Rafael Cota é gestor de renda variável do Inter Asset (Foto: Inter Asset)
Enquanto o mercado deixa de lado as ações do Banco do Brasil (BBAS3), há quem dê um voto de confiança à estatal. O Inter Asset faz parte desse grupo. Desde o início da inadimplência do agronegócio na carteira de crédito do BB, a gestora com R$ 22 bilhões sob gestão mantém firme sua exposição ao papel e classifica o problema como algo “conjuntural” e não “estrutural”, como parte dos investidores avaliam.
Os números do balanço do 1º trimestre de 2025 foram os responsáveis por mudar a percepção do mercado sobre o BB. Na época, o lucro da estatal veio 20,7% em comparação ao mesmo período do ano anterior. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE, na sigla em inglês) também cedeu 4,98 pontos percentuais na base anual, ficando em 16,7% no trimestre.
Os resultados, segundo o BB, foram penalizados pela Resolução nº 4.966 do Conselho Monetário Nacional (CMN), que começou a valer em 2025. A medida obriga as instituições financeiras a anteciparem as ‘provisões’ por perdas esperadas. O problema persistiu nos trimestres seguintes. No último balanço, referente ao terceiro trimestre de 2025, a queda do lucro do BB foi ainda maior: 60,2% em um ano.
As incertezas quanto à recuperação da carteira de agro do BB impediram qualquer mudança de humor dos investidores sobre o papel. Dados do TradeMap mostram que as ações do Banco Brasil caíram 4,96% em 2025 e perderam R$ 12,8 bilhões em valor de mercado. A depreciação, no entanto, obrigou o fundo Inter Dividendos FIA a comprar mais ações para manter em 10% a sua exposição no Banco do Brasil.
“À medida que caíram ao longo de 2025, compramos mais ações para voltar à posição inicial que pretendemos ter no BB”, diz Rafael Cota, gestor de renda variável da Inter Asset. “Entendemos que é algo conjuntural, por isso que mantivemos o investimento no banco.”
Segundo o executivo, a queda dos preços das commodities, logo após a pandemia da Covid-19, e a trajetória de alta dos juros no Brasil que resultou na Selic a 15% ao ano, pressionaram os agricultores que estavam alavancados (endividados). No entanto, ele avalia que as outras verticais de crédito da estatal permanecem saudáveis, o que sinaliza que a crise trata-se de um movimento pontual do agronegócios e não sobre os fundamentos ou modelo de negócio do BB.
“O banco é muito sólido. Só está passando por um período difícil”, diz Cota.
As outras preferências
As ações do Banco do Brasil (BBAS3) não são as únicas do setor financeiro que compõem o portfólio do Inter Dividendos. Os papéis da Itaúsa (ITSA4) também ocupam espaço estratégico na carteira. A holding possui 37,2% de participação das ações do banco Itaú (ITUB4) e, segundo Cota, investir no grupo trata-se de uma forma de se beneficiar dos resultados financeiros do maior banco privado do País que, no seu último balanço, registrou um lucro de quase R$ 12 bilhões.
“A Itaúsa está com um desconto muito alto. Então, para nós, é como se estivéssemos comprando as ações do banco Itaú, mas com desconto”, diz.
No setor de seguros, o fundo mantém preferência pelas ações do BB Seguridade (BBSE3) e da Caixa Seguridade (CXSE3). A Allos (ALOS3) também ganha espaço importante na carteira do fundo. No seu último balanço, divulgado em novembro, a rede de shoppings comunicou que pretende distribuir dividendos mensais de R$ 0,28 a R$ 0,30 por ação em 2026. O valor corresponde ao triplo dos pagamentos realizados nos trimestres anteriores. Na época, a projeção para proventos superou em 120% as estimativas do Santander, que classificou o guidance como robusto.
“Compramos as ações da Allos porque avaliamos que o preço das ações está abaixo do valor considerado ideal para a empresa em função dos juros elevados”, justifica o gestor.
A estratégia do Inter Dividendos
A busca por ações na bolsa de valores negociadas com desconto não é o único interesse dos gestores do fundo. As 10 companhias que integram a carteira também têm outras particularidades em comum: bons fundamentos econômicos, forte geração de caixa e histórico de distribuição de dividendos. As características tornam o portfólio menos suscetíveis às volatilidades de curto prazo. Por isso, Cota ressalta que os movimentos de queda de juros no Brasil e o período eleitoral não exercem forte influência na decisão de investimento do fundo. O objetivo é gerar valor independente do cenário doméstico.
“Não investimos muito baseado em cenários. Nós monitoramos, mas é difícil antecipar esses eventos. Então, procuramos negócios com menos risco”, diz Cota.
Além disso, os proventos gerados por esses investimentos são reinvestidos no portfólio do fundo. O objetivo é potencializar a rentabilidade das aplicações por meio do efeitos dos juros compostos. Como mostramos nesta reportagem, essa estratégia pode multiplicar em até dez vezes o retorno final dos investimentos.