Combustível de aviação dispara e deve encarecer passagens aéreas em até 20%; setor já muda estratégia
Petrobras busca solução para amenizar o impacto, enquanto representante das aéreas fala em "consequências severas" para a abertura de novas rotas e oferta de serviços
Alta do QAV e do petróleo eleva custos das aéreas e deve impactar diretamente o preço das passagens. (Foto: Adobe Stock)
A alta recente no preço do combustível de aviação deve encarecer as passagens aéreas e forçar as empresas a reformular seus modelos de negócios. Nesta quarta-feira (1º), a Petrobras (PETR3;PETR4) anunciou o novo preço do querosene (QAV) para as distribuidoras, que passou a custar R$ 5,495 por litro. O reajuste representa uma alta de 54,63% e vem na esteira do aumento de 9,4%, realizado pela estatal em março. Especialista fala em repasse de até 20% ao consumidor.
Para as companhias aéreas, a elevação do preço do QAV representa um duro golpe nas finanças, já deterioradas. Segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), o combustível passa a responder por 45% dos custos operacionais das empresas do setor, dado os aumentos recentes. A medida, segundo a entidade, tem consequências severas sobre a abertura de novas rotas e a oferta de serviços, restringindo o acesso e a conectividade do País via transporte aéreo.
Os efeitos também devem ser sentidos no bolso do consumidor. Segundo Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital, os preços das passagens aéreas são definidos com base na cotação do combustível e, com a magnitude do aumento, não restará outra alternativa para as companhias a não ser repassar os custos para os passageiros.
“Rotas aéreas com alta demanda e baixa concorrência podem ter aumentos maiores. Em rotas com alta concorrência e baixa demanda, os aumentos serão menos acentuados para atrair passageiros”, explica Corano.
A ponte aérea entre Rio de Janeiro e São Paulo possui uma dinâmica particular em relação às demais regiões do País. Embora tenha alta concorrência, a demanda elevada deve viabilizar o repasse dos custos. “Passageiros estão dispostos a pagar mais pela conveniência, permitindo reajustes nas tarifas”, acrescenta o especialista.
Já Maurício França, sócio da L.E.K. Consulting, estima que o reajuste do QAV deve gerar um impacto adicional de 10% a 20% sobre o preço das passagens aéreas. “Para cada 1% de aumento no preço, a demanda tende a cair em magnitude parecida, embora isso varie conforme o perfil do passageiro”, destaca França.
Petrobras busca amenizar repasse no QAV
A disparada do preço do combustível da aviação é mais uma vítima dos efeitos em cascata da guerra no Oriente Médio. Com a alta do petróleo, em função do bloqueio do Estreito de Ormuz, responsável pelo escoamento de 20% da commodity produzida no mundo, a cotação do barril disparou nas últimas semanas e ultrapassou a marca dos US$ 100. Nesta quinta-feira (2), por exemplo, o barril do petróleo WTI para maio subia 11,47% na Nymex, a US$ 111,60, por volta das 9h50 (de Brasília), enquanto o do Brent para junho avançava 7,85% na ICE, a US$ 109,10, durante o mesmo período.
A disparada reflete a frustração dos investidores com a possibilidade de um fim da guerra no Oriente Médio. Na noite de quarta-feira (1), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou atacar o Irã com “extrema força” nas próximas duas a três semanas. Segundo o republicano, se nenhum acordo for fechado, os EUA irão atingir cada das usinas de geração de energia elétrica do Irã “muito fortemente e provavelmente simultaneamente”.
“O preço do QAV no Brasil é influenciado pela cotação do petróleo e do dólar no mercado financeiro internacional. Por isso, mesmo sendo produzido localmente, segue referência global”, diz André Braz, economista e coordenador dos índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE).
Dado esse pano de fundo, a Petrobras busca alternativas para aliviar a pressão do contexto geopolítico sobre as finanças das companhias aéreas. Segundo informações do Broadcast, a estatal informou que vai oferecer um termo de adesão para as distribuidoras para reduzir os efeitos do reajuste no preço do QAV. A proposta vai permitir que as empresas paguem um aumento de 18% em abril, porcentual bem menor que o reajuste de 54,8% previsto em contrato.
A diferença ainda poderá ser parcelada em seis vezes, com primeira a partir de julho de 2026. As condições ainda serão calculadas. “Essa medida visa preservar a demanda pelo produto e mitigar os efeitos do reajuste no setor de aviação brasileiro, assegurando o bom funcionamento do mercado”, disse a empresa, em comunicado.
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Ainda assim, a proposta não será suficiente para blindar os passageiros de eventuais repasses de custos. “18% ainda é um aumento considerável porque as companhias operam com margens apertadas”, ressalta Corano. Já para Abear, o cenário reforça a necessidade da implementação de mecanismos que permitam diminuir os impactos do aumento do QAV, ”garantindo o desenvolvimento do transporte aéreo, a conectividade nacional e a sustentabilidade econômica das operações”.
O foco vai para o cliente premium
Com a escalada do preço do combustível, os modelos de negócios das companhias aéreas tendem a focar em serviços que possam atrair os passageiros dispostos a pagar mais caro para ter conforto em suas viagens. Segundo o The Wall Street Journal, companhias norte-americanas como Delta Air Lines e United Airlines aumentaram a oferta de assentos de classes premium na última década.
Além disso, desde janeiro de 2020, o número de assentos de classe executiva e primeira classe em voos domésticos aumentou 27% no mercado dos EUA, segundo a empresa de dados do setor aéreo Visual Approach Analytics. Isso é quase três vezes o crescimento dos assentos econômicos, que subiram apenas 10% no mesmo período, informou a publicação.
Embora sejam destinados a um público menor, as cabines premium custam pelo menos o dobro da passagem aérea na classe econômica. Por isso, especialistas avaliam que as grandes companhias devem investir mais neste segmento para compensar a alta dos seus custos operacionais. França, da L.E.K. Consulting, pondera que esse movimento não significa o fim do modelo ‘low-cost ou das passagens mais baratas, mas reflete uma incorporação gradual de serviços que possam personalizar ou melhorar a experiência do passageiro.
No caso do Brasil, essa dinâmica ocorre dentro dos limites da realidade do mercado doméstico. Como não há empresas exclusivamente low-cost, o especialista explica que as tarifas aéreas básicas já contam com custos adicionais, como embarque prioritário, bagagem incluída e assentos mais espaçosos, que elevam a receita por passageiro.
“As companhias brasileiras têm demonstrado poder de precificação significativo nesse modelo, o que permite ao passageiro personalizar sua experiência e, ao mesmo tempo, gera uma receita adicional importante para as companhias”, diz França. “As full-service refinam a segmentação de cabine para capturar diferentes faixas de disposição a pagar. Os dois modelos vão continuar coexistindo”, acrescenta.