

Um Certificado de Depósito Bancário (CDB) pós-fixado a 160% do CDI na Rico, outro prefixado a 19,50% ao ano na XP, e mais um indexado à inflação de IPCA + 10% no BTG. Os títulos emitidos pelo Banco Master estão pipocando no mercado secundário, que é o ambiente onde investidores negociam os ativos entre si e não mais com a companhia emissora. O movimento é observado nas principais corretoras do País depois que a compra da instituição pelo Banco de Brasília (BRB) foi anunciada na última sexta-feira (28).
As taxas mais altas nos CDBs do Master – que já eram expressivas – podem ser um indicativo de investidores desmontando posições em meio à discussão sobre a saúde financeira do banco que se estendeu ao longo da semana. O movimento destoa do mercado primário, onde algumas corretoras já vinham reduzindo as ofertas de títulos emitidos pela instituição e as taxas caíram, pontuam especialistas ouvidos pelo E-Investidor.
“No mercado secundário, as taxas subiram justamente porque muitos investidores estão sendo afugentados com a notícia recente da operação, que acabou jogando o holofote nos problemas do Master, que não são novos”, afirma Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research.
O Master informou na quarta-feira (2) que iniciou um movimento de redução das taxas das novas emissões de CDBs. Mostramos detalhes aqui; os títulos prefixados caíram em 0,3 ponto percentual, enquanto os pós tiveram uma redução de até 3 p.p. Mas os CDBs que já tinham sido emitidos agora voltam à prateleira das corretoras, com investidores preferindo resgatar as aplicações. Para não ficar com os ativos em caixa, as plataformas aumentam o spread; assim, o título ganha tração no mercado secundário. E é isso que tem acontecido, explica Vitor Oliveira, sócio da One Investimentos.
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“As plataformas estão com esses ativos ‘encarteirados’ na tesouraria. Elas aproveitam que o spread de crédito do emissor aumentou muito para jogá-los no mercado com valores mais altos e, assim, tentar limitar o risco da carteira”, afirma.
Rodrigo Azevedo, economista e sócio-fundador da GT Capital, acredita que o movimento no mercado secundário pode estar refletindo um ajuste de posições daqueles investidores que tinham mais de R$ 250 mil, limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), nesses ativos. Ele destaca que o BTG Pactual, corretora da qual a assessoria é parceira, já não tem ofertas primárias de CDBs do Master há algum tempo – em 2024, o banco emitiu um aviso informando que tinha atingido a exposição máxima ao emissor. No mercado secundário, no entanto, o especialista está vendo uma “enxurrada” de títulos emitidos pela instituição de Daniel Vorcaro.
“O anúncio da venda inicialmente pareceu ser positivo, mas depois, com as notícias de barrarem o negócio, surgiu uma preocupação maior. E então começou um movimento muito grande de saída”, diz Azevedo. “Acredito que sejam investidores que estejam se adequando para dentro do FGC, que por algum motivo excederem essa recomendação de se manter dentro do limite de até 250 mil reais.”
CDBs do Master: valem o risco?
Com o resgate antecipado dos CDBs do Master, agora, há opções com retornos muito acima da média do mercado para quem quiser assumir o risco por um período curto de tempo. Os títulos ofertados a 160% do CDI ou IPCA + 10%, que o E-Investidor encontrou nas plataformas nesta quinta-feira (3), vencem ainda em 2025. Mas os especialistas não gostam da ideia.
Milton Rabelo, analista de investimentos da VG Research, destaca que, quanto mais curto for o prazo de vencimento, menos arriscado será o investimento. Mas é preciso diversificar a carteira e não fazer qualquer alocação contando apenas com a garantia do FGC.
“Não tende a ser uma ideia assertiva por parte do investidor concentrar todas as suas aplicações naquele título que rende a maior taxa. O FGC sempre conseguiu honrar os seus compromissos nas dezenas de liquidações de bancos que houve nas últimas décadas, mas não se deve se expor a qualquer título pensando apenas na proteção oferecida pelo fundo”, orienta.
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Rodrigo Azevedo, da GT Capital, acredita que os riscos estão elevados mesmo se o investidor se mantiver com a cobertura do FGC. Quem tem CDBs do Master dentro do limite de R$ 250 mil do fundo garantidor pode manter a exposição, para evitar o prejuízo de um resgate antecipado. “Quem não tem, mesmo que esteja com taxas muito atrativas, que não entre agora e espere uma maior clareza de informações quanto ao futuro do banco, mesmo que isso signifique não conseguir uma taxa tão alta”, afirma.
O Banco Master se tornou um dos emissores preferidos de investidores pessoa física ao oferecer Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas bem acima da média do mercado. Por muito tempo, foi possível encontrar títulos a 140% do CDI sendo oferecidos pela instituição; um nível de retorno que o BRB prometeu honrar. Mas a operação tem levantado muitas dúvidas no mercado. Veja a cobertura completa:
- OPINIÃO: Banco Master, “grande demais para quebrar”?
- Master e BRB têm tamanho suficiente para acabar com a liquidez do FGC, diz Marília Fontes
- FGC garante liquidez, mas vê risco para o BRB na compra do Master, segundo fontes
- Socorro do BRB ao Master é “afronta à governança e imoral”, diz Fabio Alperowitch
- O que acontece com o investidor de CDBs do Master se a compra pelo BRB não sair
A polêmica da compra do Master
O mercado brasileiro foi surpreendido pela notícia de compra de 58% do capital total do Banco Master pelo BRB. Desde então, vem tentando entender os detalhes da operação. Em comunicado, o BRB explicou que as empresas manterão as estruturas das companhias apartadas, com compartilhamento de governança, expertise, sinergias e coordenação estratégica e operacional. A marca será apenas a do BRB.
A operação precisa ser aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e pelo Banco Central; e o presidente do BC, Gabriel Galípolo, já começou a ter as primeiras reuniões sobre o tema. Na segunda-feira (31), o executivo recebeu em Brasília o presidente do BRB, Paulo Henrique Bezerra Rodrigues Costa, e também se reuniu com André Esteves, chairman do BTG Pactual. Como mostrou o Estadão, o BC analisa uma saída alternativa para a negociação e uma das possibilidades na mesa seria incluir o BTG Pactual na operação.
A atuação agressiva do Master já vinha chamando a atenção há tempos, mas ganhou foco especial no final de 2024, quando uma reportagem da revista piauí se debruçou sobre a estratégia de expansão dos negócios do banco comandado por Daniel Vorcaro. Como mostramos aqui, na época, o crescimento rápido da carteira de crédito arriscado da instituição levantou um burburinho no mercado. Tudo isso enquanto se tornava o emissor queridinho do investidor pessoa física ao oferecer CDBs de até 140% do CDI.
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Não há nenhum problema aparente no Master, mas a preocupação de especialistas é de que, no caso de uma eventualidade, os títulos emitidos pelo banco comprometeriam cerca de 42% da liquidez total do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) – quem assume o pagamento de investimentos até R$ 250 mil para a pessoa física se uma instituição financeira quebrar ou não conseguir honrar as obrigações.
Segundo dados do BC, até o final de 2024, balanço mais recente divulgado esta semana, o Master e suas controladas tinham R$ 49,8 bilhões em depósitos a prazos. A liquidez do FGC até junho de 2024 era de R$ 107,8 bi.
Ainda não está claro quais ativos do Master vão ficar na carteira do banco estatal. Em algumas entrevistas, o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, vem explicando que alguns títulos, como precatórios, serão retirados antes da entrada no negócio. Por outro lado, os CDBs emitidos pelo Master seguem na jogada e terão o pagamento honrado nas condições em que foram emitidos.
Este é um ponto importante, porque é justamente a expansão da parte da carteira do Master ligada a precatórios e direitos creditórios que vinha chamando a atenção do mercado. Tratam-se de ativos pagos pelo governo federal após processos judiciais, mas que não têm previsibilidade de pagamento; uma parte ligada a crédito arriscado e que, se for incluída no negócio, repassaria o risco ao BRB.
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A proteção do FGC foi utilizada como “muleta” por muitas corretoras para vender CDBs de bancos pequenos e médios aos clientes. E isso vinha preocupando até o Banco Central, como mostrou esta reportagem do Estadão.
O temor principal é de que um problema em um banco pequeno ou médio gere um risco sistêmico; ou seja, ao comprometer a liquidez do FGC, crie uma reação em cadeia que afete outras instituições. É por isso que para pessoas do mercado, o Master ficou “grande demais para quebrar”. Também por isso há quem veja a compra pelo BRB como um “socorro” por parte do banco estadual, uma medida de contenção de danos dado que uma crise de bancos custaria mais caro ao País.
*Colaborou Beatriz Rocha