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Direto da Faria Lima

O que está levando Wall Street a apostar novamente no mercado brasileiro

Lá fora, não é só a necessidade de diversificação para além dos EUA que serve de catalisador para atrair capital estrangeiro para o Brasil; ciclo de juros e eleições são acompanhados de perto

Por Luíza Lanza
Editado por Geovana Pagel

17/11/2025 | 5:30 Atualização: 14/11/2025 | 18:25

Entrada de capital estrangeiro na Bolsa em 2025 é o principal fator impulsionando recordes nas ações brasileiras. (Arte de Victoria Fuoco com imagens de Adobe Stock)
Entrada de capital estrangeiro na Bolsa em 2025 é o principal fator impulsionando recordes nas ações brasileiras. (Arte de Victoria Fuoco com imagens de Adobe Stock)

Nova York – Os investidores estrangeiros já aportaram R$ 25,6 bilhões no mercado brasileiro este ano, até o dia 10 de novembro, segundo dados mais recentes disponibilizados pela B3. Em um momento em que os locais – tanto a pessoa física, quanto os institucionais – estão fora dos investimentos de renda variável, o fluxo foi o suficiente para fazer a participação gringa representar 58% do total da Bolsa brasileira. E é ele que vem sustentando as altas expressivas das ações em 2025.

Leia mais:
  • Bolha de IA, queda do dólar e juros nos EUA: a opinião da BlackRock sobre as dúvidas globais dos investidores
  • Como o JP Morgan quer liderar grande tendência nos EUA que ainda não é permitida no Brasil
  • A geração de investidores que pensa em dólar: o novo movimento que a Avenue quer liderar
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O capital estrangeiro tem sido impulsionado sobretudo por fatores externos. A combinação de incertezas com tarifas, questionamentos com o excepcionalismo americano, bolsas nas máximas e um ciclo de corte de juros nos Estados Unidos levou investidores globais a buscar novos mercados. É um movimento que tem beneficiado os emergentes como um todo, incluindo o Brasil.

O Ibovespa, principal índice de ações da B3, sobe 31% no acumulado de 2025. O índice já renovou sua máxima histórica 27 vezes.

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Mas, em Wall Street, o otimismo com os ativos brasileiros vai além do que está acontecendo no exterior. Scott Piper, head of Latam equities e CIO do Itaú USA Asset Management, vê a perspectiva de redução da taxa Selic, atualmente estacionada em 15% ao ano, como um grande catalisador para o mercado brasileiro no próximo ano.

Responsável há 15 anos pelas estratégias de ações da América Latina, o gestor viu os emergentes perderem espaço de forma drástica para o mercado americano. Agora, porém, acredita que esse quadro está perto de virar, impulsionado pela rotação dos portfólios para além dos EUA. Somado ao início do ciclo de cortes de juros, previsto para 2026, esse movimento tende a criar um gatilho ainda mais poderoso para o Brasil.

“Em um momento em que a participação em ações também está no fundo do poço, porque os juros estão extremamente altos, o início de um ciclo de afrouxamento monetário permitirá que a indústria de gestão de patrimônio migre de renda fixa para ações. Globalmente, o catalisador é o dólar; localmente, são os juros caindo”, explica.

O fundo que Piper gerencia tem um patrimônio líquido de US$ 4 bilhões e uma preferência por temas que conseguem crescer através dos ciclos, como utilities. A carteira atualmente está exposta a temas que se beneficiam do afrouxamento monetário: além de elétricas e empresas de saneamento, nomes de incorporadoras, shoppings e algumas locadoras de veículos.

“Isso funcionou bem no início do ano, mas ainda acreditamos que o ciclo de juros será muito poderoso para o Brasil. Estamos overweight Brasil, porque estamos muito otimistas com o cenário para o próximo ano graças à queda de juros”, afirma o CIO do Itaú USA.

A renda fixa também atrai

O otimismo não fica restrito apenas às estratégias de renda variável. A Pimco, uma das grandes gestoras globais de renda fixa, com US$ 2 trilhões em ativos sob gestão, vê a alocação em emergentes mais atrativa do que os próprios mercados desenvolvidos neste momento. De novo, trata-se de uma necessidade estrutural de diversificação para além do dólar. Mas não só.

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O argumento de Pramol Dhawan, managing director da Pimco, é que as economias emergentes têm se mostrado resilientes de forma estruturais, com balanços robustos e melhorias de crédito; em contraste com o que chama de rápida deterioração das economias desenvolvidas.

“Há uma melhora real de crédito e não é um ciclo de emergentes como vimos nos anos 2000, impulsionado por commodities e China. Este ciclo atual é baseado em solidez de balanços, em ativos de alta qualidade, e na necessidade de diversificação”, diz Dhawan.

O problema fiscal da economia brasileira, muito repercutido no mercado local, não assusta o diretor. Para ele, países desenvolvidos têm situações tão frágeis quanto; ou até mais. As cinco economias mais frágeis no fiscal hoje, segundo ele, são todas desenvolvidas: França, Reino Unido, Japão, Bélgica e Estados Unidos.

“Os emergentes não fizeram o mesmo nível de estímulo que esses países. A combinação de política monetária muito apertada com política fiscal disciplinada é exatamente o que um investidor de renda fixa quer; e são os emergentes que têm mostrado ambas”, avalia.

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Junto a isso, o prêmio de risco pago no crédito de empresas brasileiras é muito maior do que os pares, com ativos ainda baratos e uma moeda desvalorizada. Casos que recentemente acenderam um alerta no mercado doméstico de crédito privado, como Braskem (BRKM5), Raízen (RAIZ4) e Ambipar (AMBP3), são vistos como “eventos não correlacionados”, não um sinal de crise sistêmica.

Leia também: Crises de Braskem (BRKM5) e Ambipar (AMBP3) fazem bonds brasileiros derreterem até 70%; entenda o risco

A eleição está na mesa deles, sim

A grande pergunta que paira sobre o mercado brasileiro quando o assunto é 2026 são as eleições presidenciais. A dúvida é se a discussão política – ao colocar os holofotes de volta ao problema fiscal do País – pode minar o otimismo vindo do exterior que impulsionou o Ibovespa a patamares recordes e, assim, afastar de novo os gringos.

Por aqui, a dinâmica de maior volatilidade eleitoral já é conhecida e tem aparecido nas análises do mercado para o próximo ano como um fator chave para definir a alocação. Como mostramos aqui, por exemplo, a EQI Research coloca isso como o grande risco e diz que se quem quer que seja eleito não conseguir endereçar adequadamente a questão fiscal as expectativas positivas da corretora para 2026 precisarão ser revistas.

Lá fora, no entanto, o sentimento é mais benigno em relação às eleições. Ao menos, está longe de ser um grande consenso negativo.

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Para Scott Piper, do Itaú, investidores estrangeiros ainda não dão tanto peso à pauta. Nos gringos, a possibilidade de queda de juros pesa mais; entre os brasileiros, a eleição fala mais alto.

São dois catalisadores extremamente poderosos para o mercado, explica, mas, enquanto a eleição ainda está longe para dar qualquer indício concreto do que vai acontecer, há muito mais previsibilidade no movimento de queda da Selic. “Historicamente, sempre que o Brasil inicia um ciclo de afrouxamento monetário, o mercado subiu em média 25% nos seis meses seguintes”, ressalta Piper.

Em entrevista ao Estadão, o diretor do Goldman Sachs faz a mesma conta: o tão esperado afrouxamento monetário, quando começar, deve impulsionar a Bolsa em 12% nos primeiros três meses e em 25% em seis meses.

Para o gestor de ações do Itaú USA, as eleições tendem a se tornar mais importantes ao longo dos próximos meses aos olhos dos gringos – assim como no mercado brasileiro, com mais otimismo caso as pesquisas indiquem uma vitória da direita. “Há certo entusiasmo entre os estrangeiros por causa do que aconteceu na Argentina, os ativos argentinos tiveram um desempenho excelente com a mudança de governo. Em certa medida, o mesmo também vale para a Colômbia e o Chile”, destacou.

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Essa mudança à direita é vista com otimismo no mercado local – e, aparentemente, também no exterior – por uma promessa de maior foco na situação fiscal, com corte de gastos e reformas. Isso é necessário para controlar o ritmo de crescimento da dívida pública, o que ajudaria a ancorar as expectativas de inflação, reduziria as taxas de juros e, com isso, o próprio custo da dívida. É um ciclo.

Por isso, a Pimco, como investidora de crédito privado, está acompanhando o início da discussão eleitoral por aqui.

“É verdade que a dívida do Brasil é insustentável com o atual nível de juros, mas o Banco Central está fazendo exatamente o que precisa para controlar a inflação. Ou, colocando de outra forma, a política monetária está sendo o freio enquanto a política fiscal pisa no acelerador”, avalia Pramol Dhawan.

É uma avaliação muito parecida às feitas por economistas no Brasil. “A solução para o Brasil é muito simples: apertar um pouco os cintos no lado fiscal. Se isso acontecer, e depende muito do resultado eleitoral, o País pode entrar em um ciclo bem mais positivo“, diz o diretor.

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As conversas com a Itaú USA Asset Management e a Pimco aconteceram na sede das duas gestoras em Nova York na primeira semana de novembro, uma agenda promovida pela Avenue, que levou um grupo de jornalistas brasileiros para uma imersão no mercado americano.

Você pode ler também as respostas da Black Rock para as dúvidas de investidores globais, a aposta do JP Morgan para liderar a tendência do mercado de ETFs nos EUA, e o novo capítulo da “diáspora patrimonial de brasileiros” que a Avenue quer liderar.

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