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Dólar dispara mais de 29% em 2020 marcado por pandemia, juros baixos e incertezas fiscais

O dólar à vista avançou 0,17% na última do ano, a 5,1915 reais na venda

Por E-Investidor

30/12/2020 | 19:37 Atualização: 30/12/2020 | 19:37

Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

(Reuters) – O dólar registrou leve alta contra o real na quarta-feira, 30 de dezembro, mas encerrou 2020 com ganho acumulado de mais de 29%, deixando a moeda brasileira com o segundo pior desempenho global no ano em meio à pandemia de covid-19, juros locais extremamente baixos e incertezas fiscais domésticas persistentes.

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O dólar à vista avançou 0,17% nesta sessão, a última do ano, a 5,1915 reais na venda. No mês de dezembro como um todo, a divisa norte-americana registrou perda de 2,03%.

Mas, no acumulado do ano, a disparada do dólar deixou o real com segundo pior desempenho global, atrás apenas do fragilizado peso argentino. O ganho anual de 29,37% marcou o quarto ano consecutivo de avanço para a moeda norte-americana frente ao real, bem como o terceiro pior ano para a divisa brasileira desde pelo menos 2003. Na máxima intradiária de 2020, alcançada em 14 de maio, o dólar à vista chegou a tocar 5,9725 reais na venda.

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A crise sanitária e econômica em todo o mundo balançou os mercados financeiros globais neste ano atípico e marcou presença no câmbio brasileiro, sendo apontada como um dos fatores que elevaram a busca pela segurança do dólar, em meio à paralisação de empresas, a forte redução do consumo e o aumento do desemprego em vários países.

Nos últimos meses, o forte ressurgimento dos casos de Covid-19 nas principais economias do mundo — assim como uma nova variante mais infecciosa da doença recentemente descoberta no Reino Unido — levou a novas medidas restritivas e de lockdown na Europa e nos Estados Unidos, deixando os investidores nervosos.

“A pandemia pegou vários de surpresa; tivemos a famosa segunda onda”, disse à Reuters Gilberto Rolha, gerente de operações em câmbio do Travelex Bank.

Mas não foram os fatores globais, relacionados à pandemia, os únicos responsáveis pela disparada da moeda norte-americana contra o real em 2020.

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A redução sucessiva da taxa básica de juros do Brasil, atualmente na mínima histórica de 2% ao ano, foi um ponto determinante para a dinâmica cambial vista em 2020. O baixo patamar dos juros locais afetou o rendimento de ativos locais atrelados à taxa Selic, tornando o Brasil menos interessante para o investidor estrangeiro quando comparado a pares com nível de risco semelhante.

“Com a Selic a 2%, os investidores vão procurar outros países emergentes com juros maiores”, explicou Rolha.

Somando-se a esse ambiente de menor ingresso de recursos do exterior, a incerteza fiscal brasileira ganhou nos últimos meses um protagonismo cada vez maior dentro do radar de riscos dos mercados domésticos.

Com um Orçamento apertado para 2021 e gastos expressivos diante da pandemia, há forte temor entre os investidores de que o governo fure seu teto de gastos, abandonando a postura de austeridade que foi promessa eleitoral do presidente Jair Bolsonaro.

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“Há anos o Brasil tem um nível muito grande de gastos que até hoje não diminuiu”, disse Otávio Aidar, estrategista-chefe e gestor de moedas da Infinity Asset. “E, dado que estamos num cenário de aumento de gastos, levantamos algumas dúvidas: para onde vai o fiscal brasileiro? Diante disso, qual o nível justo da taxa de câmbio?”

Os mercados querem ver medidas concretas de controle de gastos, mas, até agora, as perspectivas parecem embaçadas. Em meados de dezembro, a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) Emergencial, que tem o objetivo de regulamentar o teto de gastos com gatilhos e tratar de temas do pacto federativo, teve a apresentação adiada.

Em meio à pouca confiança na saúde das contas públicas, a agenda atrasada de reformas estruturais do governo falha em fornecer algum amparo aos investidores, que esperavam encontrar na consolidação de reformas como a administrativa ou tributária uma maneira de atrair mais investidores de fora, e consequentemente, mais recursos para o Brasil.

“Temos que ficar atentos nas reformas. Se não houver reformas, vamos andar para o lado”, disse Rolha, do Travelex.

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ESPERAR PARA VER

Com o fim do ano mais turbulento das últimas décadas, os investidores passam agora a olhar para 2021, avaliando os pontos de atenção que poderiam fornecer alguma folga para o real.

O início das campanhas de vacinação contra a Covid-19 em vários países do mundo, inclusive nos Estados Unidos e na Europa, alimentava esperanças de uma retomada na atividade empresarial e de consumo nos próximos meses.

Nos EUA, o presidente Donald Trump sancionou no domingo um pacote de ajuda pela pandemia e de gastos no valor total de 2,3 trilhões de dólares, restaurando o auxílio-desemprego a milhões de norte-americanos e evitando a paralisação do governo federal.

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Ajudando ainda mais esse sentimento, o Reino Unido e a União Europeia conseguiram evitar um fim caótico, sem acordo comercial, para seu divórcio, cujo processo já dura anos.

“Começamos a perceber que o mercado está voltando aos poucos, a máquina já está voltando a girar. Temos perspectivas mais positivas. No lado externo, temos as vacinas, progresso no Brexit, auxílio nos EUA…”, afirmou Gilberto Rolha.

Por aqui, os analistas estavam em modo de espera, chamando a atenção para a importância da responsabilidade fiscal e da agenda de reformas.

“(Uma parcela dos fatores que forneceriam alívio para o real) parte do exterior; tem que ver se o dólar vai ficar mais fraco em relação a outras moedas. Mas tem uma grande parte que é sobre aqui dentro mesmo. Se começarmos janeiro endereçando bem as reformas e com o Congresso disposto a votar medidas importantes, a tendência é de queda para o dólar”, disse Alvaro Bandeira, sócio e economista-chefe do banco digital modalmais.

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“Se tivermos firmeza para dar segurança jurídica e implementar reformas fiscais para atrair investidores de longo prazo, tem espaço para o dólar ficar confortável (em um patamar mais baixo)”, acrescentou.

Mas ele alertou que, “se o governo não deixar claro o que pretende fazer em termos de ajuste fiscal e endividamento, haverá uma pressão mais forte de desvalorização para o real”.

Otávio Aidar, da Infinity Asset, afirmou que, “daqui para frente, o que a gente espera é ver se o país vai seguir com a linha de redução do tamanho do Estado e não aumentar a dívida. Se seguirmos um caminho de gastos controlados, pode haver fluxo caminhando para o Brasil”.

À medida que aguardam novidades nessas frentes, os investidores devem seguir de olho no Banco Central — que marcou presença no mercado de câmbio em 2020 com leilões de dólar à vista em momentos em que julgou haver oscilações exageradas na moeda norte-americana.

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