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Colunista

Felipe Miranda, da Empiricus, desconstruído

Esqueça o mito por trás do sócio-fundador da primeira casa de análise independente do País. Ele é menos bravo do que parece. Mas é sincero e autêntico como poucos

Por Márcio Kroehn

04/01/2021 | 8:00 Atualização: 02/01/2021 | 11:20

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Felipe Miranda é sócio-fundador e CEO da Empiricus. (Foto: Werther Santana/Estadão Conteúdo)
Felipe Miranda é sócio-fundador e CEO da Empiricus. (Foto: Werther Santana/Estadão Conteúdo)

Felipe Miranda prendeu a minha atenção num vídeo publicado por ele logo após o famoso episódio da Bettina Rudolph. Nele, explicava o jeito Empiricus de se promover e dizia, com todas as palavras, que essa era a forma de chamar a atenção do leitor para algo importante. Eles carregavam na tinta, sabia disso. Ouvi muita gente falando que era uma peça de marketing dele. Para mim, aquela declaração era muito mais um ato de coragem ao se expor do que de se promover. E lembrei de uma frase que uma das raposas do mercado financeiro me disse sobre Miranda quando eu critiquei a forma de venda do produto da casa de análise: “O marketing da Empiricus é agressivo, sim, mas os relatórios que eles publicam são excelentes”.

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Apesar da longa caminhada no mundo dos investimentos, nunca tinha conversado com Felipe Miranda. Mas a oportunidade chegou em minhas mãos: o livro “Princípios do estrategista – o bom investidor e o caminho para a riqueza” (Intrínseca, 320 páginas), escrito por ele em coautoria com o jornalista Ricardo Mioto. A leitura é bastante agradável, mas é preciso vencer o desconforto da primeira parte em que ele coloca o leitor/investidor de frente para o espelho em busca da humildade perdida. Esse início me fez pensar que havia algo que o incomodava. E foi assim que comecei a nossa entrevista – que você pode ler, na íntegra, clicando aqui.

“É menos romântico. Havia uma oportunidade para a Empiricus e para mim. E de o Mioto falar: ‘você precisa se posicionar com algo que você já é; vamos mostrar para o mundo’”.

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Embora a boa narrativa faça parte da trajetória da Empiricus, Felipe Miranda não parece gostar de receber um mérito que não é dele. Seria muito mais fácil ele bater no peito e falar ‘eu sou o cara’ do que mostrar que o romantismo do processo criativo é menor do que aquele que fica no imaginário das pessoas. Um ponto, aliás, que está registrado no livro:

Há áreas em que as aparências importam mais ou pelo menos tanto quanto os fatos concretos: a política, onde o centro de todas as coisas está na narrativa, ou a carreira no ambiente corporativo. No outro extremo, você tem os investimentos e, veja que interessante, o esporte. (…) A medalha está para o esporte assim como a rentabilidade está para os investimentos: ela não se importa com a sua retórica, ego ou aparência.

Algo que Felipe Miranda não deixa de lado é a autenticidade. Alguns, claro, preferem chamar de polêmica. Mas ele não tenta embalar a opinião em papel de presente antes de entregar ao leitor ou espectador. Se tem algo a dizer, ele elogia, critica e questiona sem se importar se está agradando (isso, claro, tem um custo alto na maioria das vezes, como ele já sentiu muitas vezes nesse período todo). Embora ele seja um profissional do mercado financeiro, é inegável que pode ser considerado um influencer, pela sua força nas redes sociais e nos novos canais de distribuição de conteúdo. Mesmo assim, ele tem algo a dizer sobre um desvio que tem acontecido e que incomoda bastante.

“Eu como analista estou impedido de negociar ações por um tempo, conselheiros de empresas estão proibidos de negociar por um tempo, por que não o influenciador, que influencia mais que um jornalista, que provavelmente tem uma restrição como a que eu tenho? De novo, sinal dos tempos, nem melhor nem pior, apenas é o que é, porque o influencer, que às vezes é mais importante do que eu ou você, por que esse cara pode fazer? Deveria ser uma condição isonômica para todos nós.”

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No livro, Felipe Miranda reforça muitas vezes que embora exista isonomia na negociação de ativos para todos os participantes do mercado, da sardinha ao tubarão, as condições entre eles não é de igualdade. Se antes Warren Buffett demorava horas ou dias para devorar páginas e páginas de balanço para encontrar oportunidades, hoje um robô faz a leitura de milhares de páginas numa fração de tempo. E o pequeno investidor se engana achando que é mais capaz do que a máquina.

Há muita gente olhando agora, tudo está a uma banda larga e duas macros do Excel de distância, e qualquer oportunidade muito óbvia vai evaporar em segundos. Com o Google, todo mundo ficou inteligente, A consequência disso é que ficou ainda mais difícil bater o mercado, ou seja, deliberadamente encontrar ativos que vão performar melhor do que a média.

Então como sair vencedor? Com estudo, análise e disciplina, algo que os especialistas podem entregar para o investidor – e especialista é uma das palavras (ou seria conceito?) que o Felipe Miranda abomina ao lado de disrupção, startup e nova tecnologia. Provocado sobre a condição da Empiricus no mercado ter cumprido essa trajetória, ele respondeu:

“Acho que criamos uma indústria mas, tecnicamente, além do bode com a palavra, acho que não ‘disruptou’, não. O research tradicional continua existindo. Duas coisas que a gente se orgulha bastante de ter trazido para o Brasil, mas que foi meio na sorte. Não foi tão pensado. Essa história do marketing digital trouxemos do sócio americano e o research foi porque a crise de 2008 estava matando o research mundial. Foi bem oportunístico.”

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A partir do relatório “O Fim do Brasil”, publicado em 2014, a Empiricus entrou definitivamente no radar de quem acompanha o mercado financeiro brasileiro. Mais do que o título bombástico, o conteúdo trazia argumentos sensatos que explodiram no colo do combalido governo Dilma Rousseff. Confesso que tentei repetir a estratégia aqui para capturar a sua atenção, por isso perguntei para Miranda se ele já tinha uma chamada pronta para 2021:

“É difícil, porque uma imagem é a da volta da normalidade, de valorização. Eu ainda não tenho um título que eu possa resumir, mas é uma espécie de um retorno a si mesmo. Viver a vida em 2021. E acho que o mercado financeiro vai ser assim, acho que todo mundo está querendo ser feliz: uma volta à felicidade, meio por aí.”

Conversar com ele, mesmo que por chamada de vídeo (algo obrigatório em tempos de pandemia), ajudou a desconstruir a imagem que eu tinha do Felipe Miranda: um sujeito sisudo, fechado e, até, mal humorado – certamente o jogo de luzes escuras dos vídeos apresentados por ele contribuem bastante para a construção desse mito. A sensação que ficou foi a oposta. Miranda sabe rir de si mesmo, mas é bom que se diga que não perde a firmeza nas ideias e nas expressões quando o assunto merece.

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