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Direto da Faria Lima

No País da renda fixa, indústria de ETFs aposta na estratégia para continuar a crescer

ETFs de renda fixa têm série de vantagens tributárias em relação a títulos e fundos da classe; gestoras acreditam que é por causa dos benefícios que o segmento vai se popularizar

Por Luíza Lanza

09/03/2026 | 5:30 Atualização: 06/03/2026 | 17:59

Sem IOF, come-cotas e com alíquotas de IR em 15%, ETFs tornam a alocação em renda fixa mais eficiente. (Arte: Victoria Fuoco/Imagens: Adobe Stock)
Sem IOF, come-cotas e com alíquotas de IR em 15%, ETFs tornam a alocação em renda fixa mais eficiente. (Arte: Victoria Fuoco/Imagens: Adobe Stock)

A indústria de Exchange Traded Funds (ETFs) tem mais de duas décadas no Brasil, mas, apesar da fama de “País da renda fixa” no mercado local, cresceu inicialmente apoiada em estratégias de renda variável. Agora, depois do boom vivido em 2025 com aumento de produtos, investidores e patrimônio líquido, as gestoras começam a fechar esse gap.

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Boa parte dos últimos lançamentos do mercado são ETFs de renda fixa. Segundo as gestoras, pouco disso tem a ver com o momento de juros de dois dígitos e um retorno acima de 1% ao mês em estratégias conservadoras.

Trata-se de um movimento maior de consolidação, que busca atrair – e educar – o investidor que já é muito acostumado com os títulos de renda fixa a fazer essa alocação por meio dos ETFs. A bandeira principal não são os juros ou o retorno dos ativos, mas os benefícios que o produto oferece.

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“As gestoras estão vendo uma oportunidade de trazer aquilo que o brasileiro já está muito acostumado, já que boa parte investe entre 70% e 80% do patrimônio em renda fixa, para os ETFs. É um movimento recente, porque antes isso não era visto como possível”, diz Cauê Mançanares, CEO da Investo.

Essa classe de ETFs tem liquidez diária, por serem negociados em Bolsa, e contam com cotas iniciais baixas, permitindo o acesso até de investidores com pouco patrimônio. Os ativos não têm cobrança de IOF, mesmo em operações de curtíssimo prazo, como acontece para resgates antes de 30 dias em outros títulos de renda fixa.

Diferentemente dos fundos DI, não têm cobrança de come-cotas. E, ao contrário dos CDBs em que o imposto varia entre 22,5% e 15%, costumam ter uma alíquota fixa de Imposto de Renda (IR) de 15%.

O IR dos ETFs de renda fixa é calculado pelo prazo médio de repactuação (PMR) da carteira do ativo. A alíquota vai de 25%, para PMRs inferiores a 180 dias, até 15%, para PMRs superiores a 720 dias. A grande maioria das casas mantém os prazos acima desse limite, assim, a alíquota para o investidor fica em 15% ao ano independentemente do tempo que ele manter os recursos investidos.

“Os ETFs de renda fixa são a galinha dos ovos de ouro hoje, porque fazem sentido para a grande maioria dos portfólios brasileiros”, diz Mançanares.

Essa combinação de vantagens começa a ganhar mais espaço no debate, o que ajuda os produtos a ganharem tração para além dos investidores pessoa física, público pelo qual a indústria se popularizou primeiro. Andrés Kikuchi, diretor de investimentos da Nu Asset, destaca que assessores de investimento têm se mostrado cada vez mais interessados na alocação de renda fixa via ETFs.

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É um desafio que as grandes gestoras têm encabeçado junto, espalhando a informação com viés de educação financeira. E que começa a dar resultado.

“Os assessores capturaram muito mais rápido essa nuance dos ETF de renda fixa, principalmente a questão tributária. Os efeitos positivos estão se tornando mais tangíveis para o investidor”, afirma o diretor da Nu.

Deixar esses benefícios claros ao mercado pode ajudar a atrair ainda um outro público, que não utiliza muito os ETFs na alocação de renda variável porque tem acesso a estruturas mais sofisticadas, mas pode querer as vantagens na renda fixa. São os investidores institucionais, um nicho menor, mas de tíquete elevado que poderia fazer a indústria captar muito mais.

Kikuchi destaca que foi assim que a indústria global de ETFs ganhou tração, mas, no Brasil, esse perfil ainda está longe de ser relevante como pode ser. “O institucional é um grande alocador de renda fixa. A padronização do ETF, com a liquidez, transparência e oferta de soluções ganha cada vez mais valor também para esse grupo”, diz.

Por dentro dos novos lançamentos

Enquanto a indústria tenta fechar o gap de produtos que existem entre a renda fixa e a variável, as gestoras fazem a mesma coisa internamente. Os últimos lançamentos de ETFs feitos pela Itaú Asset, a Nu Asset e a Investo seguem o mesmo racional: completar a prateleira de produtos, oferecendo aos clientes novas estratégias que possam complementar o asset allocation oferecido dentro de casa.

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A Itaú Asset lançou no mês passado quatro novos ativos de renda fixa. Um é prefixado, o 5PRE11; enquanto os outros três seguem o Tesouro IPCA+ com diferentes prazos de vencimento – são os TD3511, TD5011 e TD6011. Em dezembro, a gestora já tinha lançado um produto de Tesouro Selic, o LFTI11.

As novidades completam as opções que a gestora já tinha disponível. No segmento de juro real, por exemplo, a Itaú tem ETFs que seguem os tradicionais índices de referência, como o IMA-B. Agora, estreia estratégias com prazos fixos para atingir investidores que querem estratégias específicas.

O objetivo não é que os ativos sejam “concorrentes” das outras estratégias que já estão na prateleira, mas sim um complemento na hora de montar o portfólio. “Dá para combinar, por exemplo, um ETF de IMA-B 5, que é uma exposição curta de IPCA+ e protege o dinheiro da inflação com uma volatilidade mais baixa, com uma alocação no TD6011 para capturar a queda de juros de forma mais tática”, explica Renato Eid, superintendente de estratégias indexadas e investimento responsável da gestora.

Na Investo, o racional é parecido. A gestora não está deixando de lado as estratégias de renda variável, que ainda são a maior parte de seu portfólio, mas sim complementando as soluções de investimento que pode oferecer aos clientes.

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Também em fevereiro, a casa listou na B3 em parceria com a V8 Capital um novo ETF de letras financeiras (LF), o LFIX11. No pipeline, ainda tem produtos ligados a títulos públicos e a crédito privado.

O LFIX11 é o terceiro ETF ligado a letras financeiras que estreou na B3 nos últimos meses. O BTG Pactual lançou um ativo da estratégia em setembro de 2025, o LFNI11, enquanto a Nu Asset listou o NFLA11 em dezembro.

Os ETFs têm certa diferenciação, entre benchmarks, valor das cotas e das taxas de administração. Mas o objetivo é bem semelhante: oferecer ao varejo uma alocação simples e eficiente a um tipo de título de renda fixa que costumava ficar restrito aos institucionais.

As letras financeiras são produtos parecidos com um CDB, usados por bancos para se financiar. Os juros costumam ser maiores, mas não há liquidez diária. E o aporte mínimo na grande maioria dos casos é bem alto, na casa das dezenas de milhares de reais.

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Os ETFs quebram essas barreiras. O LFIX11 da Investo saiu com a cota inicial a R$ 20, justamente para “democratizar” o acesso às letras financeiras, com foco nos títulos emitidos pelos bancos do segmento S1 do Banco Central – ou seja, os “bancões”.

“É dar acesso a um título antes acessível somente ao investidor institucional. Vínhamos trabalhando nesse produto há um bom tempo, o grande gargalo foi conseguir um índice de referência com uma precificação transparente“, conta Cauê Mançanares, da Investo.

O NLFA11 da Nu Asset dá acesso a todos os quatro segmentos bancários, com exposição majoritária às LFs do S1, mas uma “pimenta” a mais dos S2, S3 e S4 para superar o CDI.

“Estamos trazendo para dentro de um único ETF estratégias que são utilizadas pelos grandes gestores para fazer a alocação, que é uma renda fixa de alta qualidade e baixa volatilidade, para o varejo. Serve para o que chamamos de cash management enhanced“, diz Andrés Kikuchi, da Nu.

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Para 2026, a gestora diz que vai continuar a olhar para a renda fixa, também atenta a estratégias globais para completar as opções de alocação que já oferece.

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