O presidente dos EUA, Donald Trump, não se importa com o enfraquecimento do dólar hoje porque, para ele, câmbio é mais uma ferramenta de barganha do que um pilar de hegemonia.
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O presidente dos EUA, Donald Trump, não se importa com o enfraquecimento do dólar hoje porque, para ele, câmbio é mais uma ferramenta de barganha do que um pilar de hegemonia.
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O dólar, nessa lógica, não é um bem público global que exige cuidado quase sacerdotal, mas um preço que pode ser usado em favor da indústria americana, do emprego e de vitórias políticas rápidas. Isso ajuda a explicar por que ele fala com tanta naturalidade sobre um dólar mais fraco e por que não demonstra ansiedade quando a moeda escorrega. Ele rompe com décadas de um discurso oficial americano que, mesmo quando não era praticado, repetia o mantra do forte compromisso com um dólar forte.
Não é algo novo. Já em 2017, Trump dizia abertamente que o dólar estava forte demais e que isso prejudicava empresas americanas, algo que, na boca de um presidente dos EUA, tradicionalmente soava quase como um tabu em termos de comunicação econômica.
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A lógica é simples e intuitiva: dólar forte encarece exportações, tira competitividade da manufatura, alimenta o déficit comercial e favorece importações baratas. Para alguém com um instinto profundamente mercantilista, não há nada de sagrado em uma moeda forte se o preço político interno for alto. Um dólar mais fraco significa fábricas com mais pedidos, estatísticas de exportação mais vistosas, narrativas de reindustrialização que rendem aplausos. O custo de longo prazo – erosão de confiança na moeda de reserva do mundo – é abstrato demais para preocupar o eleitorado médio.
O que torna 2026 particularmente delicado é que essa preferência política coincide com uma conjuntura macro desfavorável para o dólar. A moeda dos EUA já vinha se enfraquecendo e atingiu os níveis mais baixos em anos em índices amplos, enquanto outras moedas ganhavam terreno.
Operadores descrevem a queda recente como uma derrocada persistente, com investidores pagando prêmios elevados para se proteger contra novas desvalorizações. Em vez de soar o alarme, Washington transmite indiferença. Quando Trump diz que não está preocupado com a queda e insiste que o dólar vai muito bem, ele sinaliza que não há, no centro do poder político, um instinto de defesa simbólico da moeda. Falta aquela frase clássica que diz que os Estados Unidos defenderão a força do dólar. Força que muitas vezes funcionou como um freio psicológico nos momentos de tensão.
Ao mesmo tempo, a credibilidade institucional que sustentou o dólar durante décadas está sob pressão. O quadro fiscal continua marcado por déficits elevados, pouca disposição política para consolidar as contas públicas e uma sensação de que disciplina fiscal virou tema secundário. Soma-se a isso a crescente politização da política monetária, dúvidas sobre o grau de independência do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), especulações sobre a nomeação de um comando mais dócil à Casa Branca e uma insistência quase permanente por juros mais baixos.
Para uma moeda de reserva, essa combinação é corrosiva. A atratividade do dólar sempre foi menos sobre força militar e mais sobre instituições previsíveis, estabilidade regulatória, bancos centrais tecnocráticos e uma dívida pública tratada, por muito tempo, como ativo sem risco por excelência.
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O mercado reage. Os juros futuros embutem apostas em cortes adicionais, o que reduz o diferencial de juros que historicamente ajudou a sustentar o dólar. Investidores começam a olhar não apenas para o nível dos juros, mas para a qualidade do arcabouço institucional por trás deles.
Um país que combina dívida alta, ruído político intenso e um presidente explicitamente confortável com um câmbio mais fraco passa a ser visto menos como porto seguro absoluto e mais como um emissor muito grande com problemas de disciplina. Em 2026, o risco não é um colapso repentino do dólar, mas a aceleração de um processo gradual de perda de aura. A moeda continua dominante, porém mais contestada, mais negociada, mais tática e menos óbvia.
É nesse ponto que aparece o movimento silencioso dos investidores em direção a alternativas. A palavra-chave não é substituição, mas diversificação defensiva. Grandes gestores vêm redesenhando portfólios para ficarem menos dependentes do humor com o dólar, aumentando a fatia de ouro, commodities, ativos reais, private credit (crédito privado), infraestrutura e estratégias macro globais capazes de explorar oscilações de moedas e ciclos de juros.
A linguagem dos relatórios mudou: fala-se em resiliência a mudanças de regime, em redução da dependência de um único pilar de reserva, em equilíbrio entre liquidez em dólar e reservas em ativos reais. Ninguém escreve abertamente que está preparando um mundo em que o dólar pesa menos, mas, na prática, é o que se desenha.
Além da mudança de classes de ativos, há uma reconfiguração cambial mais sutil. Fundos aumentam gradualmente a parcela de exposição não dolarizada, exploram moedas de países com balanços mais robustos e bancos centrais mais conservadores, alongam posições em moedas de economias exportadoras de commodities ou com superávit em conta corrente.
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Não é um movimento linear, haverá reversões e janelas de força do próprio dólar, mas o ponto é que, em 2026, o benefício da dúvida já não pertence automaticamente à moeda americana. Antes, qualquer choque global gerava uma corrida imediata para o dólar. Agora, parte desse fluxo se reparte entre ouro, francos suíços, alguns títulos europeus e ativos asiáticos, dependendo da natureza do risco.
Para Trump, tudo isso tem um lado politicamente conveniente. Ele pode colher os benefícios de curto prazo de um dólar mais fraco – exportações mais competitivas, turismo doméstico em alta, narrativas industriais mais favoráveis – sem pagar, no curto prazo, o preço político da perda de prestígio cambial.
O eleitor médio não acompanha spreads (sobretaxas) de crédito soberano, leilões do Tesouro ou relatórios de reservas de bancos centrais. A erosão da confiança no dólar aparece com atraso, sob a forma de juros mais altos na parte longa da curva, inflação mais resistente em importados, margens de manobra mais estreitas em crises. Tudo isso é difuso, técnico, difícil de traduzir em slogan. Uma desvalorização que melhora estatísticas de exportação, ao contrário, é mensurável, comunicável, politicamente vendável.
É justamente essa assimetria entre recompensa política imediata e custo estrutural diluído que torna 2026 um ano perigoso para o dólar. A presidência atual não se comporta como guardiã da moeda, mas como usuária tática dela. O mercado, percebendo isso, testa limites, vende dólar um pouco mais, exige prêmio um pouco maior para financiar o Tesouro, paga mais caro por proteção contra movimentos bruscos na moeda.
Separadamente, nenhum desses movimentos derruba uma hegemonia cambial; somados e persistentes, vão remodelando silenciosamente o mapa mental dos grandes agentes financeiros. A pergunta deixa de ser se é seguro ficar no dólar e passa a ser se ainda é prudente depender só dele.
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Talvez a síntese de 2026 seja menos dramática e, por isso mesmo, mais incômoda. Não é o ano em que o dólar acaba, mas pode ser o ano em que ele perde mais um pedaço do mito. Não porque os fundamentos econômicos americanos tenham desmoronado de uma vez, mas porque a política que sustenta a moeda se mostra disposta a tratá-la como instrumento descartável. Em um sistema em que confiança se constrói em décadas e se desgasta em ciclos de manchetes, essa indiferença tem preço.
E o investidor que enxergar o câmbio apenas como ruído tático de curto prazo corre o risco de descobrir, lá na frente, que 2026 foi menos um susto e mais um ponto de inflexão silencioso no status psicológico do dólar.
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