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Mercado

Investidor estrangeiro trocou o Brasil por este país; “Ficamos para trás”, diz Scotiabank

Michel Frankfurt, head da corretora do Scotiabank Brasil, explica visão do investidor estrangeiro sobre a B3

Por Jenne Andrade

08/05/2024 | 12:04 Atualização: 08/05/2024 | 12:04

Michel Frankfurt, head da corretora de ações do Scotiabank Brasil (Foto: Claudio Belli/divulgação)
Michel Frankfurt, head da corretora de ações do Scotiabank Brasil (Foto: Claudio Belli/divulgação)

A Bolsa brasileira está barata, com um desconto de pelo menos 25%, mas ainda assim não chama a atenção do investidor estrangeiro. Michel Frankfurt, head da corretora de ações do Scotiabank Brasil, aponta que há uma falta de “interesse” no mercado doméstico – e o especialista sabe muito bem do que está falando.

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O Scotiabank é um banco canadense especializado em crédito para grandes empresas que desde o ano passado está expandindo a presença no Brasil. No início do ano, por exemplo, foi uma das instituições financeiras contratadas para assessorar uma oferta de ações da Energisa (ENGI11). Além disso, junto com Citigroup e UBS Investment Bank, liderou a emissão de títulos em dólar no mercado internacional, feita pelo Tesouro Direto.

“Hoje, atendemos muitos clientes estrangeiros. Falamos com as grandes casas americanas, canadenses e algumas europeias”, afirma Frankfurt. “Recentemente, contratamos um sales local. Ou seja, um comercial que vai nos ajudar a desenvolver e abrir as casas locais, mas o nosso grande produto hoje é para o investidor estrangeiro”, diz o especialista.

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De acordo com Frankfurt, entre os países emergentes, a história que soa mais atraente para o “gringo” é a do México. O país vive um “boom” em fluxo de capitais em função da forte parceria comercial com os Estados Unidos, intensificada após a pandemia de covid-19.

Isto porque, durante a crise de saúde, houve a quebra de cadeias de produção, em especial aquelas ligadas à China. O episódio fez com que as empresas globais passassem a optar por transferir os centros de produção de mercadorias para locais mais próximos aos mercados que serão vendidos, um fenômeno batizado de “nearshoring“. E a porta mais próxima para a maior economia do mundo, os EUA, é o México.

“O México vive hoje o que o Brasil viveu nos anos 2000”, afirma Frankfurt.  No ano passado, por exemplo, os EUA importaram mais do México do que da China, pela primeira vez em 20 anos. Entretanto, apesar da projeção recente do mercado mexicano, o Brasil vem perdendo relevância há muitos anos.

“O Brasil, em 2009, representava 14% do índice MSCI, de mercados emergentes, que é um indicador bastante relevante pra todos os grandes fundos passivos. Hoje, a gente é cerca de 5%” ressalta o head. Leia a entrevista completa:

E-Investidor – A Bolsa brasileira está barata?

Michel Frankfurt – Eu acho que os múltiplos daqui no Brasil estão muito descontados. No mercado com juros baixos, é preciso ter múltiplos mais altos, e no mercado com juros altos, temos que ter múltiplos mais baixos.

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Estamos em um dos momentos extremos, com juros bem altos, principalmente o juro real. As NTNBs longas (Tesouro IPCA+) estão perto de 6% de juro real, e não é muito comum, é praticamente no teto histórico, e os múltiplos estão muito baixos. É muito difícil ver a Bolsa caindo muito mais do que está agora, a não ser que tenha um colapso global.

Então a Bolsa tende a subir?

Aí que está a armadilha. Está barato, mas pode ficar muito barato por muito tempo porque ninguém está olhando, ninguém está interessado. Enquanto não tivermos algum gatilho que mude a percepção do investidor estrangeiro sobre o Brasil, continuaremos mais ou menos onde estamos.

O investidor estrangeiro é muito grande, pesado, faz barulho, é agressivo, dá o tom. É esse investidor que vai puxar o mercado, fazer andar. Pelo múltiplo, tem espaço para a Bolsa ir tranquilamente para 150 mil ou 160 mil pontos – mas isso se estivéssemos em um período de normalidade. Tem espaço para ir, mas não tem interesse (do investidor estrangeiro).

O investidor estrangeiro desistiu do Brasil?

Na época de 2000 a 2010, o Brasil era a bola da vez. O País tinha uma representatividade muito maior no mundo de emerging markets (mercados emergentes). Tinha muito fluxo para cá. E agora essa bola virou para o México.

O investidor estrangeiro gosta do México, gosta da Índia, e a gente ficou para trás. Eu sempre gosto de falar dos índices: o Brasil, em 2009, representava 14% do índice MSCI de mercados emergentes, que é um indicador bastante relevante pra todos os grandes fundos passivos. Hoje, representa 5%.

Por que perdemos tanta relevância entre os mercados emergentes?

O primeiro ponto é que a quantidade de países elegível a participar do índice era menor em 2009 do que é hoje. O índice era composto por menos países, então o Brasil tinha mais relevância. Depois, os outros mercados emergentes começaram a se desenvolver. A China, por exemplo, se desenvolveu muito nos últimos 20 anos.

Infelizmente, não tivemos o crescimento que esperávamos nos últimos 20 anos, como a China. A nossa Bolsa cresceu menos, fizemos menos IPO’s, produtividade e atratividade diminuíram, ficamos aquém.

Mas por que o México, por exemplo, atrai mais olhares hoje?

O México estava no lugar certo, na hora certa. Em 2015, o relacionamento entre China e Estados Unidos começou a ficar um pouco mais turbulento. O que era uma parceria, acabou virando uma competição, o que chamamos de “guerra de influências”.

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Isso acabou prejudicando o relacionamento global que, até 2015, era sobre globalização. Quando veio a pandemia, o protecionismo em relação à China piorou, porque teve o risco de cadeia (produtiva). Nesse momento, os Estados Unidos olhou para o México como um lugar onde era possível produzir de forma barata, com pessoas qualificadas, governo alinhado e estável politicamente.

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No México, 78% da relação comercial (exportações) é com os Estados Unidos, há uma dependência grande um do outro. Logo, todos os fluxos de investimentos dessa nova reconstrução da cadeia foram direcionados ao México. Isso trouxe uma enxurrada de investimentos para o País, que a gente apelidou de “nearshoring”. O México vive hoje o que o Brasil viveu nos anos 2000.

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