A obsessão de Trump com a dependência dos Estados Unidos em relação à China não é nova, mas mudou de patamar quando os minerais críticos entraram no centro da equação de segurança nacional. A Casa Branca hoje vê as cadeias de minerais críticos não como um tema de comércio, mas como um flanco vulnerável em defesa, indústria e transição energética. Para explorar isso, a diplomacia brasileira precisa tratar minerais críticos como agenda de segurança compartilhada, não apenas como pauta econômica, inserindo o tema na mesma mesa em que se discute Defesa, indústria e tecnologia.
Ao longo de 2025, a combinação de tarifas agressivas contra Pequim e respostas calibradas da China deixou claro que o elo mais sensível para Washington não eram os contêineres de bens de consumo, mas sim a capacidade chinesa de restringir o fluxo de terras raras, grafita, lítio e insumos processados de alto valor. Em outubro, Trump aceitou aliviar parte das tarifas contra a China em troca de um adiamento de restrições mais rígidas às exportações de terras raras, sinal claro de que ele sabe que está exposto nesse tabuleiro. Diante disso, o Itamaraty e o Ministério da Fazenda deveriam entrar nas negociações com a premissa de que o Brasil só oferecerá previsibilidade de suprimento se houver, em paralelo, previsibilidade tarifária e regulatória para os produtos brasileiros nos EUA.
Reservas relevantes de minerais críticos e peso na mesa de negociações
A resposta estrutural de Trump foi anunciar um projeto de reserva estratégica de minerais críticos de 12 bilhões de dólares, com o objetivo explícito de reduzir a dependência em relação a fornecedores associados à China. A lógica é simples: sem reconstituir, com parceiros confiáveis, sua base de mineração, refino e estocagem, os Estados Unidos continuarão vulneráveis a choques geopolíticos. Isso significa que o governo Lula deve preparar uma carteira de projetos brasileiros de mineração, refino e processamento de minerais críticos que possa ser apresentada como candidata natural a esse fluxo de recursos, com governança definida, exigências de conteúdo local e compromissos de longo prazo.
Nesse contexto, qualquer país com reservas relevantes, ambiente regulatório minimamente estável e disposição para acordos de longo prazo com Washington ganha peso instantâneo na mesa. O Brasil é hoje o segundo país do mundo em reservas de terras raras, além de deter posição de destaque em lítio, grafita, manganês e, sobretudo, nióbio. Essas reservas estão concentradas em estados como Goiás, Minas Gerais, Bahia e Amazonas e são citadas em audiências públicas e estudos de governo como ativo estratégico para a transição energética. O passo prático aqui é óbvio: Brasília precisa consolidar e divulgar, em linguagem clara, um mapa oficial de oportunidades em minerais críticos, integrando dados geológicos, status regulatório e necessidades de infraestrutura, para que Trump enxergue o Brasil como solução pronta, não como promessa distante.
País tem potencial geológico enorme, mas participação tímida no comércio internacional
Relatórios recentes mostram que o país tem potencial geológico enorme, mas participação tímida no comércio internacional, justamente porque a maior parte das exportações ainda é feita em estado bruto, sem refino e sem captura relevante de valor agregado. A imprensa brasileira começou a conectar essa realidade ao interesse crescente de Washington, e o mercado já percebe isso. Diante desse quadro, a recomendação ao governo é simples e difícil ao mesmo tempo: não vender apenas volume de minério, e sim vender participação em uma cadeia industrial localizada no Brasil. Isso implica condicionar qualquer acordo com os EUA à instalação de unidades de processamento, fábricas de componentes ou laboratórios de P&D em território brasileiro, com metas claras de transferência tecnológica.
Nos últimos meses, ações de empresas ligadas a terras raras e minerais críticos no Brasil passaram a reagir a anúncios do governo Trump, como se fossem um termômetro do apetite americano por diversificação de fornecedores. Esse movimento de mercado oferece uma janela política preciosa. O governo deve usar essa dinâmica a seu favor, articulando BNDES, fundos de pensão e investidores estrangeiros para estruturar projetos “âncora” que possam ser apresentados a Trump como casos concretos de parceria Brasil–EUA, vinculados a empregos qualificados, pesquisa aplicada e infraestrutura logística.
Ao mesmo tempo, Lula acaba de assinar um acordo com a Índia para cooperação em terras raras e minerais críticos, deixando claro que o Brasil não aceitará repetir o modelo do minério de ferro, baseado em exportar material barato e importar tecnologia cara. Essa opção por diversificar parceiros aumenta o valor de barganha brasileiro perante Trump. O recado prático é que o governo deve comunicar aos EUA, de forma franca, que o Brasil está construindo uma arquitetura plural de parcerias em minerais críticos, e que Washington só terá lugar privilegiado se traduzir discurso em investimento, financiamento e redução de barreiras comerciais.
Trump busca negócios que possa vendar à base política como vitórias claras
Trump trabalha com uma lógica de transação permanente, em que cada parceiro é avaliado pela capacidade de entregar ganhos concretos e rápidos, utilidade na narrativa doméstica e lealdade relativa frente a adversários estratégicos. Ele não busca alianças abstratas, busca negócios que possa vender à base política como vitórias claras, com números grandes, empregos visíveis e algum componente simbólico de America First. Por isso, a equipe de Lula precisa formatar propostas que possam ser transformadas por Trump em slogans e “vitórias” domésticas, como anúncio conjunto de uma planta de processamento de minerais críticos no Brasil com contratos de fornecimento para fábricas nos EUA e empregos mensuráveis em ambos os países.
No tema de minerais críticos, Trump precisa de três coisas: volumes garantidos de longo prazo, parceiros dispostos a entrar em cadeias de suprimento consideradas amigáveis e narrativas de vitória contra a dependência da China. Ele já começou a montar esse enredo com a criação da reserva estratégica de minerais críticos, vendida como seguro contra chantagem externa. Cabe ao Brasil oferecer a ele exatamente isso, mas em troca de contrapartidas que interessem a Brasília: redução gradual de tarifas sobre exportações brasileiras, apoio americano a projetos de infraestrutura ligados à mineração e reconhecimento do papel do país como pilar de segurança de suprimento.
A União Europeia, em paralelo, propõe um roteiro estratégico conjunto com os EUA para reduzir o domínio chinês em minerais críticos, inclusive com estoques coordenados. Isso transforma a agenda em uma corrida entre blocos. Para o Brasil, a resposta óbvia é criar uma doutrina própria de política externa para minerais críticos, que reconheça explicitamente a importância de manter múltiplos canais abertos com EUA, Europa, China e Índia, mas que atribua níveis diferentes de prioridade e concessões conforme a qualidade das contrapartidas em investimento, tecnologia e acesso a mercado.
Brasil: pacote de parceria industrial, tecnológica e financeira
A primeira escolha estratégica de Lula, portanto, é se comportar como exportador de commodities ou como arquiteto de ecossistemas. Se o Brasil entrar na conversa com Trump apenas oferecendo mais volume de minério bruto, será tratado como fornecedor substituível, pressionado por preço e sujeito a tarifas contingentes sempre que for conveniente à política interna americana. Se, ao contrário, entrar oferecendo um pacote de parceria industrial, tecnológica e financeira, vinculado à segurança de suprimento de longo prazo, passa a ser visto como parceiro indispensável. Isso exige, internamente, coordenação firme entre Casa Civil, MME, Fazenda, Itamaraty e MDIC, com um comando político claro que evite mensagens contraditórias a investidores e a Washington.
A segunda escolha é posicionar os minerais críticos como parte da solução para a crise tarifária atual, não como agenda paralela. Em vez de centrar a discussão apenas em desonerações pontuais para exportadores brasileiros afetados pelo tarifaço, o Brasil pode propor um entendimento estruturante em que concessões recíprocas em tarifas estejam condicionadas à participação americana em projetos de mineração, refino e processamento no país. Para isso, seria útil definir, antes mesmo da próxima ida de Lula a Washington, uma lista de projetos prioritários com cronograma, estimativa de CAPEX, enquadramento ambiental e modelo de governança que possam ser negociados como contrapartida tangível.
A terceira escolha é usar a crescente preocupação global com soberania de cadeias de suprimentos para justificar, perante a opinião pública brasileira, um alinhamento seletivo com Washington sem que isso seja lido como renúncia à autonomia. A própria narrativa que Lula começou a construir ao defender que o Brasil não repetirá o modelo de exportação primária de minério de ferro é o ponto de partida ideal. O governo precisa traduzir esse discurso em ações concretas, como critérios de conteúdo local, exigência de laboratórios e centros de engenharia associados a novos projetos e comunicação transparente sobre como os acordos com os EUA evitam a captura de ativos estratégicos por qualquer potência, seja ela Washington, Pequim ou Bruxelas.
Programa de minerais críticos com metas até 2040 para falar com mercados e governos
Para transformar potencial geológico em poder de barganha geopolítica, o governo precisa organizar a casa em camadas institucional, regulatória, diplomática e narrativa. Na frente institucional, é necessário ter um programa Brasil de minerais críticos com metas até 2040, estruturas de governança conhecidas pelos investidores e porta-vozes políticos que possam falar com clareza a mercados e governos. Na camada regulatória, o desafio é acelerar licenças com segurança jurídica, evitando que projetos fiquem parados por anos, mas sem abrir mão de exigências socioambientais que hoje podem, ao contrário do passado, ser vendidas como diferencial competitivo perante os EUA e Europa.
Na frente diplomática, o Brasil deve incorporar o tema minerais críticos em todos os diálogos de alto nível com Washington, deixando claro que não haverá retorno pleno à normalidade tarifária se os EUA não reconhecerem o país como parceiro estrutural nessa agenda. E, na camada narrativa, o governo precisa falar diretamente com a sociedade brasileira sobre o que está em jogo, mostrando que a aproximação com Trump em minerais críticos não é submissão, mas estratégia de usar o interesse americano para financiar a industrialização e a tecnologia de que o país precisa.
Se Lula conseguir alinhar esses elementos, a conversa com Trump deixa de ser uma negociação defensiva sobre tarifas e passa a ser uma proposta ofensiva de reorganização conjunta das cadeias de minerais críticos em benefício dos dois países. O Brasil deixa de ser visto como alvo ocasional de tarifaços e passa a ser percebido como pilar de segurança de suprimento em um dos poucos setores em que Washington admite fragilidade diante da China. É exatamente nesse ponto que a geologia brasileira e a lógica transacional de Trump se cruzam, e é ali que uma jogada bem executada pode render ao governo Lula um ganho estratégico raro: usar a agenda mineral para ancorar, e não abalar, a relação com o atual presidente dos Estados Unidos.