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Mercado

Ibovespa bate recordes em 2026 com entrada de capital gringo; movimento deve continuar?

Com dólar mais fraco e preços ainda atrativos dos ativos locais, investidores estrangeiros têm entrado na Bolsa brasileira

Por Beatriz Rocha
Editado por Geovana Pagel

28/01/2026 | 5:30 Atualização: 28/01/2026 | 7:28

O Ibovespa é o principal índice da B3, a Bolsa de Valores brasileira. Foto: Divulgação/B3
O Ibovespa é o principal índice da B3, a Bolsa de Valores brasileira. Foto: Divulgação/B3

O Ibovespa vem batendo recorde atrás de recorde no começo de 2026. Na terça-feira (27), o principal índice da B3 chegou a superar o patamar de 183 mil pontos e fechou no maior nível de sua história. Só neste ano, já sobe 12,91%, ampliando os ganhos dos últimos 12 meses para 45,70%.

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Por trás da valorização, analistas apontam um protagonista: o investidor gringo. Até o dia 23 de janeiro, estrangeiros aportaram R$ 17,728 bilhões na Bolsa brasileira neste ano, segundo dados da B3. Para efeito de comparação, eles haviam ingressado com R$ 25,473 bilhões em 2025.

Ou seja, o ingresso de capital estrangeiro apenas em janeiro de 2026 já supera mais da metade de todo o volume registrado ao longo de 2025. Esse movimento, segundo analistas, têm duas explicações principais: um dólar mais fraco globalmente e o preço ainda atrativo da Bolsa brasileira.

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O índice DXY, que compara o dólar com seis moedas fortes, recua 2,57% no ano, operando no menor nível desde fevereiro de 2022. Essa queda global da divisa americana tem levado a um movimento de rotação dos investidores dos Estados Unidos para mercados emergentes.

“Quando o investidor global reduz um pouco a posição em dólar e busca diversificação, uma parte desse dinheiro vem para países como o Brasil. Como a nossa Bolsa é relativamente pequena em comparação aos grandes mercados, entradas não tão gigantes assim já mexem bastante com os preços”, explica Lilian Linhares, economista e head de Multi-Family Office (MFO) da Rio Negro Investimentos.

Ela pontua, no entanto, que esse fluxo estrangeiro pode mudar rápido, a depender do comportamento do dólar e dos juros nos Estados Unidos, além de fatores como apetite a risco e cenário geopolítico.

Segundo Linhares, se o juros americanos sobem mais do que o esperado ou, se o dólar volta a se fortalecer, esse dinheiro pode sair. “Por outro lado, enquanto continuar a ideia de diversificação global e menor concentração em dólar, a tendência é de que parte desse fluxo para emergentes se mantenha”, diz.

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Bolsas de outros países da América Latina também têm se saído bem. No Chile, o IPSA avança 10,92% no ano, enquanto o IPC, no México, sobe 7,11%. Já na Argentina, o Merval acumula alta de 6,31%.

Os ganhos do Ibovespa devem continuar?

Segundo Matheus Amaral, especialista em renda variável do Inter, a Bolsa brasileira ainda está descontada, com o Ibovespa operando com um múltiplo de cerca de 10 vezes o preço sobre lucro (P/L).

Esse desconto se dá porque o investidor analisa alguns riscos antes de investir no Brasil, como a Selic elevada, em 15% ao ano, e as mudanças na tributação de dividendos, aprovadas no final de 2025.

“Enquanto países emergentes como o Chile negociam acima de 12 vezes o P/L, o Brasil está em torno de 10 vezes o P/L. Acredito que os riscos do mercado brasileiro já estão na conta do investidor”, destaca Amaral.

Para Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, a Bolsa brasileira passa por um período de “bull market” – “mercado de touro”, na tradução em inglês, como é conhecido o ciclo de alta para ações.

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“O principal risco para esse cenário está na corrida eleitoral, com uma eventual reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pois o mercado não acredita hoje que um 4º governo Lula irá mudar radicalmente a sua postura e assumir uma conduta fiscalista”, diz Tavares.

A maior parte das corretoras do mercado trabalha com projeções otimistas para o Ibovespa em 2026. Dentre as casas consultadas pelo E-Investidor, o preço-alvo mais alto é o do Santander, que estima um nível de 195 mil pontos para o índice em 2026.

A Monte Bravo, por sua vez, traça três cenários diferentes. No contexto neutro, o governo prometeria um ajuste fiscal pressionado pelas circunstâncias, o que levaria o Ibovespa a cair para 125 mil pontos. Apesar disso, a baixa credibilidade levaria a um aumento dos prêmios de risco, com o mercado adotando um ceticismo mais crítico do que nas últimas eleições.

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No cenário otimista, o governo eleito anunciaria um ajuste fiscal robusto, com cortes de gastos e avanço de reformas, reduzindo o prêmio de risco e impulsionando o Ibovespa para cerca de 225 mil pontos. Já no cenário pessimista, a aposta no “mais do mesmo” complicaria as contas públicas, poderia provocar fuga de capitais e levaria o índice para a região dos 100 mil pontos.

Os fatores no radar do mercado para 2026

Bruno Boccato, sales de renda variável da InvestSmart XP, enxerga as eleições mais como uma fonte de volatilidade, do que como um entrave estrutural ao fluxo de recursos para a Bolsa, sobretudo diante das incertezas geopolíticas no cenário internacional.

Segundo ele, a aproximação das eleições ao longo do ano, juntamente com a divulgação das pesquisas, tende a elevar a volatilidade dos ativos. “Esse fator deve ganhar relevância especialmente no segundo semestre, embora, para investidores de longo prazo, esse ruído seja encarado como transitório”, avalia.

Além das eleições, outros fatores podem mexer com a Bolsa brasileira ao longo de 2026. O primeiro seria a possibilidade de queda da Selic, que pode melhorar o balanço de empresas. O último Boletim Focus projeta uma taxa básica de juros de 12,25% no final do ano.

A continuidade do fluxo estrangeiro também merece atenção, pois aumenta a liquidez do mercado e sustenta os resultados das ações de maior peso no Ibovespa, as chamadas blue chips, como Vale (VALE3) e Petrobras (PETR3; PETR4).

“O cenário é positivo para a Bolsa em 2026, mas não esperamos que ele seja linear”, resume Gabriel Cecco, especialista da Valor Investimentos.

O analista aponta alguns riscos que podem limitar essa trajetória, como sinais de perda de disciplina fiscal nas propostas dos candidatos em ano eleitoral e o ambiente externo. “Se os Estados Unidos voltarem a endurecer os juros – o que não é o cenário-base – ou se houver um choque geopolítico ligado a tarifas, os emergentes tendem a ser os primeiros a sentir”, afirma Cecco.

Os setores de destaque no ano

Amaral, do Inter, explica que, quando o fluxo estrangeiro vem forte para o Brasil, ele tende a se concentrar nas ações de maior liquidez, como as dos grandes bancos, o que reforça a visão positiva para os papéis do setor.

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O analista também destaca o apelo defensivo de setores mais resilientes, como serviços básicos – caso de energia elétrica e saneamento –, que costumam apresentar resultados mais estáveis.

Com o cenário mais construtivo para a Bolsa, ainda há espaço para adicionar, de forma pontual, posições em setores mais sensíveis aos juros, como uma espécie de “tempero” na carteira. Um destaque é o mercado imobiliário, com a expectativa de que a redução da Selic beneficie os segmentos de média e alta renda.

Por outro lado, Amaral chama atenção para possíveis riscos de desempenho em alguns setores do Ibovespa. Empresas exportadoras podem enfrentar mais dificuldades caso o dólar siga em trajetória de desvalorização. Isso vale especialmente para o segmento de papel e celulose, cujas receitas são atreladas ao câmbio.

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