C6 Bank projeta dólar em 2026 a R$ 5,50: ‘Movimento intenso e persistente’
Banco vê enfraquecimento estrutural da moeda americana com juros menores nos EUA, apesar dos desafios fiscais e da desaceleração da economia brasileira
C6 Bank revisou suas projeções para o dólar em 2026 diante de um cenário externo mais favorável às moedas emergentes. (Foto: Adobe Stock)
Em um ambiente marcado por tensões geopolíticas, ajustes na política monetária global e desaceleração gradual da atividade doméstica, o C6 Bank projeta o dólar em 2026 estruturalmente mais fraco, ainda que com ruídos relevantes no curto prazo. A leitura combina um cenário externo mais incerto – especialmente nos Estados Unidos – com desafios fiscais internos que seguem no radar, mas que, por ora, têm sido compensados por uma dinâmica favorável para moedas emergentes.
Neste início de 2026, os Estados Unidos voltaram ao centro das atenções após a intensificação de tensões geopolíticas e comerciais. A postura mais assertiva da Casa Branca, incluindo declarações sobre a possibilidade de anexação da Groenlândia, provocou desconforto nas relações com a Europa e elevou a percepção de risco global. Esse ambiente de maior incerteza levou a uma nova rodada de desvalorização do dólar, movimento que beneficiou moedas de países emergentes, como o real.
A projeção para o dólar foi ajustada de R$ 5,80 para R$ 5,50 em 2026 e de R$ 6 para R$ 5,80 em 2027. “Em janeiro, o dólar seguiu em trajetória de desvalorização, assim como aconteceu ao longo do ano passado. A dinâmica, associada às incertezas no cenário externo, beneficiou o real e outras moedas latino-americanas. Esse movimento tem se mostrado mais intenso e persistente”, explica Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank.
No campo da política monetária americana, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) manteve a taxa de juros no intervalo entre 3,5% e 3,75%, em decisão não unânime. O presidente da autoridade monetária americana, Jerome Powell, reforçou que as tacas estão próximas do nível neutro, sinalizando menor urgência para ajustes adicionais. Para o C6 Bank, esse discurso reforça a expectativa de que os juros nos EUA voltem a cair até o fim de 2026, reduzindo o diferencial de juros global e, consequentemente, a atratividade do dólar.
A indicação de Kevin Warsh para comandar o Fed a partir de maio também entrou no radar dos mercados financeiros. Embora ainda haja incertezas sobre a condução futura da política monetária americana, o banco avalia que o cenário base segue apontando para uma política menos restritiva ao longo de 2027, o que tende a manter pressão baixista sobre a moeda americana.
Na Europa, o pano de fundo é mais benigno. A economia da zona do euro cresceu 1,5% em 2025, acima das expectativas, impulsionada pelo setor de serviços. Com desemprego baixo e inflação próxima da meta, o Banco Central Europeu (BCE) manteve os juros em pausa e deve seguir nesse compasso ao longo dos próximos meses. Esse cenário contribui para reduzir a assimetria de crescimento e juros em relação aos EUA, reforçando o viés de dólar mais fraco no cenário global.
Já a Chinasegue crescendo, mas com composição menos favorável. O Produto Interno Bruto (PIB) avançou 5% em 2025, em linha com a meta oficial, sustentado pelas exportações, apesar do aumento das tarifas americanas. Por outro lado, consumo doméstico, investimentos e o setor imobiliário continuam fracos. Para 2026, o C6 Bank projeta um crescimento um pouco menor, o que limita uma recuperação mais robusta da demanda global por commodities, mas sem gerar choques relevantes no câmbio.
A influência do contexto externo para o Brasil
A economia brasileira deve encerrar 2025 com crescimento de 2,2%, segundo as estimativas da casa, mas a expectativa é de perda gradual de fôlego. Apesar da sinalização do Banco Central para o início do ciclo de flexibilização monetária, os juros ainda elevados impactam a atividade econômica do País. Para 2026, o C6 Bank projeta crescimento do PIB de 1,7%, ritmo próximo ao potencial estimado.
“Se, por um lado, a Selic elevada restringe o crescimento, por outro, medidas de estímulo, como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, devem evitar uma desaceleração mais intensa”.
O mercado de trabalho aquecido, com projeção de taxa de desemprego próxima de 5,5% ao final de 2026, sustenta a renda, mas também coloca pressão sobre os preços de serviços.
No lado fiscal, o quadro se mostra desafiador. O setor público consolidado encerrou 2025 com déficit primário de 0,4% do PIB e a projeção é de resultado negativo de 0,5% do PIB tanto em 2026 quanto em 2027. A dívida líquida, que atingiu 65,3% do PIB em 2025, deve continuar em trajetória de alta, alcançando 68,9% em 2026 e 71,4% em 2027.
Fatores domésticos pressionam o real
Esses fatores domésticos tendem a pressionar o real ao longo do tempo. Ainda assim, o comportamento recente do câmbiotem surpreendido. Tal melhora tem efeitos diretos sobre a inflação. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerrou 2025 em 4,3%, dentro do intervalo de tolerância da meta.
Segundo o C6 Bank, a queda recente da inflaçãoestá diretamente associada à valorização do real. Com a perspectiva de um câmbio menos depreciado, o banco revisou sua projeção de IPCA para 4,5% em 2026 e 2027, ante estimativa anterior de 4,8%.
No front monetário, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu pela Selic em 15% em janeiro, mas sinalizou que pode iniciar o ciclo de cortes já na próxima reunião, caso o cenário prospectivo se confirme. Para o C6 Bank, o início da flexibilização deve ocorrer em março, com a Selic encerrando 2026 em 12,5%, patamar inferior à projeção anterior de 13%.
O banco enxerga um crescimento mais moderado no Brasil, desafios fiscais persistentes, mas um ambiente externo que favorece um dólar em 2026 mais fraco. Esse equilíbrio delicado deve seguir ditando o comportamento dos ativos ao longo do ano, com o câmbio funcionando como um dos principais canais de transmissão entre o cenário global e a economia doméstica.