Os FIDCs são fundos que realizam aplicações em títulos de crédito criados a partir de contas a receber de uma empresa. Na prática, funcionam como uma alternativa para clientes que enfrentam restrições no acesso ao crédito tradicional e, ao mesmo tempo, como uma frente de crescimento para a gestora.
A Multiplica avalia que o agro seguirá pressionado em 2026, com melhora gradual só a partir dos próximos anos. “Temos acompanhado os altos índices de recuperação judicial (RJ), de inadimplência e a situação do próprio Banco do Brasil (BBAS3), um pilar central para o agronegócio, que vem batendo de frente com essa indústria de RJ”, afirma Eduardo Barbosa, sócio-fundador da Multiplica.
Dados da Serasa Experian, divulgados em março, revelam que em 2025 o agronegócio brasileiro registrou 1.990 solicitações de recuperação judicial, o maior volume desde o início da série histórica da pesquisa, em 2021.
Do lado da atividade, as projeções também indicam desaceleração. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima que o Valor Bruto da Produção (VBP) da agropecuária alcance R$ 1,39 trilhão em 2026, uma queda de 4,8% em relação ao registrado em 2025.
Outro desafio surgiu em março, com a escalada das tensões no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde escoam exportações de fertilizantes essenciais ao agronegócio – entenda aqui.
E-Investidor – Como a guerra no Irã tem impactado o agronegócio brasileiro?
Eduardo Barbosa – A guerra aumenta a volatilidade nos custos globais de energia, frete e insumos. Isso pressiona a cadeia como um todo e exige mais disciplina financeira dos produtores. Por outro lado, esse tipo de cenário reforça o papel do Brasil como um dos principais fornecedores globais de alimentos. Em momentos de instabilidade, a demanda por produtos agrícolas tende a se manter forte e, em alguns casos, até se intensificar, o que pode beneficiar as commodities.
Na Multiplica, a resposta tem sido dar prioridade a operações com garantias sólidas e diversificação de risco. Em ambientes voláteis, o crédito estruturado ganha mais relevância, porque permite levar liquidez ao setor, mas sem abrir mão de proteção e retorno ajustado ao risco.
Como você avalia o cenário para o agro em 2026?
Hoje, em termos de preços, há uma produção maior do que o consumo no agronegócio, o que naturalmente faz com que os preços das commodities recuem. O preço cair num cenário de juros altos no Brasil é uma equação horrível. Em 2026, devemos ver preços ainda mais baixos com custo de safras e custos de produção elevados.
Enxergamos 2026 ainda como um ano muito ruim para o crédito no universo do agronegócio. Apenas nos próximos anos será possível vislumbrar uma luz no fim do túnel, especialmente em relação ao reequilíbrio entre custos de produção e preços.
O cenário mais desafiador mexeu em ativos financeiros, como no Banco do Brasil, que reportou aumento da inadimplência na carteira do agro. Esse movimento ainda pode pressionar ativos ligados ao setor ou parte relevante do ajuste já aconteceu?
Em 2026, ainda veremos muita dificuldade de liquidez. Não estamos falando de uma casa boutique, mas da maior instituição de financiamento do agronegócio no Brasil, o BB. São diferentes clientes, em diversas regiões, com uma enxurrada de operações, e nem sempre a instituição consegue ter uma comunicação precisa com esses clientes. Vamos observar bastante problema de crédito e de inadimplência neste ano. Será possível enxergar uma melhora nos ativos só a partir do ano que vem.
O Banco do Brasil tem adotado critérios mais rígidos na concessão de crédito. Esse movimento cria espaço para FIDCs ganharem participação?
Isso não está restrito ao Banco do Brasil. Sempre que há aperto na concessão de crédito por parte dos grandes bancos surgem lacunas que podem ser ocupadas por outros agentes, capazes de estruturar operações e aliviar esses gargalos. Do nosso lado, buscamos identificar essas oportunidades para nos posicionar.
Quando a Selic está muito baixa, a competição se intensifica e nós sofremos, porque os bancos ficam com o “freio de mão solto”. Mas agora estamos em um ambiente de restrição na concessão de crédito, que é quando conseguimos crescer com os FIDCs.
Quais são as estratégias da Multiplica para contornar esse cenário desafiador no agronegócio? Como a casa tem posicionado o fundo MultiAgro, focado no setor?
Estamos atuando com uma lupa, com foco na garantia exigida e em operações de curto prazo. No MultiAgro, fazemos operações fiduciárias. Ou seja, operações em que utilizamos commodities, fazendas, armazéns e silos como garantia. Nesse fundo, não realizamos operações para produtor rural, mas, sim, para intermediadores.
Temos como base aquele cliente que precisa de financiamento por um período específico do processo: por exemplo, para comprar soja, estocar e comercializar ao longo de um intervalo determinado. São operações com prazo médio de três a seis meses, para não nos afastarmos dos principais ciclos de precificação do grão.
O ponto central está na correta precificação das garantias, pois em um eventual problema de liquidez do cliente precisamos ter segurança de que será possível vender o ativo sem perdas relevantes.