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Mercado

Bancos estrangeiros se unem para impulsionar jovens mulheres no mercado de capitais

Objetivo é acabar com estereótipo de que o mercado não é para mulheres

Foto da Avenida Faria Lima vazia na região do Largo da Batata.
Avenida Faria Lima, conhecida por ser o maior e mais importante centro financeiro da cidade de SP. (Leonardo Benassatto/Reuters)
  • Goldman Sachs, BNP Paribas, Deutsche Bank e UBS Brasil lançam a segunda edição do curso ‘Dn’A Women - Develop and Achieve’
  • O projeto oferece 60 vagas para estudantes cisgênero e transgênero de qualquer curso universitário com graduação prevista entre o final de 2021 ou 2023
  • A iniciativa levanta a discussão sobre a desigualdade de gênero no mercado financeiro

(Valéria Bretas e Jenne Andrade) – A luta pela inclusão das mulheres no mercado financeiro ganhou força no século XIX. Enquanto Victoria Woodfhull, símbolo dos direitos da mulher nos Estados Unidos, entrava nos holofotes ao tornar-se a primeira investidora ativa de ações de Wall Street, famoso distrito considerado como o coração financeiro de Nova York, Eufrásia Teixeira Leite dava início a um legado semelhante no Brasil.

Natural de Vassouras, no interior do Rio de Janeiro, Eufrásia se aventurou no universo das finanças na década de 1870, quando se viu obrigada a administrar o patrimônio herdado por ela e sua irmã depois da morte dos pais. Aos 26 anos, e com uma riqueza na ordem de 2 toneladas de ouro, ela foi a primeira brasileira a investir na bolsa de valores.

Passados 150 anos, o estereótipo de que o mercado financeiro não é lugar para as mulheres continua. Um levantamento realizado pelo Credit Suisse embasa este cenário: de acordo com o banco suíço, a presença feminina nos conselhos de empresas da indústria financeira é de apenas 22,2% no mundo.

A nítida dificuldade de ganhar espaço em um ambiente competitivo, e amplamente dominado por homens, motivou quatro bancos estrangeiros deixarem a concorrência de lado para impulsionar a equidade de gênero através da educação. As instituições Goldman Sachs, BNP Paribas, Deutsche Bank e UBS Brasil lançam, juntas, a segunda edição do curso ‘Dn’A Women – Develop and Achieve’, programa gratuito de formação profissional destinado à jovens universitárias do estado de São Paulo.

Com cinco meses de duração, o projeto oferece 60 vagas para estudantes cisgênero e transgênero de qualquer curso universitário com graduação prevista entre o final de 2021 ou 2023. Por conta da pandemia de coronavírus, as aulas terão início no dia 15 de agosto e serão ministradas aos sábados em tempo real na internet.

Na programação, a grade conta com cinco módulos – comunicação, finanças pessoais, mercado financeiro, liderança e autoconhecimento – e mentoria individual com profissionais dos quatro bancos de investimentos. As inscrições para o processo seletivo já estão abertas e vão até o dia 22 de julho. Para disputar uma das vagas é necessário ter nível de inglês intermediário.

Em entrevista ao E-Investidor, os representantes das instituições parceiras destacam que a ideia do projeto surgiu em um almoço com as 4 mulheres que, na época, comandavam os bancos internacionais no País e tinham um objetivo em comum: atrair estudantes mulheres para aumentar a representatividade feminina nesse ambiente.

“O programa é uma ferramenta importante para quebrar alguns vieses relacionados ao mercado financeiro, principalmente para estudantes que às vezes não olham para esse nicho como possibilidade de carreira”, diz Maria Silvia Bastos Marques, Presidente do Conselho Consultivo do Goldman Sachs no Brasil.

Na liderança do banco desde 2018, ela carrega um histórico de peso: foi a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional). “O objetivo é desenvolvê-las e oferecer oportunidades no mercado de trabalho.”

No ano passado, o Dn’A recebeu mais de 1,3 mil inscrições. Das 60 participantes, cerca de 75% estão estagiando ou com vagas efetivas em entidades financeiras espalhadas pelo País.

Sylvia Coutinho, CEO do UBS no Brasil, relata que uma das alunas estava prestes a sair da área em função dos preconceitos de gênero sofridos ao longo dos anos.“Ela percebeu com o programa que desistir não era a decisão correta”, diz. “O mercado financeiro sempre teve o preconceito de ser um ambiente masculino. Portanto, também cabe a nós, CEOs de grandes bancos, quebrar esse paradigma.” A diversidade é um pilar importante para o UBS, que tem hoje 50% de mulheres em seu comitê Executivo.

Antes de participar do curso, Milena la Rubia, estudante de 21 anos de Ciências Contábeis, de fato não tinha a intenção de atuar no mercado financeiro. “O programa representa mulheres que estão unidas para enfrentar os desafios que essa área apresenta. Queremos ampliar o nosso protagonismo”, diz. Ela foi uma das estudantes contratadas para o programa de estágio do Deutesche Bank.

A iniciativa costurada em 2019 também ganha uma mudança neste ano. Sandrine Ferdane, ex-CEO do BNP Paribas que participou da idealização do projeto, passou o bastão do comando da unidade brasileira para Ricardo Guimarães em março de 2020.

Há 18 anos em diferentes posições de liderança no banco francês, o executivo mostra que promover diversidade é uma tarefa de todos. “A minha entrada mostra que o banco não olha o gênero para fazer uma nomeação. O curso casa com essa ideia de promover igualdade e oportunidades para os jovens crescerem nessa carreira”, diz. “Esse é um processo demorado, mas precisamos dessas iniciativas para impulsionar mais mulheres em cargos de chefia. O jovem é o futuro para esse equilíbrio.”

Sem medo da crise

Desde o final do ano passado, as mulheres lideram a alta de investidores pessoas físicas na B3 – e a crise do coronavírus não foi motivo para barrar esse movimento. Em janeiro, por exemplo, eram 431,9 mil na Bolsa de valores de São Paulo. Em maio, esse número cresceu 38%, para 598 mil.

No mesmo período, a quantidade de homens cresceu menos: 34%, passando de 1,4 milhão para 1,8 milhão de investidores. Apesar de representarem somente 24% do total de investidores, o crescimento do público feminino começa a emitir sinais de evolução. “Como a rentabilidade da renda fixa caiu por conta dos cortes na taxa Selic, as investidoras começaram a buscar alternativas rentáveis para diversificar a carteira”, afirma Luciana Ikedo, especialista em finanças pessoais e sócia-fundadora da Ikedo Investimentos.

Os dados são ainda mais impressionantes quando é feito o recorte por faixa etária. O número de mulheres jovens, entre 16 a 25 anos, cresceu 361% na B3 entre maio de 2019 e maio de 2020, passando de 12,3 mil para quase 57 mil investidoras. Segundo Ikedo, esse progresso é um vislumbre de um futuro menos desigual no mercado financeiro. “A evolução da base é muito importante. Se continuarmos assim, muito em breve teremos uma posição mais igualitária e de destaque nesse universo na próxima faixa etária”, diz.

O mais curioso é que foi justamente no mês em que o Ibovespa tombou, e houve pânico no mercado acionário devido ao coronavírus, que houve a maior entrada proporcional de investidoras jovens na bolsa em um mês desde 2019. Em março, a alta do grupo de mulheres dessa faixa etária na B3 foi de 29,3% em relação a fevereiro deste ano – passando de 33,9 mil para 43,9 mil investidoras.

“A proporção entre homens e mulheres ainda apresenta uma taxa diferente que gostaríamos de ver. Já o Tesouro Direto, por exemplo, apresenta uma proporção de 60% homens e 40% mulheres. Vamos chegar lá”, diz Felipe Paiva, diretor da B3.

Para Maite Leite, CEO do Deutsche Bank desde 2018, o boom nos números justo no momento de maior volatilidade da história não é uma coincidência. “Existe um contingente grande de mulheres que são chefes das famílias e a queda de juros impulsionou a busca por outras opções de investimentos”, afirma. “Mas em momentos de crise, elas tendem a ser muito proativas e gerenciar as finanças de forma bastante efetiva”, diz.

A educação financeira, principalmente quando iniciada na infância, é apontada pelas quatro lideranças parceiras do projeto Dn’A como fundamental em todo o processo de inclusão
feminina nas finanças. A opinião é compartilhada por Luciana, especialista da Ikedo investimentos. “Ensinar a criança desde cedo faz com que ela cresça com noções de orçamento, consumo consciente e investimentos. No futuro ela ganha mais qualidade de fina por ter essa relação saudável com o dinheiro”, diz.

Idade para começar

A trajetória de Carolina Bartunek, filha de Florian Bartunek, um dos maiores gestores de fundos de ações do país, estampa a premissa de que não existe idade para entender e fazer os primeiros investimentos. Aos 12 anos ela pediu um patins de presente ao pai e foi questionada: “Você quer um par de patins ou um par de ações?.

O processo de educação financeira de Carolina, hoje colunista do E-Investidor aos 17 anos, começou naquele momento. De lá para cá, os presentes se transformaram em ações e ela mergulhou em livros e pesquisas para entender melhor sobre as empresas antes de investir. “A nossa jornada de aprendizado também depende de um conteúdo com vocabulário direcionado aos jovens”, diz a estudante. “Começamos a ter voz, mas ainda há espaço para iniciativas de inclusão para mulheres jovens. Todos precisamos nos sentir incluídos.”

Carolina Bartunek, investidora e colunista do E-Investidor
Carolina Bartunek, investidora e colunista do E-Investidor (Foto: Arquivo pessoal)

Mariana Ribeiro, autora do livro #querosereufrasia e analista do ModalMais, foi uma das palestrantes da primeira edição do Dn’A e destaca a importância de treinamentos de alto padrão para melhorar a equidade. “A união dos 4 bancos mostra que eles entenderam que o cenário de desigualdade não vai ser resolvido com uma campanha individual”, diz. Ela destaca que a abordagem não deve parar por aí, e que o mercado ainda carece de ideias e produtos direcionados às mulheres. “Temos necessidades específicas. Por que ainda não temos um seguro contra violência doméstica, ou uma previdência complementar específica para mães solteiras?, questiona.

Ainda não existe uma saída clara para melhorar a igualdade de gênero, mas esforços estão sendo feitos para diminuir a disparidade. “A diversidade é um assunto que vem sendo debatido com veemência no meio empresarial e no mercado financeiro”, diz Silvia, do Goldman. “As mulheres também estão buscando uma maneira de diversificar os investimentos e acompanhamos agora a quebra de barreiras culturais. Muito ainda precisa ser feito, estamos apenas no começo.”

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