A Vale (VALE3) divulgou na noite desta terça-feira (27) seu relatório de produção e vendas do quarto trimestre de 2025, em um momento de forte valorização das ações e de leitura mais cautelosa por parte dos analistas. Nos últimos doze meses, os papéis da mineradora acumulam alta de cerca de 76%, movimento impulsionado pela recuperação dos preços do minério de ferro, fluxo estrangeiro para ações brasileiras e pela percepção de um equity story (narrativa estratégica de uma empresa) mais disciplinado em capital e focado em retorno ao acionista.
A produção de minério de ferro da companhia no 4T25 avançou 6% em relação ao mesmo período de 2024, alcançando 90,4 milhões de toneladas (Mt), ligeiramente acima das estimativas da Genial Investimentos (+1,2%). Na base trimestral, houve recuo de 4,2%, movimento considerado sazonal e já esperado com o início do período chuvoso, após um terceiro trimestre mais forte durante a estação seca. No acumulado de 2025, a produção atingiu 336,1 Mt, alta de 2,6% sobre 2024, permitindo à Vale superar, pela primeira vez desde 2018, a produção da Rio Tinto em Pilbara, na Austrália.
A leitura também é positiva na Suno Research. Para João Daronco, analista da casa, a Vale superou as metas de produção estabelecidas no início do ano em todos os seus segmentos, com a produção anual de minério de ferro alcançando 336 milhões de toneladas (o maior nível desde 2018) impulsionada pelo desempenho de Brucutu e pelo ramp-up de projetos como Capanema.
Para Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, os números reforçam a execução do plano estratégico da companhia. Segundo ele, a produção elevada em 2025 “foi realmente surpreendente” e confirma o avanço consistente da Vale rumo à liderança global.
“A produção de minério foi bem forte, com um avanço de 6% no último trimestre em relação ao mesmo período do ano anterior, o que mostra que a companhia está cumprindo exatamente o que vinha sinalizando”, afirma.
Segundo a Genial, o desempenho anual segue sustentado por ramp-ups (aceleração do portfólio) e ganhos estruturais de eficiência, com destaque para o Sistema Sudeste e para o avanço consistente do projeto Capanema (MG), que já se consolida como principal highlight operacional e deve atingir plena capacidade no segundo trimestre de 2026. No Sistema Norte, a produção foi impactada por menor disponibilidade de ROM (tipo de memória que armazena dados mesmo sem energia) em Serra Norte e por manutenções programadas em S11D, ainda que o complexo tenha fechado o ano com produção recorde de 86 Mt, reforçando seu status de principal ativo da companhia.
Na avaliação de Daronco, o desempenho operacional confirma não apenas ganho de escala, mas também qualidade na execução. ele destaca que o S11D atingiu produção recorde de 86 milhões de toneladas em 2025 e que o novo guidance para 2026 sugere continuidade do crescimento, com a produção de minério podendo alcançar 345 milhões de toneladas.
No ano de 2025 inteiro, a produção de minério da Vale foi de 336,075 milhões, alta de 2,6% sobre o registrado em 2024. Com esse número, a mineradora superou, pela primeira vez desde 2018, a produção da empresa Rio Tinto em Pilbara, na Austrália, que foi de 327,3 milhões de toneladas.
Apesar da produção acima do esperado, o principal ponto de atenção no relatório ficou por conta dos embarques de finos de minério de ferro, que totalizaram 73,6 Mt, abaixo tanto das estimativas da Genial (-3,5%) quanto do consenso de mercado. A relação vendas/produção ficou em 81%, indicando um gap maior do que o projetado e implicando manutenção de estoques mais elevados, estimados em cerca de 2,7 Mt. Para a Genial, esse descompasso reflete uma conversão de estoques mais fraca do que o antecipado, e não gargalos operacionais ou logísticos.
Publicidade
Na avaliação de Pletes, esse movimento não altera de forma relevante a leitura estrutural do trimestre. Ele destaca que a Vale já havia revisado o guidance (projeções da empresa) de pelotas anteriormente e que o desempenho ficou dentro do esperado. “As vendas de pelotas recuaram no trimestre, mas nada que tenha impactado o resultado, porque a companhia já tinha ajustado o guidance para baixo. O importante é que houve cumprimento do que foi projetado”, diz.
Em termos de estratégia comercial, Daronco observa que a Vale mostrou agilidade ao redirecionar o pellet feed para vendas de finos de minério de ferro, movimento que ajudou a otimizar margens diante de um ambiente menos favorável para pelotas. O preço realizado dos finos subiu para US$ 95,4 por tonelada no trimestre.
“Vemos os dados com otimismo. A Vale não apenas entregou volume, mas o fez com qualidade e disciplina”, afirma o analista da Suno Research.
Em termos de preços, o cenário foi mais construtivo. O preço realizado dos finos de minério de ferro ficou em US$ 95,4 por tonelada, praticamente em linha com as estimativas, acompanhando a valorização do benchmark (referência) 62% Fe, que teve média de US$ 106 por tonelada no trimestre. Ainda assim, os prêmios permaneceram pressionados, em território negativo, refletindo um ambiente de mercado mais desafiador para produtos de maior valor agregado, fator que reforçou a estratégia da Vale de priorizar um portfólio mid-grade e blends.
Pletes observa que a melhora dos preços já começa a se traduzir em margens mais robustas, o que sustenta uma leitura mais construtiva para os próximos ciclos. Segundo ele, “o preço médio ficou na casa dos US$ 95,4 por tonelada, com as pelotas a US$ 131,4”, o que, apesar de um ambiente de excesso de oferta, mostra que “está tudo funcionando de vento em popa para a Vale”.
Produção de cobre em destaque
A produção de cobre foi de 108,1 mil toneladas no quarto trimestre de 2025, avanço de 6,2% ante o mesmo período do ano anterior e alta de 19,1% na comparação trimestral. As vendas da commodity no período somaram 106,9 mil toneladas, crescimento de 8% na comparação anual e alta de 18,8% em relação ao trimestre anterior
Antes do relatório de produção e vendas, analistas já esperavam o avanço da produção de cobre. A Genial vê a commodity como o principal vetor positivo dentro da divisão de Metais Básicos da Vale (VBM), beneficiada por condições de oferta mais apertadas e preços elevados.
Publicidade
A Ágora compartilha dessa leitura. Em relatório, a casa afirma esperar que as operações de cobre apoiem os resultados da Vale no 4T25, compensando parcialmente um desempenho mais fraco no minério.
Para a Suno Research, o desempenho do cobre reforça a diversificação do portfólio e contribui para a resiliência da geração de caixa. Daronco destaca que o recorde histórico em Salobo levou a produção anual de cobre a 382 mil toneladas, alta de 9,8% em relação a 2024, enquanto o níquel também cresceu 10,8% no ano, somando 177 mil toneladas.
Dividendos seguem no radar para 2026
Gabriel Uarian, analista da Cultura Capital, destaca que a produção de minério de ferro acima das projeções dá conforto para a manutenção de dividendos robustos em 2026, com retorno atrativo se o minério ficar acima de US$ 100 por tonelada. “Não vejo risco de revisão para baixo nos proventos”, afirma. “Os preços do minério seguem como fator principal para determinar isso, mas os números operacionais reforçam resiliência”, acrescenta.
Pletes compartilha de uma leitura semelhante, embora com ressalvas de curto prazo. Para ele, a melhora de margens abre espaço para revisões positivas, mas o câmbio ainda merece atenção. “A prévia do quarto trimestre não muda a leitura sobre geração de caixa livre, mas minha maior preocupação é com o primeiro trimestre de 2026, caso o dólar mais fraco persista sem compensação nos preços do minério”, pondera.
Na leitura da Cultura Capital, o principal gatilho para a remuneração ao acionista, na visão da corretora, é o limite de US$ 15 bilhões em dívida líquida expandida. Se, na avaliação semestral, a companhia estiver abaixo desse patamar ou mostrando uma trajetória de redução, a devolução de fluxo de caixa livre aos acionistas passa a ser o cenário-base. A forma dessa devolução pode variar entre dividendos e recompras de ações.
Publicidade
A discussão sobre dividendos permanece central para os investidores. A Genial ressalta que os desembolsos obrigatórios de fluxo de caixa livre relacionados a Brumadinho, Samarco e à descaracterização de barragens atingem um pico em 2025, mas recuam de forma relevante a partir de 2026, devolvendo flexibilidade financeira à companhia.
O principal gatilho para a remuneração ao acionista, na visão da corretora, é o limite de US$ 15 bilhões em dívida líquida expandida. Se, na avaliação semestral, a companhia estiver abaixo desse patamar ou mostrando uma trajetória de redução, a devolução de fluxo de caixa livre aos acionistas passa a ser o cenário-base. A forma dessa devolução pode variar entre dividendos e recompras de ações.
O que fazer com a ação da Vale agora?
Uarian, da Cultura Capital, avalia que as recomendações devem seguir construtivas para a ação, com os números ligeiramente acima do consenso no relatório de produção e vendas.
A Ágora tem recomendação de compra para a ação, com preço-alvo de R$ 83 para 2026. O JPMorgan também recomenda compra para a ação, mas tem preço-alvo mais elevado, de R$ 100.
“A companhia vem entregando desempenhos positivos, especialmente no negócio de minério de ferro, com produção sólida e uma tendência de queda nos custos, o que sustenta sua perspectiva operacional. Adicionalmente, acreditamos que há um grande descolamento entre o desempenho das ações da Vale e o de seus pares”, destaca o JPMorgan.
Segundo Uarian, a ação deve ter um viés de alta moderado no pregão de quarta-feira (28), já que os números divulgados confirmaram execução operacional forte. “O dado sobre a produção de 90,4 milhões de toneladas de minério de ferro pode impulsionar o papel na abertura, mesmo antes do balanço completo”, afirma o analista.
No curto prazo, ele avalia que o desempenho do papel tende a depender mais do comportamento do minério de ferro no mercado internacional do que da prévia operacional em si, que já era esperada como sólida. Uarian ressalta que os dados de produção e vendas vão de neutros a positivos para uma eventual distribuição extraordinária de dividendos em 2026, que também depende do balanço completo da Vale e do cenário econômico da China.