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O que o payroll de janeiro nos EUA diz sobre o futuro do dólar no Brasil após 130 mil vagas

Relatório de emprego reforça resiliência da economia americana, sustenta juros elevados por mais tempo e influencia o câmbio global

Por Isabela Ortiz

11/02/2026 | 14:20 Atualização: 11/02/2026 | 14:20

Payroll dos EUA cria 130 mil vagas em janeiro; dado reduz pressão por cortes do Fed e mexe com a cotação do dólar. (Foto: Adobe Stock)
Payroll dos EUA cria 130 mil vagas em janeiro; dado reduz pressão por cortes do Fed e mexe com a cotação do dólar. (Foto: Adobe Stock)

A economia dos Estados Unidos criou 130 mil vagas de trabalho em janeiro, enquanto a taxa de desemprego permaneceu praticamente estável em 4,3%, segundo dados divulgados nesta quarta-feira (11) pelo U.S. Bureau of Labor Statistics (BLS) sobre o payroll. O salário médio por hora avançou 0,4% no mês e acumula alta de 3,7% em 12 meses. O conjunto de números reacende o debate sobre até quando o Federal Reserve (Fed, o banco central do país) poderá manter os juros elevados, fator decisivo para a cotação do dólar frente ao real.

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Antes mesmo da divulgação do dado, o mercado de câmbio já se ajustava. Por volta das 9h40 (Brasília) o dólar futuro já estava em queda, acompanhando o enfraquecimento da moeda americana no exterior. No mercado à vista, a divisa rondava os R$ 5,18, enquanto investidores calibravam posições à espera do payroll, o relatório mensal que mede a criação de empregos fora do setor agrícola e serve como termômetro da economia americana – veja a cotação do dólar agora aqui.

Ainda pela manhã desta quarta-feira e no cenário internacional, o índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de moedas fortes, recuava 0,09%, aos 96,7 pontos, refletindo a expectativa em torno do dado e discussões sobre possível flexibilização da política monetária após sinais mais fracos de atividade nos EUA.

Após a divulgação, o movimento de queda do dólar perdeu intensidade, já que parte do mercado financeiro interpretou o resultado como sinal de resiliência da economia norte-americana, o que reduz a urgência de cortes de juros pelo Fed no curto prazo. Às 14h, o dólar estava sendo negociado a R$ 5,17, o que representa queda de 0,39% ante o fechamento de ontem. Segundo Rafael Passos, sócio da Ajax Asset, o ambiente externo levemente mais favorável vinha dando suporte às moedas emergentes.

“Com dólar mais fraco no exterior, inflação doméstica sob controle e fechamento da curva de juros, o real pode manter desempenho relativamente firme”, afirmou em relatório.

Payroll mostra mercado de trabalho dos EUA resiliente

Os dados detalhados do BLS mostraram que os ganhos de emprego se concentraram em saúde (+82 mil vagas), assistência social (+42 mil) e construção (+33 mil). Em contrapartida, houve cortes no governo federal (-34 mil) e nas atividades financeiras (-22 mil). O número total de desempregados ficou em 7,4 milhões.

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A taxa de participação da força de trabalho permaneceu em 62,5%, praticamente estável, enquanto a jornada média semanal subiu levemente para 34,3 horas.

O relatório também trouxe que o crescimento total do emprego em 2025 foi ajustado para baixo, de +584 mil para +181 mil vagas, após o processo anual de benchmark (referência), revisão que alinha os dados da pesquisa mensal aos registros mais completos do mercado de trabalho. Apenas em março de 2025, o nível de emprego foi revisado para baixo em 898 mil vagas.

Na avaliação de Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, apesar das revisões negativas no histórico, o dado corrente reforça a percepção de que o mercado de trabalho segue resiliente. Para ele, a abertura de vagas acima do esperado e a estabilidade da taxa de desemprego indicam que “a demanda por mão de obra ainda tem alguma resiliência e não se deteriorou de forma abrupta”.

A reação inicial em Nova York foi positiva. Segundo o analista, as bolsas de valores subiram porque o dado foi interpretado como sinal de resiliência e não de superaquecimento inflacionário.

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Isso fortaleceu a narrativa de soft landing, termo que descreve um cenário de desaceleração econômica sem recessão. Além disso, como parte do mercado estava posicionada de forma defensiva antes da divulgação, a surpresa gerou recomposição de risco no curto prazo.

Cortes de juros devem sustentar o dólar

Igor Monteiro, CEO da EqSeed, avalia que o payroll mais forte pode adiar a discussão sobre cortes de juros nos EUA pelo Fed, o que tende a sustentar o dólar no curto prazo. Para o Brasil, ele vê um viés de alta para o USD/BRL, refletindo a menor probabilidade de flexibilização monetária nos Estados Unidos, mas ressalta que o câmbio continuará condicionado aos fatores domésticos, especialmente à dinâmica fiscal e à percepção de risco local.

A leitura é semelhante à de Cristiane Quartaroli, economista-chefe da Ouribank. Segundo ela, o resultado “reforça a resiliência do mercado de trabalho dos Estados Unidos e sinaliza uma menor urgência para o Federal Reserve reiniciar o ciclo de cortes de juros no curto prazo”. Com isso, os rendimentos dos Treasuries (títulos públicos dos EUA) tendem a se manter elevados, o que sustenta o dólar globalmente e pode reduzir o fluxo de capital para países emergentes como o Brasil.

Para Fábio Murad, economista e CEO da Super-ETF Educação, o conjunto de dados reforça que o Fed pode manter os juros elevados por mais tempo, o que tende a fortalecer o dólar no mundo todo. “Investidores preferem alocar capital em mercados seguros e bem remunerados como o dos EUA”, diz.

Apesar do suporte de curto prazo, o cenário global não aponta para um dólar estruturalmente forte

André Matos, CEO da MA7 Negócios, lembra que 2026 começou sob um regime de maior seletividade e redução do papel automático do dólar como ativo de proteção. Segundo ele, a fraqueza recente da moeda americana vinha reduzindo o custo de capital no Brasil e devolvendo previsibilidade ao planejamento das empresas.

Felipe Salles, economista-chefe do C6, reforça essa visão de pano de fundo mais amplo. “O cenário global tem sido de um dólar fraco. A gente está vendo a moeda americana perdendo valor frente a várias outras moedas, dentre elas o real”, explica. Para ele, o payroll mais forte atenua, mas não reverte completamente essa tendência.

“O Federal Reserve não precisa ter pressa para cortar juro. Isso reduz a intensidade com a qual o dólar está perdendo força no mundo”, acrescenta.

Em relação ao real, Salles vê um embate de forças. De um lado, um dólar globalmente mais fraco favorece a moeda brasileira. De outro, as fragilidades fiscais (com a dívida pública em trajetória de alta) pressionam o câmbio para cima.

“Fica um cenário global puxando o dólar real para baixo, mas uma fragilidade fiscal puxando para cima, difícil saber qual é o resultante dessas duas forças”, afirma.

Ainda assim, o economista projeta o dólar encerrando 2026 em R$ 5,50.

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O payroll desta quarta-feira, portanto, não altera sozinho a tendência do câmbio, mas ajusta o equilíbrio de forças no curto prazo. Ao reforçar a resiliência da economia americana, o dado sustenta a perspectiva de juros elevados por mais tempo e limita a depreciação da cotação do dólar no exterior. No Brasil, porém, o rumo da moeda continuará sendo definido pela combinação entre cenário externo e fundamentos domésticos, especialmente a trajetória fiscal, o diferencial de juros e a percepção de risco político.

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