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Mercado

A visão do UBS BB sobre o futuro dos IPOs na Bolsa brasileira

Daniel Bassan, CEO da instituição financeira, também fala sobre o impacto dos juros dos EUA na renda variável

Bruno Andrade é repórter do E-Investidor
Por Bruno Andrade

06/05/2024 | 17:35 Atualização: 09/05/2024 | 16:40

UBS BB vê cenário incerto para IPOs no Brasil (Foto: Envato Elements)
UBS BB vê cenário incerto para IPOs no Brasil (Foto: Envato Elements)

O UBS BB vê o cenário incerto para as ofertas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês) no Brasil enquanto a Bolsa estiver barata e o Federal Reserve (Fed) não começar a cortar juros. Em entrevista exclusiva ao E-Investidor, o CEO do UBS BB, Daniel Bassan, afirma que qualquer abertura de capital feita com a Bolsa barata refletiria um preço um pouco pior que o esperado, o que não seria um valor adequado para as companhias.

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“Para fazer um IPO nesse cenário, teria que ser com algum desconto, porque o investidor quer comprar algo para performar bem. E se as empresas abrem o capital com a ação muito barata, elas devem ter algum investimento melhor, o que é complicado de acontecer em um cenário de juros em dois dígitos”, explica Bassan.

Segundo ele, no momento atual o empresário prefere esperar e continuar com seu crescimento orgânico ao invés de vender sua empresa barata na Bolsa. O mercado acionário brasileiro é visto como barato pelo executivo após o Ibovespa acumular uma queda de 5% em 2024. O principal indicador da Bolsa foi de 134.185 pontos no último pregão de 2023 para 127.122,25 pontos no fechamento desta quinta-feira (2).

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Ele lembra que a frustração das expectativas do mercado é o principal motivo para a Bolsa estar barata. “Todo o mercado estava mais otimista com relação a esse primeiro semestre. A expectativa era de que o Banco Central americano começasse a reduzir juros em março e isso daria espaço para quedas de juros em todo o globo, inclusive quedas de juros maiores no Brasil”, aponta Bassan.

No entanto, nem tudo saiu como o esperado. Os dados da economia norte-americana divulgados na primeira quinzena de abril frustraram a expectativa do mercado, que esperava uma desaceleração da inflação dos Estados Unidos. No dia 10 de abril, o Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) subiu 0,4% em março ante fevereiro, acima da mediana dos analistas consultados nas Projeções do Broadcast, que previam alta de 0,3%.

Já no dia 15 de abril, os dados mostraram que as vendas no varejo nos EUA subiram 0,7% em março ante fevereiro. Segundo o consenso reunido pela FactSet, o número ficou acima das estimativas dos analistas, que esperavam uma alta de 0,4%. Ou seja, com uma economia mais acelerada e inflação acima do esperado, o otimismo do mercado de que a redução do corte de juros nos EUA começaria o mais breve possível mudou para o distante possível.

Atualmente, a taxa de juros nos EUA, o Fed Funds, está entre 5,25% e 5,5% ao ano e os juros no Brasil está em 10,75% ao ano. Bassan observa que a manutenção do juro estadunidense neste patamar pode complicar a queda de juros mais acentuada que o mercado previa no começo do ano. Ele cita que o UBS BB esperava uma Selic em 8,5% para o fim de 2024, mas essas estimativas tendem a mudar, visto que um juro maior nos EUA implica em uma redução mais lenta dos juros no Brasil.

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Bassan estima que essa queda de juros mais lenta no Brasil deve acontecer para o País manter um bom diferencial entre o juro brasileiro e o americano. Pois, se o diferencial diminuir, o investidor estrangeiro vai preferir o dólar ao real, o que tende a causar uma fuga de capital para o exterior. Essa fuga de capital tende a deixar o dólar valorizado ante o real, o que pode trazer inflação para os brasileiros.

“Com essa expectativa de que os juros demoram mais a cair aqui no Brasil, vejo que a volta de algum IPO ficou um pouco postergada. Talvez para o segundo semestre, no quarto trimestre ou para o ano que vem. Não dá para dizer ainda. Depende muito de onde o cenário americano vai parar. A única coisa que é possível dizer é que o cenário é incerto”, diz Bassan.

Ou seja, a tendência é  que a Bolsa feche o seu terceiro ano seguido (2022, 2023 e 2024) sem um IPO de grande impacto. O período sem grandes estreias acontece após a grande febre de IPOs registrada de 2020 e 2021. Nesses dois anos a B3 (B3SA3) viu um total de 74 IPOs, sendo 46 em 2021 e 28 em 2020.

O mercado atribui esse estopim às condições macroeconômicas da época, principalmente porque a taxa básica de juros, a Selic, estava em 2% ao ano. No entanto, alguns analistas criticam que grande parte dessas empresas não tinha condições de ir à Bolsa e apenas foram pelos juros baixos.

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O CEO do UBS BB tem uma visão diferente. Ele classifica que o ocorrido foi um ciclo vicioso de uma espiral negativa devido a um clico de alta de juros considerado rápido, com a Selic indo de 2% ao ano para 13,75% ao ano. Essa disparada reduziu a atividade econômica. Ou seja, a empresa que esperava crescer o faturamento de R$ 100 milhões para R$ 120 milhões, cresceu a receita para R$ 110 milhões, o que frustrou o mercado.

Outro ponto levantado é que essas companhias se endividaram para financiar o seu crescimento com o juro baixo, mas que rapidamente saltou para 13,75%, o que piorou o endividamento. “Eu só classificaria que o acontecimento foi uma não concretização de expectativa que aquelas empresas tinham de crescimento. Com isso, teve um círculo vicioso: o crescimento não ocorreu, o preço da ação caiu e depois ficou mais baixo ainda, porque o mercado piorou no geral”, explica Bassan.

Sobre a análise de novas ações, Bassan recomenda buscar os dados financeiros da companhia e sempre olhar o prospecto preliminar para saber se ele vai entrar em uma boa empresa durante o processo de IPO. “Penso que todo mundo tem que ler o prospecto, fazer sua diligência, entender as condições de crescimento da companhia e também entender as condições do mercado. Talvez, essa seja a melhor forma de encontrar uma boa empresa que está abrindo capital para investir”, salienta Bassan.

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