Já absorvida a possibilidade de desidratação da PEC da Transição, investidores retomaram posições defensivas à espera da reconfiguração e formalização do texto final, com alteração tanto do prazo quanto do volume de gastos fora da regra do teto. Rumores de que o ex-ministro da Educação seria nome forte no páreo para o comando do ministério da Economia contribuíram para a postura cautelosa dos agentes.
“Os dois principais ‘drivers’ do mercado são a PEC e a escolha do futuro ministro da Fazenda, que tem mais relevância porque vai indicar a diretriz que vai pautar a condução da economia”, diz o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, para quem o PT aparentemente adota a tática de soltar “balões de ensaio” sobre possíveis nomes para a Fazenda com o objetivo de testar a reação do mercado. “Cada hora surge uma ideia diferente, o que traz muita volatilidade para os ativos. A mensagem é muito difusa”.
O dólar até ensaiou dar sequência ao movimento de baixa na primeira hora de negócios, quando chegou a furar o piso de R$ 5,30 e registrou mínima a R$ 5,2878 (-0,43%). Mas a moeda trocou de sinal logo em seguida e passou o restante do dia em terreno positivo, operando ao longo da tarde no intervalo entre R$ 5,35 e R$ 5,36. Na meia hora final do pregão, o dólar acelerou e renovou sucessivas máximas, flertando com o patamar de R$ 5,40, ao correr até R$ 5,3994 (+1,67%). No fim da sessão, a moeda era cotada a R$ 5,3797, em alta de 1,30%, passando a acumular valorização de 4,14% em novembro.
As máximas do dólar coincidiram com a informação de que Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, partido do presidente Jair Bolsonaro, enviou relatório ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em que aponta supostas inconsistências no resultado da eleição presidencial e pede invalidação de votos de urnas fabricadas até 2020. Embora as chances de que a contestação do PL surta efeitos, não há dúvidas de que aumenta o ruído político e mostra disposição do presidente Bolsonaro em tumultuar o processo de transição, observa um operador de câmbio.
Nos minutos finais da sessão, investidores também digeriram declarações do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), sobre a tramitação da PEC da Transição. Segundo Pacheco, há pontos “controvertidos” na proposta, como “valor, prazo e a própria âncora fiscal”. A retirada permanente do Bolsa Família da regra do teto, um dos pontos mais indigestos para o mercado, não encontra “ressonância no Congresso”, disse Pacheco.
Mais cedo, fontes ouvidas pelo Broadcast Político disseram que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), sinalizou que é mais fácil aprovar a PEC se o prazo para o Bolsa Família ficar fora do teto for de apenas um ano, o que representa uma limitação do ‘waiver’ ambicionado pelo governo eleito. Vice-presidente do PT, o deputado José Guimarães (CE) afirmou que o partido está “bem articulado” com Lira (PP-AL) para votar a PEC da Transição.
Para Sanchez, da Ativa, um ‘waiver’ de quatro anos ou por prazo indefinido “cobraria um preço alto” do ponto de vista dos ativos domésticos, levando uma “pressão altista” ao dólar em relação aos níveis atuais. “Se a PEC vier no pior cenário, a política fiscal fica insustentável. Quando se tira integralmente o Auxílio Brasil do teto se diminui muito a potência de controle de gastos”, afirma o economista, ressaltando que o Orçamento de 2023 já reserva cerca de R$ 100 bilhões para o programa social – recursos que, em caso de aprovação da PEC, vão ser carreados para outras despesas.