Investe e garante a taxa, que, no pior dos casos, o FGC paga. Mas a demora de quase dois meses no pagamento de investidores que tinham CDBs do Master mostra que essa história não é bem verdade.
A instituição de Daniel Vorcaro foi liquidada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2024. Como o fundo garantidor só paga os rendimentos devidos até o momento da liquidação, os valores investidos nos CDBs estão parados desde então. Sem nenhuma correção há dois meses, os ativos estão perdendo para aplicações conservadoras e até mesmo para a inflação. Nesse período, o CDI acumulado foi de 2,3%, enquanto o IPCA foi de 0,5%.
No auge da distribuição de seus títulos, o Master chegou a oferecer 140% do CDI em CDBs pós-fixados. Quem garantiu essa rentabilidade, ainda não está “no prejuízo”, mesmo com os valores parados após a liquidação. Mas quem comprou os ativos do banco a 120% do CDI – um nível de retorno ainda alto e que quase não se encontra hoje no mercado – está perdendo dinheiro.
Carlos Castro, planejador financeiro CFP pela Planejar, fez uma simulação para mostrar o efeito disso na prática. Hoje, aquele CDB de 120% do CDI se transformou em 99,6% do CDI. Um investidor que investiu R$ 1 mil no produto teria R$ 1.142,8 atualmente, sem o rendimento dos últimos dois meses. Menos do que quem investiu em CDBs de bancos grandes, que pagam entre 100% e 105% do CDI com muito menos risco.
Com a Selic em 15% ao ano oferecendo mais de 1% de retorno ao mês nas aplicações mais conservadoras, como o Tesouro Selic, o custo de oportunidade de ficar com os valores parados, à espera do FGC, é alto.
“Custo da oportunidade é a perda da rentabilidade por não poder reinvestir esse dinheiro em ativos que vão render mais ao longo do tempo, como um Tesouro Selic, enquanto os investidores aguardam o pagamento pelo FGC”, diz Castro.
Quanto maior for a demora no ressarcimento, maior é essa desvantagem. O FGC ainda não iniciou o pagamento dos credores, mas há uma expectativa de que isso seja feito nas próximas semanas. “A diferença tende a piorar. Se o mês de janeiro também não for remunerado, esse CDB de 120% do CDI vai cair para alto em torno de 97% do CDI”, destaca o planejador. “Na medida que a inflação vai avançando, o dinheiro travado começa a perder também poder de compra.”
O aprendizado: é preciso olhar além da taxa
Jeff Patzlaff, planejador financeiro CFP e especialista em investimentos, faz uma analogia: investir em um ativo olhando apenas para a taxa oferecida é como escolher um carro apenas pela velocidade máxima, sem checar se ele tem freios de qualidade para proteger quem o dirige. Um erro comum, mas que pode ser evitado por investidores.
“A vantagem da taxa alta desaparece quando colocamos na ponta do lápis os meses em que o dinheiro ficou parado na conta do FGC ao invés de trabalhar para você. Quem tinha boa parte do patrimônio nesses títulos está agora sem liquidez para aproveitar novas oportunidades de mercado ou cobrir uma emergência”, explica. “O FGC devolve até R$ 250 mil por CPF, mas não devolve o tempo perdido.”
A recomendação é diversificar a carteira em mais de um emissor, se mantendo sempre dentro do limite da garantia do FGC, que inclui os rendimentos. E ficar atento à saúde da instituição por trás daquele CDB. No geral, quando maior a taxa oferecida, maior é o risco daquela aplicação.
O investidor que quiser fazer essa análise no detalhe pode começar pelo balanço da instituição financeira. A recomendação é de comparar o tamanho e a qualidade da carteira de crédito com o patrimônio líquido para entender o grau de comprometimento do patrimônio frente aos compromissos que essa instituição tem de mercado.
Dentro do balanço, também vale ficar atento ao chamado Índice de Basileia (IB); quanto mais alto for esse índice, maior será a capacidade do banco para absorver perdas. Em 2024, o Master, por exemplo, apresentou um IB de 11,51%. Segundo o Banco Central, para ser considerada saudável, uma instituição financeira deve ter um Índice de Basileia de no mínimo 10,5%.
Ao realizar a pesquisa para investir em CDBs, outra dica é checar como as agências de classificação de risco – como Fitch, Moody’s e S&P Global Ratings – avaliam o banco emissor. Isso ajuda o investidor a entender o nível de segurança da instituição. Mas vale lembrar: nem todos os bancos têm rating das três agências. Bancos pequenos ou médios muitas vezes não contratam esse tipo de avaliação.