Queda da Selic no radar: como ficam os investimentos se o ciclo de juros mudar
Com a curva já antecipando cortes em 2026, investidores avaliam quais ativos se beneficiam de juros mais baixos e por que o risco de frustração ainda está no jogo
Fechamento da curva, valorização da Bolsa e reprecificação de ativos com a Selic ainda em 15%: qual deve ser a aposta do investidor? (Foto: Adobe Stock)
Para entender quais ativos tendem a se beneficiar de um eventual ciclo de queda da Selic, é preciso voltar ao pano de fundo que hoje orienta o mercado. A leitura dominante entre economistas e estrategistas é de que o Banco Central não reage a um dado isolado, mas ao conjunto de inflação, atividade, mercado de trabalho e cenário externo. A queda recente dos juros futuros reflete menos uma aposta ousada contra o Comitê de Política Monetária (Copom) e mais uma antecipação gradual de um cenário em que a inflação, ainda resistente, começa a dar sinais de acomodação (ainda que distante da meta).
Nesse contexto, a curva de juros já “conta uma história” diferente da Selic estacionada em 15%. Os vencimentos mais longos passaram a embutir a expectativa de cortes ao longo de 2026, o que ajuda a explicar tanto o fechamento da curva quanto a forte valorizaçãoda Bolsa em 2025.
É a partir dessa fotografia (de juros futuros mais baixos, mas com expectativas inflacionárias ainda frágeis e riscos fiscais e políticos no radar) que se desenha o debate sobre quais ativos ganham mais tração caso o cenário benigno se confirme.
Os ativos que se beneficiarão com uma baixa na Selic
Em um cenário mais otimista, no qual a inflação converge para algo mais próximo do centro da meta, Marcelo Freller, estrategista de produtos de investimento do C6 Bank, avalia que haveria espaço para uma Selic mais próxima de 10% no futuro.
Nesse caso, ativos como as NTN-Bs (títulos públicos atrelados à inflação) poderiam se beneficiar fortemente, já que hoje negociam com juros reais próximos de 7%. “Se a gente pensar num juro real neutro de 5% ou 5,5%, o potencial de captura nesse ciclo positivo seria grande”, afirma.
O alerta, porém, é de que prêmio não é garantia de ganho.
O histórico recente mostra que ciclos podem frustrar expectativas. No último ciclo de queda, tanto mercado quanto Banco Central erraram ao projetar juros abaixo de 10%, e a inflação acabou surpreendendo para cima, forçando nova alta da Selic até os atuais 15%.
“Se esse ciclo demorar mais para começar ou terminar num ponto mais alto do que os 12,5% precificados, haverá frustração”, diz Freller.
Esse tipo de frustração costuma bater primeiro nos preços dos ativos. Um cenário de estresse (seja por questões fiscais, eleitorais ou choques externos) tende a pressionar o câmbio, elevar a inflação e provocar correções em Bolsa, prefixados e até em títulos indexados ao IPCA.
Não por acaso, parte da queda recente da curva já foi revertida após ruídos políticos, como o aumento das incertezas eleitorais, que elevaram dólar, juros e pioraram o humor do mercado.
Ainda assim, no balanço de 2025, o fechamento da curva longa foi um dos principais motores da forte alta da Bolsa brasileira. O Ibovespa encerrou o ano com valorização superior a 34%, com mais da metade de seus papéis acumulando ganhos de dois dígitos. Para Filipe Ferreira, professor do Insper e sócio da CTW Consultoria, esse movimento não deve ser lido como euforia, mas como correção.
“Muitas empresas tinham sido penalizadas além do razoável e passaram a se beneficiar de uma melhora marginal nas expectativas”, explica.
A queda dos juros futuros, de níveis acima de 15% ao ano para algo em torno de 13% nos vencimentos longos, fez enorme diferença para empresas intensivas em dívida. “Uma redução de 2 pontos percentuais ao ano, numa perpetuidade, gera um impacto gigantesco no valor presente”, afirma Ferreira.
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Isso ajudou a impulsionar ações de incorporadoras e varejistas, enquanto empresas dolarizadas sofreram com a valorização do real.
No exterior, dados mais fracos da economia americana, como o payrollabaixo do esperado, alta do desemprego e vendas no varejo estáveis, também contribuíram para a queda dos rendimentos dos Treasuries e para um ambiente global mais favorável a ativos de risco e a mercados emergentes.