juros.
Publicidade
Invista em oportunidades que combinam com seus objetivos. Faça seu cadastro na Ágora Investimentos
O Grupo Casas Bahia também não é apontado como uma ação para comprar agora. O consenso salienta que a empresa continua longe de concluir o seu plano de transformação e, por isso, o papel não está atrativo. Diferentemente de Magazine Luiza, que está com recomendação neutra na maioria dos analistas, Casas Bahia chega a ter recomendação de venda por parte de algumas casas, como o Goldman Sachs. Mesmo com as críticas, os analistas reforçam que a varejista tem apresentado melhora operacional a cada trimestre e que, em algum momento, o negócio pode voltar a deslanchar.
Por que o Mercado Livre é o favorito?
Se as varejistas genuinamente brasileiras não estão com tanta barganha com o mercado, a gringa acaba dominando as recomendações. Os analistas do Itaú BBA dizem olhar com bons olhos para o mercado após o Meli ter anunciado um investimento de US$ 3,4 bilhões no México para contratar mais 10 mil pessoas em 2025, elevando o número total de funcionários para 35 mil no México. Os esforços são para melhorar a área de tecnologia do Mercado Livre.
A XP Investimentos diz que vê a ação atrativa pelo fato de o mercado onde a companhia atua possuir tendências estruturais positivas, visto que a penetração do e-commerce e a bancarização da América Latina continuam abaixo dos níveis dos países desenvolvidos. A XP também reforça o histórico de execução do Meli, que mesmo em anos mais complicados, consegue apresentar bons resultados, puxado principalmente pela estratégia de competição da varejista.
Essa estratégia vem mostrando resultados para a empresa até em momentos em que os concorrentes brasileiros vão mal. Em 2022 e 2023, o Mercado Livre teve lucros de US$ 482 milhões e US$ 987 milhões, respectivamente. Já o Magazine Luiza teve prejuízos de R$ 499 milhões em 2022 e outro de R$ 979,1 milhões em 2023. O Grupo Casas Bahia repetiu a mesma dose, com prejuízo de R$ 342 milhões em 2022 e outro prejuízo de R$ 2,6 bilhões em 2023. Magazine Luiza e Casas Bahia foram fortemente afetadas pelo ciclo de alta de juros do período, enquanto o Mercado Livre manteve sua operação resiliente e reportando lucros.
De acordo com Caroline Sanchez, analista da Levante Inside Corp, toda essa resiliência do Mercado Livre acontece pelo fato de a operação ser enxuta e menos custosa o que a dos rivais. Ela comenta que o Mercado Livre tem uma abordagem mais diversificada, mais resiliente, por ser líder no segmento 3P.
Publicidade
O 1P é conhecido como comércio eletrônico de primeira parte. Nesse caso, a varejista compra produtos, estoca, determina preços, vende em sua loja virtual e cuida de toda a logística de entrega. Já o 2P é quando um terceiro anuncia seu produto no site do Magalu, Casas Bahia ou Mercado Livre. O terceiro é responsável somente pela venda do produto, mas as demais questões de entrega ficam por responsabilidade do Grupo Casas Bahia ou da empresa dona do site. No 3P, o varejista é responsável por todo o processo de entrega e venda, e o marketplace do Mercado Livre é somente um canal para mostrar o produto.
“Enquanto Magalu e Casas Bahia ainda lutam contra margens operacionais baixas, uma concorrência extremamente agressiva e altos custos de financiamento, o Mercado Livre consegue operar com um Ebitda muito robusto, com margens sustentáveis, crescendo em várias vertentes e tem ali um posicionamento consolidado em vários países da América Latina”, aponta Sanchez.
Mercado Livre é argentino, mas economia local não afeta tanto a empresa
O Mercado Livre é uma empresa argentina, mas o fato de a companhia atuar no país vizinho, que está com inflação acelerada, recessão econômica e a maioria da população na pobreza, não deve impactar tanto a empresa. Vale lembrar que a Argentina encerrou 2024 com queda de 1,7% do seu Produto Interno Bruto (PIB). A inflação anual do país está em 66,9% em 12 meses até fevereiro, ou seja, um cenário bem conturbado para uma empresa do setor varejista desse país.
Todavia, os analistas comentam ser pouco provável que a empresa sofra com essa questão, isso porque metade das vendas do Mercado Livre são no Brasil e os 50% restantes são espalhados por países da América Latina, como México, Chile, Colômbia e a própria Argentina. Desse modo, eles acreditam que isso garante uma boa diversificação geográfica da companhia, reduzindo os riscos.
Ainda assim, Lucas Barbosa, analista da Ativa Investimentos, reforça que o investidor deve entender que o negócio ainda possui exposição ao mercado argentino, mesmo que seja mais via Mercado Pago. “O fato de a empresa ter operações no país faz com que ela corra os riscos locais. No entanto, não vejo que esses riscos à economia argentina devem fazer com que as ações caíam”, aponta Barbosa.
Mercado Livre é o novo Magalu e pode desabar no futuro?
Para os analistas, o investidor não deve se preocupar, pois as companhias de fato estão em situações diferentes. O Magazine Luiza chegou a ter um preço por ação de R$ 280,84, considerando os agrupamentos de ações. Esse valor é máxima a histórica intradiária da ação, que foi atingida no dia 9 de novembro de 2020. Desde então, o papel acumula queda de 96,4% até sexta-feira (21), quando encerrou o pregão a R$ 10,10.
Publicidade
Para Barbosa, da Ativa Investimentos, o Magazine Luiza passava por uma expetativa muito grande do mercado em relação aquilo que a empresa poderia entregar em um momento benigno para a empresa com a menor Selic da história, com a taxa em 2% ao ano. “Quando os juros subiram, a empresa passou a reportar prejuízos, o que frustrou o mercado e mostrou que a expetativa estava alta. Isso não aconteceu com Mercado Livre, que se manteve resiliente em momentos difíceis”, argumenta Barbosa.
No entanto, um dos analistas ouvidos pela reportagem é mais receoso. João Daronco, analista da Suno Research, reconhece que o Meli é melhor que os concorrentes, mas o que o preocupa é o preço do papel. “O Mercado Livre não é uma bolha, a empresa vale realmente o preço cobrado na tela para o investidor. Todavia, esse ponto é desanimador, pois há poucos gatilhos de alta para a ação, fazendo o papel não ser tão atrativo para o investidor. Por isso, com esse preço, preferimos ficar de fora da ação”, diz Daronco.
Em linhas gerais, o consenso aponta para a compra do papel do Mercado Livre (MELI34) pela robustez da operação, como diversificação geográfica no varejo, diversificação de negócios e custos reduzidos. Até o único analista que não recomenda compra para o ativo reconhece que a empresa está com um modelo consolidado e forte, deixando essa única recomendação neutra.
Publicidade