Ações de petroleiras dos EUA avançam com possível exploração de reservas da Venezuela (Foto: Adobe Stock)
A ofensiva dos Estados Unidos na Venezuela recolocou na mesa uma relação marcada por sanções, disputas políticas e interesse direto no petróleo. A invasão, associada ao presidente norte-americano Donald Trump, mirou estruturas estratégicas do país e elevou a pressão sobre o governo de Nicolás Maduro, em um movimento que Washington enquadra como ação de segurança e combate a ilícitos. Na prática, o episódio reacende a discussão sobre o futuro das reservas venezuelanas, as maiores do mundo, em um momento de reorganização do mercado global de energia.
Mesmo com o aumento da tensão diplomática e registros de mortes, os mercados financeiros reagiram sem sobressaltos. Em Nova York, os principais índices acionários avançaram de forma moderada, com investidores concentrando posições em empresas de energia e bancos. A leitura predominante dos especialistas aponta para um evento político localizado, inserido em um histórico já conhecido de atritos entre os dois países.
O petróleo oscilou para cima em alguns momentos, influenciado tanto pelo risco geopolítico quanto por anúncios sobre a possível entrega de até 50 milhões de barris venezuelanos aos EUA.
Os indicadores de volatilidade confirmaram esse tom. O VIX (Volatility Index), conhecido como índice do medo, subiu de forma limitada e permaneceu distante dos níveis observados em crises internacionais de maior escala. No Brasil, o Ibovespavariou pouco, enquanto o dólarapresentou ajustes discretos frente ao real.
Ainda assim, ouro, metais e ações do setor de defesa ganharam espaço nas carteiras dos investidores, sinalizando uma postura de cautela seletiva diante de um conflito que segue no radar e depende dos próximos passos de Washington e Caracas.
Para Gerson Brilhante, analista da Levante Inside Corp, a sinalização vinda de Trump aponta para uma política externa guiada por negociações pontuais, com menor peso das instituições tradicionais. Esse tipo de condução amplia a imprevisibilidade em torno de regras, sanções e alianças, o que leva investidores a buscar proteção em ativos defensivos e hard assets, como ouro, petróleo, metais e outros ativos reais usados como reserva de valor.
Mesmo assim, diz ele, o mercado ainda não revisou suas projeções centrais para a economia global.
O que esperar no médio e longo prazo
Na visão de médio prazo, Natalie Verndl, delegada do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon SP), avalia que o rumo político da intervenção passa a ser determinante para os mercados. Se a Venezuela conseguir se estabilizar e voltar a negociar com outros países, o movimento pode destravar investimentos em energia e infraestrutura. Isso tende a gerar efeitos positivos em cadeias ligadas a commodities em toda a América Latina.
Em outra direção, uma atuação prolongada dos EUA, marcada por tensão contínua, costuma trazer mais cautela aos investidores, com pressão sobre o dólar, encarecimento do dinheiro externo e maior sensibilidade das ações brasileiras.
“Além disso, vai haver, pelo menos no médio e no longo prazos, a necessidade de que esses investidores comecem a precificar um risco de maior intervenção americana, recalibrando suas expectativas para as políticas econômicas em termos regionais não somente no Brasil, mas em toda a América Latina”, afirma Verndl.
Essa leitura ajuda a entender a análise de Gabriel Estievano Giannoni, diretor de produtos e operações do Mêntore. Para ele, o primeiro efeito aparece nos preços, que passam a oscilar mais, especialmente em commodities e ativos ligados ao crédito. Esse ambiente costuma levar parte dos investidores a buscar proteção.
Com o tempo, se houver mais previsibilidade, o mercado de energia pode se reorganizar, abrindo espaço para oportunidades ligadas à dívida venezuelana e mudando o jogo para países exportadores de matérias primas, como o Brasil.
José Carlos de Souza Filho, professor da FIA Business School, chama atenção para um movimento mais silencioso, porém relevante. Ele explica que, nesse cenário, a percepção de risco sobre países emergentes tende a subir, principalmente quando há distanciamento político em relação aos Estados Unidos. No caso brasileiro, ele afirma que esse efeito costuma aparecer primeiro no câmbio. No setor de energia, o País vive uma situação dupla: a alta do petróleo ajuda as exportações, enquanto a importação de derivados pesa no bolso da economia doméstica.
Tensão geopolítica: o que acontece com o petróleo e outras commodities
Invasão americana na Venezuela pode indicar tentativa de Donald Trump para ampliar o controle sobre a oferta de petróleo do Hemisfério Ocidental. (Foto: Adobe Stock)
Apesar de concentrar grandes reservas, a Venezuela perdeu relevância na produção mundial de petróleo, o que limita sua capacidade de influenciar preços, afirmam especialistas ouvidos pela reportagem do E-Investidor. Para Souza Filho, esse espaço tende a ser ocupado por outros produtores. Ele lembra que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) ainda dispõe de instrumentos para ajustar a oferta e sustentar os preços, caso seja necessário.
Já outras commodities venezuelanas, como gás natural e níquel, podem enfrentar mais ruído, a depender de como avancem as negociações para a regularização do país, um movimento que pode levar governos a reforçar políticas de segurança energética e investimentos estratégicos.
Essa linha ajuda a relativizar a ideia de que o petróleo voltou ao centro da geopolítica global. Para Nicolas Lippolis, pesquisador do Centro de Política Energética Global e da Escola do Clima da Universidade Columbia, os tempos mudaram. Os Estados Unidos já atingiram autossuficiência em petróleo, enquanto a Chinareduz sua dependência do combustível com a eletrificação.
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Segundo ele, parte do mercado interpreta as ações americanas como uma tentativa de ampliar o controle sobre a oferta de petróleo do Hemisfério Ocidental, criando mais margem para uma política externa assertiva sem pressionar o preço interno dos combustíveis. Ainda assim, Lippolis vê pouca chance de movimentos semelhantes contra grandes produtores que abastecem a China, como Rússia e países do Oriente Médio, com uma possível exceção no caso do Irã.
“Os minerais raros já detêm maior importância no contexto atual, mas não prevejo uma alteração nessas tendências em decorrência das recentes ações na Venezuela”, diz o pesquisador.
Na prática, o protagonismo do petróleo tende a ser mais concentrado no curto prazo, ao menos é o que projeta Giannoni, do Mêntore. Ele avalia que o aumento do risco geopolítico ligado à intervenção americana na Venezuela eleva a atenção dos investidores e sustenta movimentos de alta nos preços.
Com o passar do tempo, essa centralidade só se mantém se a produção de petróleo na Venezuela conseguir se recuperar e voltar ao mercado internacional de forma estável. Esse processo, segundo ele, depende de reconstrução, entrada de capital e acordos comerciais, fatores que exigem tempo e mantêm o tema sob observação constante.