Ao passarem pelo Congresso Nacional em dezembro, as propostas sofreram diferentes desidratações – veja aqui os pontos que foram afrouxados em relação ao texto original. Após as alterações, o Ministério da Fazenda revisou para R$ 69,8 bilhões a previsão de economia em dois anos com o pacote de corte de gastos. Inicialmente, a pasta esperava R$ 71,9 bilhões de economia com as medidas até 2026.
O impacto do aumento das desconfianças dos investidores se refletiu no câmbio: o dólar ultrapassou a marca de R$ 6 no final de 2024 e passou a acumular alta de 27,9% no ano. Em resposta a esse movimento, o Banco Central passou a realizar diferentes leilões para tentar conter a valorização da moeda americana.
Diante de um cenário de cautela, um levantamento realizado por Einar Rivero, CEO e sócio-fundador da Elos Ayta Consultoria, analisou o comportamento de quatro indicadores-chave da economia brasileira nos dois primeiros anos de governo dos últimos nove mandatos presidenciais desde o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso até o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.
“No caso do governo Lula 3, os indicadores mostram resultados mistos: enquanto a valorização do CDI aponta para retornos robustos na renda fixa, a performance mais tímida do Ibovespa e a alta do dólar refletem desafios econômicos em um cenário de incertezas”, destaca Rivero.
Ibovespa: desaceleração após o boom das commodities
O Ibovespa, principal índice da B3, apresentou uma valorização de 11,35% nos dois primeiros anos do atual mandato de Lula. Os dados foram coletados até o pregão de 26 de dezembro de 2024. Embora positivo, o resultado é o terceiro pior entre os nove governos analisados, superando apenas os desempenhos registrados nos governos Lula 2, com queda de 15,57%, e Dilma 1, com recuo de 12,05%.
No outro extremo, o primeiro mandato de Lula destacou-se como o grande campeão de ganhos, com uma impressionante alta de 132,48% no Ibovespa, impulsionado pelo boom das commodities e pela confiança do mercado em sua gestão.
Dólar: alta moderada no terceiro mandato de Lula
A taxa Ptax, usada como referência para o câmbio oficial, subiu 18,86% nos dois primeiros anos de Lula 3, registrando a terceira menor variação desde o primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso. O governo Lula 1 marcou o melhor desempenho, com queda de 24,87% do dólar – movimento beneficiado pela entrada de capital estrangeiro e pela forte valorização das commodities.
Em contrapartida, o segundo mandato de Dilma enfrentou um período de intensa pressão cambial, com uma valorização do dólar Ptax de 22,70% nos dois primeiros anos, refletindo a deterioração das contas públicas e a desconfiança dos investidores.
CDI: retorno competitivo para renda fixa
Os investidores de renda fixa voltaram a ver retornos mais expressivos no terceiro mandato de Lula. O CDI acumulou uma valorização de 25,42% até dezembro de 2024, superando os níveis registrados nos dois governos anteriores – nos dois primeiros anos do mandato de Jair Bolsonaro, a alta foi de 8,88%, e no governo de Michel Temer, o avanço foi de 19,70%.
“Esse retorno reflete a elevação da taxa Selic para conter pressões inflacionárias, característica de um cenário desafiador para a política monetária. A última vez que o CDI alcançou patamares semelhantes foi durante o segundo mandato de Dilma, quando acumulou 29,09% nos dois primeiros anos”, destaca Rivero.
IPCA: inflação com tendência de alta
A inflação, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), fechou em 9,11% nos dois primeiros anos do governo Lula 3, considerando os dados até novembro de 2024. O resultado interrompeu a sequência de níveis mais baixos registrados durante os governos Temer e Bolsonaro, de 6,75% e 9,02%, respectivamente.
Apesar disso, o IPCA do atual governo está muito abaixo dos picos inflacionários dos mandatos anteriores, como os 17,63% registrados no governo Dilma 2. “Esse controle relativo da inflação reflete a atuação do Banco Central e a desaceleração da economia global, mas o desafio de conter pressões inflacionárias persistentes continua relevante”, pontua Rivero.