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Mercado

A nova visão para as ações da Vale após a derrocada do minério

Desaceleração da demanda na China fez as ações da mineradora despencarem 20% entre agosto e setembro

Por E-Investidor

27/09/2021 | 3:00 Atualização: 27/09/2021 | 19:02

Foto: Fabio Motta/Estadão
Foto: Fabio Motta/Estadão

(Jenne Andrade e Rebeca Soares) – Depois de recordes de alta em maio, com a tonelada  do minério de ferro custando US$ 220, o tombo veio e chacoalhou a Bolsa de Valores brasileira. Na última semana, bancos internacionais como BofA, HSBC e UBS rebaixaram as ações da Vale (VALE3) de compra para venda ou neutro, de olho nas quedas expressivas nos preços do minério de ferro negociado em Qingdao, na China. Somente entre agosto e setembro, a commodity cedeu 34,7%, passando de US$ 181,2 para os atuais US$ 118,3.

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No mesmo período, os papéis da companhia minguaram 21,27%, saindo dos R$ 98,6 e atingindo o patamar de R$ 77,6 nas mínimas do ano, segundo dados da Economatica Brasil. Para o investidor que viu as ações deslancharem no final do ano passado, com mais de 50% de valorização acumulada no quarto trimestre de 2020, a correção robusta em poucos dias foi uma surpresa desagradável.

O motivo das quedas também passou a preocupar: em uma tentativa de controlar a inflação e diminuir o impacto ambiental do aço, o governo chinês impôs sérias restrições à produção do metal no país. Medidas como o fechamento de plantas de produção e tarifas sobre a exportação de aço resultaram na diminuição brusca de demanda pelo minério de ferro, insumo usado para fabricar o metal.

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É importante lembrar que a China é atualmente um dos maiores importadores de minério e exportadores de aço do mundo, com poder de influenciar nos preços. Paralelamente, uma crise na segunda maior incorporadora imobiliária chinesa, a Evergrande, despertou desconfianças quanto à perpetuidade do modelo de crescimento econômico promovido pela gigante asiática.

Durante décadas, o investimento no mercado imobiliário foi um dos principais motores do crescimento chinês e alimentou a demanda pelo minério de ferro, usado em projetos de infraestrutura. Para acelerar a retomada econômica pós-covid, a estratégia não foi diferente. Contudo, a alta alavancagem da incorporadora, que acumula dívidas de US$ 300 bilhões, acendeu o sinal amarelo sobre uma possível bolha imobiliária se formando na China e fez o mercado temer um novo case  ‘Lehman Brothers’.

Com a possível crise na construção civil chinesa, a tendência é que a demanda por minério de ferro desacelere. Nesse contexto, o desempenho dos papéis da Vale podem ser estruturalmente afetados.

China versus Vale

Para Ilan Arbetman, analista de research da Ativa Investimentos, apesar da empresa possuir um bom desempenho nas finanças internas e gestão corporativa, a influência do cenário macro, especialmente analisando a economia chinesa, pode ser um impasse.

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“Temos que separar a parte micro da parte macro. Não temos a menor dúvida quanto à parte financeira da Vale. E o maior expoente disso são os fortes dividendos divulgados nas últimas semanas, perto da casa de dois dígitos ao ano. Isso mostra como a companhia tem sido rentável e gerando um fluxo de caixa espetacular ao longo desse último ano. Na parte financeira, a mineradora soube fazer o seu dever de casa", afirma Arbetman.

No dia 16 de setembro, a companhia anunciou o pagamento de R$ 8,10 em dividendos, um patamar considerado  elevado. Na última quarta-feira (22), entretanto, a mineradora informou o reajuste do pagamento dos proventos para R$ 8,19, em função da alteração do número de ações da companhia em circulação. Os acionistas devem receber a remuneração nesta quinta-feira (30).

"O valor ora distribuído foi apurado com base no balanço levantado em 30 de junho de 2021 e refere-se à antecipação da destinação do resultado do exercício de 2021 ", explicou a Vale, em comunicado ao mercado.

Mas o histórico de boa pagadora de dividendos não ameniza as preocupações em torno da desaceleração da China. "Mais de 50% da receita do segundo trimestre da Vale veio diretamente da China, ou seja, é muito difícil separar o desempenho do papel na B3, da performance econômica do país asiático”, destaca Arbetman.

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O analista aponta ainda que a influência da agenda verde na China, que prevê o fim da emissão de carbono até 2060, deve resultar em uma maior interferência das autoridades do país nas empresas de mineração, segmento responsável por cerca de 20% das emissões do gás poluidor.

Para Rodrigo Barros, chefe de análise da Âmago Capital, a crise no setor de construção civil da China, por conta do possível default (calote) da Evergrande, eleva a preocupação sobre um possível 'contágio' da empresa brasileira.

“O governo chinês não vai deixar o setor puxar para baixo e, mesmo que a demanda caia, pode ser que a diminuição seja leve no ano que vem. Entretanto, o ciclo de construção é de três a quatro anos. Ou seja, para os próximos anos, a demanda por minério e a produção de aço devem continuar no patamar próximo ao atual”, avalia Barros.

Nicolas Merola, analista CNPI de ações e fundos da Inversa, avalia que, caso os estoques chineses de minério cheguem em níveis muito baixos, por conta da interferência do governo chinês, a cotação da commodity pode ir para patamares mais próximos de US$ 130 por tonelada - o que manteria a competitividade da Vale.

Diferentes perspectivas

Se a correlação entre Vale e China é inquestionável, as visões sobre a extensão dos efeitos de uma desaceleração da economia chinesa nas ações são divergentes. O analista Regis Chinchila, da Terra Investimentos, aponta que o cenário de crescimento do país asiático, estimulado pelo crédito, deve ser retomado. Por isso, mantém recomendação da VALE3.

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“Respaldado ainda com uma expectativa de forte geração de caixa com demanda de metais nos países desenvolvidos e resultados sólidos com a ajuda de volumes fortes de vendas”, afirma. Para Chinchila, outro fator que influencia positivamente na exportadora é a variação cambial.

Já para Roberto Nemr, analista da Ohmresearch, a certeza é que dificilmente os investidores verão outro ‘boom’ nos papéis como ocorreu na virada de 2020 e 2021. O crescimento deve ser mantido no longo prazo, mas de forma consideravelmente mais lenta.

“É um bom investimento para quem quer receber dividendos regulares, mas não para quem quer um crescimento extraordinário de capital. Para esses, a indicação é buscar setores mais atrativos”, afirma Nemr. “Não imagino um crescimento exagerado no preço porque a China vai contribuir um pouco menos resto do mundo pode contribuir um pouco mais com a demanda, o que vai manter a produção crescendo.”

A Ágora Investimentos também mantém recomendação de compra, com preço-alvo de R$ 133 ao final de 2022, em um salto de 70% em relação ao patamar atual. A casa estima que mesmo se o minério de ferro caísse para US$ 90 em 2022, a Vale ainda geraria cerca de US$ 20 bilhões em EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) e US$ 7 bilhões em fluxo de caixa livre. No ano passado, a mineradora reportou um EBITDA de US$ 16,6 bilhões.

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"Por enquanto, não esperamos uma queda relevante na demanda por aço (o governo chinês deve intervir, especialmente considerando que 2022 é um ano importante para o presidente Xi Jinping quer consolidar o poder durante o 20º Congresso Nacional do Partido no final de 2022) e mantemos nosso caso base de queda de 1% na produção de aço na China em 2022, o que ainda implicaria em fundamentos do mercado de minério de ferro saudáveis, com preços oscilando em torno de US$ 100-120 por tonelada", afirmou a corretora em relatório divulgado aos clientes na segunda-feira (20).

Arbetman, da Ativa, por sua vez, reforça que a casa mudou a recomendação de compra para neutra há cerca de um mês, já antecipando as quedas do minério de ferro e os efeitos nos papéis da Vale. “Percebemos uma dinâmica assimétrica por parte do mercado de siderurgia e mineração, especialmente na China”, afirma. “Esperávamos um impacto nesse cenário, mas não da forma que foi. Se tivéssemos previsto, posteriormente podíamos ter alterado de compra para venda, com o objetivo de capturar essa queda forte.”

No curto prazo, permanecem as incertezas macroeconômicas em relação à atuação do Governo Xi Jinping. “Essa questão da Evergrande trouxe dúvidas muito grandes sobre a reação da China. Tememos que isso, mesmo que de forma paralela, afete o mercado de crédito local, que é fundamental para investimentos e para os principais setores demandantes de minério, como infraestrutura e logística”, afirma Arbetman.

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