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Colunista

O que o investidor pode esperar de 2023

No caso do Brasil, o grande ponto de interrogação será a direção fiscal que o País tomará

Por Dan Kawa

30/11/2022 | 14:25 Atualização: 30/11/2022 | 14:25

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O cenário central para a economia global ainda mostra desafiador em 2023 | Foto: Envato Elements
O cenário central para a economia global ainda mostra desafiador em 2023 | Foto: Envato Elements

Este é aquele difícil momento do ano em que paramos para refletir qual será o cenário econômico mais provável para 2023, precisando ter a enorme humildade de reconhecer, como já dizia John Kenneth Galbraith, que “a única função das previsões econômicas é fazer a astrologia parecer respeitável”.

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Como economista de formação, mas como investidor de profissão, tenho a consciência de que a maior parte das previsões se provarão erradas ao longo do tempo. Como investidor, contudo, preciso trabalhar com cenários probabilísticos e compará-los ao que está precificado em cada ativo financeiro para, só então, conseguir construir portfólios resilientes e consistentes ao longo do tempo.

Reservarei o espaço deste mês para tratar do cenário econômico global e local. Ainda terei a oportunidade, antes do final deste ano, de comentar, diante deste cenário desenhado este mês, de como vemos a melhor maneira de posicionar nossos investimentos.

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Abaixo, discorro um pouco sobre o cenário central para cada região do mundo, tentando trazer uma reflexão de quais são os riscos e suas probabilidades em torno deste cenário base.

Nos Estados Unidos, espero uma razoável desaceleração do crescimento. Acredito que o risco de recessão no país seja elevado e mais alto do que o mercado precifica atualmente. A inflação deverá ceder, mas ainda se manter em um patamar relativamente elevado para os padrões históricos recentes.

O banco central do país deve encerrar o ciclo de aperto monetário com juros em torno de 5% e mantê-lo em patamar mais elevado por mais tempo do que os investidores esperam. Podemos descrever o cenário como desafiador, mas ainda não absolutamente negativo. Os riscos, na minha visão, são de um cenário mais negativo do que este descrito anteriormente.

Na Europa, a região deve conviver com uma recessão mais acentuada e começando antes do que aquela dos EUA. A inflação deve se manter alta por algum tempo, mas o banco central da região não deverá ser capaz de elevar os juros na mesma magnitude do que aquele que veremos nos EUA.

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A Guerra na Ucrânia e a situação da China (que comento a seguir) são vetores que podem trazer riscos positivos ou negativos para o cenário. Entretanto, são eventos que temos baixíssima visibilidade ou vantagem comparativa em termos previsões mais precisas.

Uma crise energética mais grave na região, consequência do conflito na Ucrânia, ainda é um risco real e extremamente maléfico a saúde econômica e social da Europa. Este é um tema que o mundo ainda deverá conviver nos próximos meses.

A China deverá continuar convivendo com vetores distintos em sua economia. O país me parece em um estágio mais avançado do ciclo econômico e alguns vetores mais positivos (ou menos negativos) podem dar algum suporte para a economia chinesa.

Primeiro, o país vem digerindo a crise no mercado imobiliário e 2023 pode ser um ano ainda desafiador, porém um pouco mais ameno para o setor. Segundo, a política de covid zero, que foi um grande vetor de pressão ao crescimento, parece estar fadado a ser encerrada gradualmente nos próximos meses.

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Não espero uma recuperação rápida e acentuada do país, mas uma caminhada rumo a uma situação um pouco mais construtiva do que aquele vivida nos últimos 12 a 18 meses.

O risco negativo está na possibilidade de uma retomada mais lenta do mercado imobiliário e da covid, assim como algum “evento de cauda” na economia. O risco positivo estaria em uma recuperação mais acelerada de um ou de ambos estes vetores.

O Brasil é um caso a parte. Ainda escreve este texto no meio da discussão do que será o quadro fiscal do País em 2023 (e nos anos subsequentes). As escolhas do Congresso e do novo governo eleito serão fundamentais para a direção da economia nos próximos meses.

Tendo feito este “disclaimer” da baixa visibilidade do mercado local, espero uma desaceleração do crescimento do país. De um crescimento em torno de 3% em 2022, para um crescimento menor do que 1% em 2023. Não descarto uma desaceleração ainda maior, com números próximos a zero ou com uma queda de PIB, como cenário alternativos, mas de probabilidade não desprezível.

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A inflação parece ter feito o seu pico, mas um descontrole fiscal pode fazê-la acelerar novamente. Espero uma inflação mais baixa em 2022, mas com riscos altistas não desprezíveis. Uma probabilidade baixa de desaceleração mais acentuada da inflação estaria ligada a uma recessão global e/ou local, sem depreciação acelerada da taxa de câmbio. Este cenário parece, hoje, pouco provável.

Este ambiente deveria favorecer o banco central e manter o seu “plano de voo” de manutenção da taxa Selic em 13,75% em um horizonte relevante de tempo. O cenário negativo, que vem ganhando corpo, seria de uma nova rodada de alta de juros, para combater a deterioração das expectativas, na eventualidade do debate fiscal se consolidar em campo mais expansionista. Há um cenário de “cauda”, mais positivo, de baixa probabilidade, do começo de um processo de corte de juros, caso a inflação arrefeça de maneira mais consistente ao longo do ano.

O Brasil não apresenta um problema de contas externas. Podemos ter mudanças nas fontes de financiamento e maiores dificuldades em balancear os fluxos, na eventualidade de uma deterioração maior do cenário externo e/ou local. Não vejo riscos de crises de balanço de pagamentos. Em uma economia de câmbio flutuante, a taxa de câmbio continuará a atuar como um “amortecedor automático” destes fluxos internacionais.

O nosso grande ponto de interrogação, o qual neste momento somos passageiros da classe política, será a direção fiscal que o País tomará. Não espero que o Brasil caminhe na direção mais negativa de países que abandonaram totalmente a ortodoxia econômica e fiscal, mas tampouco acredito em um cenário que seja totalmente ortodoxo ou positivo fiscalmente.

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Como um pêndulo, o país irá migrar entre o desespero e o otimismo, com um viés maior, pelo o que vem sendo ventilado pela mídia neste começo de transição de governo, para um cenário mais negativo.

Deveremos conviver com um ambiente de “stop and go” em termos de medidas econômicas. Quando “o mercado” e a sociedade reagirem mais negativamente às medidas apresentadas, o governo deverá buscar soluções intermediárias.

O Brasil costuma flertar com o abismo, mas dificilmente se joga nele. Certamente, contudo, há riscos mais negativos que não podem ser ignorados e nem descartados neste ambiente de visibilidade mais baixa.

De forma geral, o cenário central para a economia global ainda se mostra desafiador, a despeito da evolução de variáveis como a inflação e a política monetária. A desaceleração do crescimento e o risco de recessão chegam como novos entrando no cenário base e com riscos de deteriorá-lo ainda mais.

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No Brasil, após um ano de 2022 que surpreendeu em diversas variáveis, entramos em 2023 em bases menos sólidas e com riscos negativos não desprezíveis.

Mantenham seus cintos de segurança apertados, pois 2023 ainda promete ser bastante animado!

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