Apesar de tudo, na avaliação da XP Investimentos, o resultado veio acima das expectativas e reforça a leitura de que o Bradesco avança em um processo de recuperação estrutural. Devido ao lucro, o retorno sobre o patrimônio médio (ROAE) alcançou 15,2%, nível que supera o custo de capital do banco e sinaliza, na prática, que a instituição voltou a gerar valor econômico de forma sustentável.
Segundo a XP, o 4T25 mostrou “evolução operacional consistente, com melhora disseminada nas principais linhas do resultado e redução gradual dos riscos“, o que diminui a assimetria negativa para o investidor. O principal vetor dessa melhora foi a margem financeira, que totalizou R$ 19,2 bilhões no trimestre, com crescimento de 2,9% frente ao 3T25 e de 13,2% na comparação anual.
Dentro desse indicador, a margem com clientes, considerada a mais relevante para avaliar a rentabilidade do crédito, atingiu R$ 19,1 bilhões, avançando 18,4% em relação ao 4T24. Esse desempenho reflete uma combinação de fatores que a XP destaca como positiva: expansão da carteira de crédito, melhora no mix de produtos e maior eficiência na gestão dos passivos, o que permitiu ao banco preservar spreads mesmo em um ambiente competitivo.
Em termos práticos, significa que o Bradesco conseguiu emprestar mais, cobrando melhor pelo risco assumido.
A carteira de crédito expandida encerrou o trimestre em R$ 1,09 trilhão, com crescimento tanto em pessoas físicas quanto em empresas. O segmento de pessoa física somou R$ 466,5 bilhões, enquanto linhas como crédito consignado, financiamento de veículos e capital de giro continuaram puxando a expansão, leitura que também é destacada pelo BTG Pactual como um dos pontos positivos do trimestre.
Os pontos fracos do Bradesco
A provisão para devedores duvidosos (PDD) somou R$ 10,1 bilhões, segundo a leitura do BTG, valor 10% acima das estimativas da casa, com alta de 23% na comparação anual e 7% frente ao trimestre anterior. Para o banco, o crescimento reflete principalmente o maior volume médio da carteira, e não uma deterioração abrupta da qualidade dos ativos.
De fato, o índice de inadimplência acima de 90 dias permaneceu estável em 4,1%, com comportamentos distintos entre os segmentos: leve alta em pequenas e médias empresas, compensada por melhora no crédito corporativo, enquanto a carteira de pessoas físicas ficou praticamente estável. Além disso, a carteira reestruturada seguiu em trajetória de queda, recuando 23,5% em 12 meses, para R$ 26,6 bilhões
Na avaliação da XP Investimentos, o comportamento da PDD sugere que o Bradesco segue “antecipando riscos e protegendo o balanço”, o que reduz a probabilidade de surpresas negativas à frente.
Um pilar que sustentou o resultado: prestação de serviços
Outro pilar relevante do resultado foi o crescimento das receitas de prestação de serviços, que atingiram R$ 11,1 bilhões, alta de 8% em 12 meses, impulsionadas por cartões, consórcios, mercado de capitais e serviços de custódia. Segundo o BTG, o número veio ligeiramente acima das expectativas, ajudado também pelo aumento da participação do Bradesco na Cielo.
O grupo segurador continuou como um diferencial competitivo do Bradesco. No trimestre, o segmento registrou lucro líquido recorrente de R$ 2,8 bilhões, com ROAE de 24,3%, reforçando a diversificação das fontes de resultado do conglomerado. Para a XP, a performance de seguros ajuda a “suavizar a volatilidade do resultado bancário tradicional”.
O BTG, no entanto, chama atenção para uma piora operacional sequencial, com aumento do índice de sinistralidade, especialmente nos ramos de saúde e automóveis, ponto que limita uma leitura mais entusiasmada sobre o segmento no curto prazo.
As despesas operacionais totalizaram cerca de R$ 17 bilhões, crescimento moderado, mas abaixo do esperado pelo BTG, refletindo principalmente a redução de despesas com pessoal e o fechamento de aproximadamente 150 pontos de atendimento no trimestre, dentro da estratégia de otimização de custos. Por outro lado, houve pressão em linhas como tecnologia, marketing e consultorias.
No capital, o CET1 (Custo Efetivo Total do financiamento imobiliário) encerrou o período em 11,2%, leve queda trimestral, influenciada pelo crescimento dos ativos ponderados pelo risco, mas ainda em nível considerado confortável.
O Bradesco também divulgou seu guidance para 2026, que foi recebido com alguma frustração pelo mercado. A projeção aponta para crescimento da carteira de crédito entre 8,5% e 10,5%, expansão da margem financeira ajustada ao risco, crescimento de receitas de serviços entre 3% e 5%, despesas operacionais subindo de 6% a 8% e lucro líquido em torno de R$ 27,5 bilhões, segundo o ponto médio das estimativas do BTG (número cerca de 5% abaixo do consenso de mercado).
Para o BTG, embora o banco esteja “entregando exatamente o que prometeu” em termos de recuperação gradual, o problema é que a ação já subiu cerca de 70% nos últimos 12 meses, o que faz com que o valuation (valor do ativo) tenha corrido à frente dos fundamentos. Nesse contexto, a casa mantém recomendação neutra para BBDC4, com preço-alvo de R$ 21, avaliando que há menos espaço para reprecificação no curto prazo.
O que esperar do Bradesco em 2026
Na visão consolidada da XP, o balanço reforça a tese de que o Bradesco entra em 2026 em uma posição mais confortável: rentabilidade em recuperação, crédito crescendo com maior qualidade, inadimplência sob controle e capital robusto.
Embora o banco ainda opere abaixo dos níveis históricos de Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) observados antes do ciclo de deterioração, a trajetória apresentada no 4T25 reduz incertezas e melhora o perfil de risco-retorno da ação.
Para o investidor, a mensagem central do resultado é que o Bradesco deixou de ser apenas uma aposta em “turnaround“ (processo de recuperação do valor do ativo) distante e passou a apresentar evidências concretas de evolução, com números que sustentam uma leitura mais construtiva, ainda que gradual, para os próximos trimestres.
E o investidor?
Na leitura de André Matos, CEO da MA7 Negócios, o balanço do Bradesco no quarto trimestre marca uma virada mais consistente, ancorada na recuperação da rentabilidade e em um crescimento ainda seletivo do crédito.
Para ele, “o case melhora porque a rentabilidade está voltando, mas a ação tende a ser precificada na continuidade, não no número de um trimestre”, o que torna fundamental acompanhar a trajetória do ROE, a disciplina de despesas e a qualidade do crédito, além do guidance (projeções) de crescimento da carteira entre 8,5% e 10,5% em 2026.
Já Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, avalia que o resultado confirma uma trajetória consistente de recuperação, com melhora gradual da rentabilidade e qualidade dos ativos sob controle, mesmo em um ambiente ainda desafiador de juros elevados.
Na sua visão, o balanço não trouxe grandes surpresas, mas foi positivo do ponto de vista de previsibilidade e disciplina, especialmente pela condução mais seletiva do crédito, controle da inadimplência e avanço do ROE.
Para o investidor, Lima classifica o papel como uma alternativa mais defensiva dentro do setor bancário, com potencial de valorização gradual ao longo de 2026, desde que a melhora operacional mostrada pelo Bradesco (BBDC4) no balanço do 4T25 continue e o cenário macroeconômico se torne menos restritivo. “Não é uma tese de euforia, mas de construção consistente de valor”, resume.
Na mesma linha, Artur Horta, head de análise da The Link Investimentos, observa que o Bradesco segue avançando tanto na comparação trimestral quanto anual, dando continuidade a um processo de reestruturação iniciado há cerca de dois anos, com foco na adequação das carteiras a um ambiente de juros estruturalmente mais altos.
Segundo ele, o ponto central do balanço é que, pela primeira vez nesse ciclo, o banco conseguiu levar o retorno sobre o patrimônio acima do custo de capital, um marco relevante para a tese de investimento. Horta pondera que essa recuperação tende a ser gradual, em um ritmo ainda moderado, mas pode ganhar tração à medida que a taxa Selic comece a cair.
No curto prazo, porém, o analista alerta para um possível movimento negativo das ações, não por fragilidade do balanço, mas pelo efeito de comparação dentro do setor bancário. Ele lembra que o mercado tende a privilegiar bancos que apresentam métricas melhores na comparação relativa, citando que o BBDC4 ainda mostrou inadimplência praticamente estável, enquanto concorrentes como o Itaú exibiram queda, além de um custo de crédito quase 20% maior na comparação anual.
Ainda assim, Horta avalia que esse eventual ajuste não muda a tese estrutural. Com a queda dos juros ao longo do ano, a rentabilidade tende a melhorar, a inadimplência pode ceder e o Bradesco ganha espaço para retomar o pagamento de dividendos de forma mais consistente, agora que voltou a operar acima do custo de capital.