IPO da SpaceX pode levantar mais que os 90 IPOs de 2025 juntos
Oferta planejada por Elon Musk pode captar cerca de US$ 50 bilhões e avaliar a empresa em até US$ 1,5 trilhão — valor que sozinho superaria tudo o que foi levantado nas estreias em bolsa de 2025
O IPO da SpaceX de Musk estabeleceria recordes caso seja lançado próximo das estimativas atuais. | Crédito: Andrew Harnik
O ano passado marcou um retorno das ofertas públicas iniciais (IPOs). O ressurgimento impulsionou fortemente os lucros das áreas de mercado de capitais de grandes instituições financeiras e ajudou a garantir um ano excepcional para os bônus de banqueiros de investimento. Agora, porém, uma única oferta pode levantar mais recursos sozinha do que todos os 90 IPOs realizados no ano passado somados — o que também significa mais dinheiro para Wall Street.
Esse “superbaleia” é ninguém menos que a SpaceX, de Elon Musk, que recentemente ganhou ainda mais dimensão após adquirir, em uma operação totalmente em ações, outra peça do império tecnológico do empresário: a xAI, criadora do chatbot Grok. A notícia de que Musk planejava abrir o capital da SpaceX surgiu em dezembro, pouco depois de uma nova rodada de financiamento avaliar a empresa de foguetes em US$ 800 bilhões. Em janeiro, pouco antes de ser comprada pela SpaceX, a xAI havia alcançado valor de mercado de US$ 230 bilhões após captar novos recursos.
Com isso, investidores já atribuem à empresa combinada uma avaliação superior a US$ 1 trilhão. Musk quer mais. Segundo reportagens da Bloomberg e do Financial Times, o objetivo é realizar uma oferta que leve a nova SpaceX a um valor de mercado de US$ 1,5 trilhão, captando cerca de US$ 50 bilhões para financiar sua expansão. O analista Franco Granda, da PitchBook, acredita que uma marca de US$ 1,75 trilhão pode ser justificável diante das enormes oportunidades de crescimento da companhia, especialmente com a rede de satélites Starlink.
As perspectivas reais para o desempenho financeiro e o preço das ações da SpaceX, no entanto, são altamente incertas. Segundo análise da Fortune, mesmo após 23 anos de existência, a empresa ainda não gera lucro líquido. Para justificar um valor de mercado de US$ 1,5 trilhão, teria de alcançar lucros superiores aos da Berkshire Hathaway para oferecer retornos atraentes aos acionistas.
Mas há um grupo que está prestes a embolsar uma fortuna inédita correndo praticamente risco zero: os bancos de Wall Street responsáveis por conduzir a oferta.
As taxas do IPO seriam gigantes — mas o grande dinheiro está no “desconto” inicial
Se atingir US$ 1,5 trilhão, a estreia da SpaceX seria o segundo maior IPO da história em valor de mercado — atrás apenas da listagem da Saudi Aramco, avaliada em mais de US$ 1,7 trilhão no final de 2019 — e muito à frente do terceiro colocado, o Alibaba, avaliado em US$ 169 bilhões em 2014.
Uma captação de US$ 50 bilhões também lideraria o ranking histórico de ofertas públicas, segundo dados do professor Bill Megginson, da Universidade de Oklahoma. Ajustado pela inflação, superaria a atual líder, a Nippon Telegraph & Telephone, que levantou US$ 44 bilhões em 1987, além de superar amplamente outras gigantes da lista, como Visa (US$ 27 bilhões em 2008) e SoftBank (US$ 28 bilhões em 2018). O valor também ultrapassaria os US$ 44 bilhões captados por todos os 90 IPOs realizados no ano passado.
Uma operação dessa magnitude deve gerar receitas sem precedentes para Wall Street. No universo dos IPOs, esses ganhos vêm basicamente de duas fontes.
A primeira são as taxas de coordenação — conhecidas como “gross spread” —, cobradas pelos bancos por vender antecipadamente as ações a investidores institucionais antes de elas começarem a negociar em bolsa. Jay Ritter, da Universidade da Flórida, um dos maiores especialistas acadêmicos em IPOs, estima que em uma oferta desse tamanho a taxa ficaria em torno de 2%. Nesse caso, os bancos arrecadariam cerca de US$ 1 bilhão apenas em comissões pela colocação dos US$ 50 bilhões em ações.
Segundo Ritter, grandes IPOs costumam ter de dois a três coordenadores líderes. São eles que decidem como distribuir as ações entre si e entre os demais participantes do sindicato de bancos, que geralmente reúne cerca de 20 instituições. Com base em operações anteriores, Ritter calcula que os coordenadores da oferta da SpaceX poderiam ficar com cerca de 35% das taxas, algo em torno de US$ 350 milhões.
Ainda assim, o verdadeiro prêmio está na segunda fonte de lucro: o ganho obtido pelos investidores institucionais selecionados quando ocorre o chamado “pop” no primeiro dia de negociação — a valorização inicial das ações.
Em termos simples, os bancos têm incentivo para vender as ações a seus maiores clientes institucionais por um preço abaixo do que o mercado estaria disposto a pagar. Isso cria escassez artificial e aumenta a valorização no primeiro dia de negociação, o que gera lucros imediatos para esses investidores.
Pesquisas de Ritter mostram que esse fenômeno é comum: em média, ações de IPO sobem cerca de 19% no primeiro dia em relação ao preço pago pelos investidores institucionais. “A capacidade de oferecer ações subavaliadas aos clientes vale muito mais do que os 2% de taxa”, afirma Ritter.
Se as ações da SpaceX subirem essa média de 19% no primeiro dia, os clientes de Wall Street teriam um ganho de papel de cerca de US$ 9,5 bilhões. Esses investidores recebem as ações justamente por serem grandes clientes das corretoras. Em troca, costumam devolver cerca de 30% desse ganho aos bancos em forma de negócios futuros.
No caso da SpaceX, isso significaria quase US$ 3 bilhões adicionais para os coordenadores da oferta. Considerando três bancos líderes, cada um poderia arrecadar algo como US$ 120 milhões em taxas e cerca de US$ 1 bilhão indiretamente via esse mecanismo — quase US$ 1,1 bilhão por instituição.
As alternativas de Musk para levar a SpaceX à bolsa
Em uma oferta de US$ 50 bilhões, a SpaceX estaria vendendo apenas cerca de 3% de seu valor de mercado. Os bancos costumam argumentar que o custo do desconto — nesse caso, quase US$ 10 bilhões — compensa por garantir uma base estável de investidores institucionais e ampla cobertura de analistas do mercado.
Mesmo assim, abrir mão de mais de US$ 10 bilhões (somando taxas e desconto) seria significativo para a empresa, sobretudo diante de suas elevadas necessidades de investimento. A xAI, por exemplo, teria gasto cerca de US$ 8 bilhões em instalações e equipamentos em 2025. E a SpaceX, fabricante de foguetes de 120 metros produzidos em escala, demanda investimentos ainda maiores.
Ritter aponta duas alternativas que Musk poderia usar para reduzir os ganhos de Wall Street.
A primeira seria uma listagem direta. Nesse modelo, não há venda antecipada de ações pelos bancos. O preço inicial é definido diretamente pela oferta e demanda no mercado. O método foi usado por empresas como Spotify, Palantir e Coinbase. Em geral, ele permite que acionistas existentes vendam suas ações, embora a empresa não capte recursos imediatamente — podendo realizar uma oferta subsequente posteriormente.
A segunda alternativa seria o chamado “limit order book building”. Nesse modelo, investidores institucionais informam não apenas quantas ações querem comprar, mas também o preço que estão dispostos a pagar. Empresas como DoorDash e Airbnb usaram esse formato. Embora não elimine completamente a subprecificação, ele reduz significativamente o custo para a companhia.
Ritter acredita que Musk poderia usar a ameaça de recorrer a um desses métodos para pressionar os bancos a reduzir taxas e oferecer preços mais próximos do valor de mercado.
“Musk é conhecido por ser um inconformista, alguém que pensa fora da caixa”, diz Ritter. “Ele tem o perfil de CEO que no passado já optou por soluções que quebram tradições.”
Musk é, de fato, um rebelde. Resta saber se também estará disposto a enfrentar Wall Street.
Esta história foi originalmente apresentada em Fortune.com e foi traduzido com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.