Dólar, ouro, petróleo e mercados globais: tensões geopolíticas voltam ao radar e influenciam preços das commodities, moedas e decisões de investimento. (Foto: Adobe Stock)
Enquanto no Brasil o colapso do Banco Master expõe fragilidades no sistema financeiro, o mundo volta a operar em modo de alerta: tensões geopolíticas se acumulam, o petróleooscila com força e ouroe pratarenovam recordes históricos, sinalizando busca global por proteção. Além disso, o brasileiro assiste a um movimento contraintuitivo, com Ibovespa nas máximas, o real resistente frente ao dólar e o País na contramão do estresse internacional. O paradoxo levanta a pergunta central do momento, em meio ao caos: o que esses ativos indicam, de fato, para o investidor?
As declarações envolvendo a Groenlândia, a oscilação do discurso comercial dos Estados Unidos em relação a parceiros europeus e a ameaça recorrente de novas tarifas reacenderam o prêmio de risco global. O impacto mais imediato se manifesta nos preços das commodities.
Na New York Mercantile Exchange (Nymex), o petróleo WTI para março fechou na última sexta-feira (23) em alta de 2,88%, a US$ 61,07 o barril. Já o Brent para mesmo mês, negociado na Intercontinental Exchange de Londres (ICE), subiu 2,84%%, a US$ 65,88 o barril. Na semana, avançaram 2,74% e 2,73%, respectivamente. Enquanto isso, o ouro para fevereiro encerrou em alta de 1,35%, a US$ 4.979,70 por onça-troy no pregão de sexta e a prata para março avançou 5,15%, a US$ 101,33 por onça-troy, ambos metais em patamar recorde.
Mas embora petróleo, ouro e prata são geralmente agrupados como ativos sensíveis ao risco, cada um responde a vetores distintos. É o que destaca Fabiano Vaz, sócio e analista da Nord Investimentos: “O ouro, a prata e o petróleo têm sensibilidade ao risco, mas cada um carrega suas próprias variáveis.”
Os distintos comportamentos do petróleo, do ouro e da prata
Para ele, os episódios recentes ajudam a explicar a reação de curto prazo dos mercados, mas não contam a história completa. No início do mês, por exemplo, o petróleo reagiu de forma direta ao aumento das tensões no Oriente Médio, especialmente após os eventos envolvendo o Irã. “Vimos o petróleo sair da faixa dos US$ 62 e bater US$ 66 justamente com essa escalada”, lembra. e quando o ruído diminuiu, ao menos temporariamente, veio a correção.
Esse comportamento reforça a ideia de que o petróleo reage, sobretudo, a choques ligados à oferta e à demanda e não necessariamente ao risco sistêmico global.
Já os metais preciosos seguem uma lógica diferente, mais conectada à percepção estrutural de incerteza. Segundo Vaz, o movimento do ouro vai além do noticiário do dia. “Esses choques representam uma foto dentro de um filme maior, de mudança estrutural”, diz.
Na leitura dele, a valorização do ouro começou anos atrás, com a pandemia de covid-19, ganhou força com a guerra comercial entre Estados Unidos e China e acelerou após a invasão da Ucrânia pela Rússia, quando bancos centrais passaram a reforçar reservas fora do dólar. “São vários choques sucessivos que, ao longo do tempo, sustentaram essa valorização”, explica.
A mesma visão tem Marcelo Freller, estrategista do C6 Bank, que chama atenção para a diferença fundamental entre petróleo e metais preciosos. Para ele, tratar o petróleo como um termômetro direto do risco global é um erro comum.
“O petróleo reage a notícias muito específicas de oferta e demanda. Ele não é, por definição, uma medida de estresse de mercado”, afirma.
Na avaliação de Freller, o preço do petróleo em tendência para baixo atualmente não reflete calmaria ou tensão geopolítica, mas, sim, um excesso estrutural de oferta. “Está sobrando petróleo no mercado”, diz. Um dos motivos vem da perda de poder da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) como cartel. “Antes, bastava a Opep pedir para todo mundo produzir menos. Hoje, produtores como EUA e Brasil não vão reduzir produção porque a Opep pediu.”
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Já sobre o ouro e a prata, Freller enxerga que a alta consistente desde o fim de 2022 tem um ponto de partida claro: a mudança de comportamento dos bancos centrais. “Eles começaram a comprar ouro porque não se sentiam confortáveis em manter reservas em Treasuries (títulos públicos americanos) e correr o risco de sanções”, explica. Depois disso, o movimento foi reforçado por investidores institucionais e pessoas físicas, atraídos pela performance.
Mais recentemente, o fator decisivo tem sido o juro do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA). “O atrito geopolítico ajuda, mas o principal combustível é o juro baixo nos Estados Unidos”, afirma. Na visão dele, se o Fed voltasse a subir juros de forma agressiva, o ouro sofreria, mesmo em um cenário geopolítico tenso.
“O ouro não está subindo porque o mundo está em guerra; ele está subindo porque o juro real americano está baixo”, defende.
E como esse ambiente global chega ao Brasil?
Segundo André Valério, economista sênior do Inter, a economia brasileira entrou nesse período de maior volatilidade internacional em uma posição relativamente mais confortável. Desde a posse do presidente dos EUA, Donald Trump, observa-se um rebalanceamento dos fluxos globais de ativos, com redução da exposição excessiva à economia americana, a chamada tese do “excepcionalismo americano”. “Isso acabou beneficiando outras geografias, inclusive o Brasil”, afirma.
O reflexo aparece nos indicadores de risco. O CDS brasileiro, medida que funciona como um “seguro” contra calote da dívida soberana, gira em torno de 135 pontos, o menor nível desde a pandemia. “Isso mostra que há margem para o Brasil absorver essa volatilidade sem um aumento relevante da percepção de risco”, diz Valério.
Além disso, o País conta com uma proteção natural, uma vez que é exportador líquido de commodities, especialmente petróleo e minério de ferro. Em momentos de incerteza global, ativos reais tendem a se valorizar, o que ajuda as contas externas e amortece choques vindos de fora.
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No câmbio, o comportamento também foge do padrão clássico. Em episódios típicos de aversão ao risco, investidores correm para a moeda americana, penalizando as emergentes. Mas o cenário atual a situação mudou de figura. “Estamos em um movimento de desvalorização global do dólar”, lembra Valério.
O índice DXY – que compara a divisa dos EUA com outras moedas concorrentes no mundo – acumula queda de 9,4% em 2025, o que reduz a pressão sobre o real, movimento reforçado pelo diferencial elevado de juros no Brasil – afinal, com juros nas alturas, o investidor estrangeiro traz seus dólares para a economia brasileira.
O quadro, entretanto, não significa ausência de volatilidade. A expectativa é de alguma depreciação do real, mas de forma mais contida do que em momentos de tensão anteriores. Já no mercado de juros, os efeitos são mais complexos. A ponta curta segue ancorada na política monetária, enquanto no longo prazo o spread pode abrir – diferença entre os juros longos e curtos aumenta – em um ambiente de maior aversão ao risco, lá fora e aqui dentro.
O que o investidor brasileiro deve fazer
Para o investidor brasileiro, a leitura final diz menos sobre “pânico” e mais sobre proteção e diversificação. Metais preciosos seguem cumprindo seu papel como reserva de valor em um mundo de juros reais comprimidos e tensões recorrentes. O petróleo, embora volátil, impacta inflação, política monetária e setores específicos da Bolsa de Valores. E o Brasil, por ora, aparece mais como beneficiário colateral desse rearranjo global do que como vítima direta.
Em um mundo mais ruidoso, entender qual commodity reage a qual risco pode ser tão importante quanto acompanhar o noticiário geopolítico em si. Se no plano macroeconômico o Brasil parece relativamente protegido do choque geopolítico imediato, no micro (economia real) – especialmente na Bolsa – a volatilidade tende a ser sentida de forma desigual entre os setores.
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Para Fabiano Vaz, da Nord Investimentos, os maiores impactos recaem justamente sobre as empresas mais expostas ao ciclo das commodities. “As mais vulneráveis acabam sendo as empresas de commodities”, afirma. Em momentos de aumento da incerteza global, a oscilação dos preços internacionais se intensifica, o que pressiona os resultados e o valuation (valor de mercado) dessas companhias.
O setor de petróleo serve de exemplo recente. “No ano passado, a gente viu não só eventos geopolíticos, mas também a Opep aumentando a oferta e os Estados Unidos produzindo mais. Tudo isso contribuiu para pressionar os preços”, diz.
Esse tipo de movimento reforça o caráter cíclico dessas empresas. Em determinados momentos, como no pós-pandemia, o cenário foi amplamente favorável, com minério de ferro, petróleo e commodities agrícolas em forte alta. Mas o ciclo virou a partir de 2023, mostrando como essas companhias são sensíveis à dinâmica global de oferta, demanda e política internacional. “Elas acabam dependendo desses ciclos e sofrendo mais com a volatilidade dos preços internacionais”, resume Vaz.
Do outro lado do espectro estão os setores considerados defensivos, com receitas previsíveis e menor dependência direta do mercado internacional. “Utilities (serviços básicos, como energia e saneamento), principalmente, acabam se defendendo melhor nesses momentos”, afirma. São companhias que tendem a sofrer menos em períodos de maior incerteza por operarem com contratos de longo prazo e menor exposição ao ciclo econômico global.
Como investir agora?
Diante desse cenário, o analista da Nord evita cravar vencedores ou perdedores absolutos. Para ele, a principal resposta não está em tentar antecipar os imprevisíveis eventos geopolíticos, mas na construção de portfólios mais resilientes. “É sempre difícil dizer quem vai se beneficiar ou não, porque tudo depende de eventos que a gente não controla”, diz.
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A recomendação central passa pela diversificação. Um portfólio equilibrado, combinando renda fixa e renda variável, ativos no Brasil e no exterior, tende a atravessar melhor tanto momentos de estresse quanto fases mais construtivas do mercado. Para o investidor pessoa física, especialmente o mais conservador, esse equilíbrio ganha ainda mais importância.
“No Brasil, onde é difícil enxergar com clareza o médio e o longo prazos, faz muito sentido ter uma carteira balanceada”, afirma.
Essa leitura conversa com a visão de Freller, do C6 Bank, especialmente quando o foco entra nas decisões práticas de alocação. Para ele, apesar do noticiário carregado, alguns ativos já precificaram boa parte do risco, e até do otimismo. No caso dos metais preciosos, ele defende que o rali pode ter ido longe demais. No Brasil, o cenário é descrito como “binário”, muito condicionado à política doméstica. “Vai depender muito do resultado da eleição”, diz.
Se houver continuidade do atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o dólar tende a se manter como um ativo defensivo relevante. Em caso de mudança de poder, a assimetria se desloca para os ativos domésticos, como a Bolsa. Diante dessa bifurcação, a estratégia adotada tem sido a de não fazer apostas direcionais excessivas. “Não estamos posicionados nem em dólar nem em Bolsa brasileira de forma exagerada, justamente para não errar o cenário”, afirma.
Em vez disso, a preferência recai sobre um velho conhecido do investidor em tempos de incerteza, mas que, desta vez, oferece uma combinação rara de retorno e segurança: a renda fixa pós-fixada.
Com a Selic em 15% e a inflação ao redor de 4,5% ao ano, o investidor consegue capturar um juro real próximo de 10% anualmente, com risco relativamente baixo. “É um retorno muito elevado sem precisar correr grandes riscos”, diz Freller. A recomendação passa por papéis pós-fixados de bons emissores, títulos públicos como a LFT (Tesouro Selic) e ativos isentos de crédito de alta qualidade.
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O recado que fica é menos sobre prever o próximo foco de tensão (seja Groenlândia, Oriente Médio ou tarifas comerciais) e mais sobre reconhecer que o mundo entrou em uma fase estruturalmente mais ruidosa. Em um ambiente assim, proteção, diversificação e disciplina tendem a ser mais eficazes do que apostas concentradas. Para o investidor, entender isso pode ser tão valioso quanto acompanhar o sobe e desce do petróleo ou os novos recordes do ouro.