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Colunista

Como os países estão enfrentando a restrição de oferta global de petróleo

Choque de oferta global força países a conter o consumo e adotar medidas emergenciais; Brasil está relativamente protegido, mas não imune aos riscos

Por Marcelo Toledo

01/04/2026 | 14:31 Atualização: 01/04/2026 | 14:31

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O problema do mundo é a quantidade de combustíveis e não o preço. (Foto: Adobe Stock)
O problema do mundo é a quantidade de combustíveis e não o preço. (Foto: Adobe Stock)

Mais do que o preço, o que está em jogo hoje no mercado global de energia é a disponibilidade de combustíveis.

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O choque provocado pela interrupção da produção e exportação de petróleo, derivados e gás natural no Oriente Médio, desde o fim de fevereiro, vem atingindo países de forma desigual — e já força governos a agir para conter o consumo.

A Agência Internacional de Energia (IEA), por exemplo, reuniu recentemente um conjunto de medidas que podem ser adotadas nesse tipo de crise.

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O Brasil, como argumentei no último artigo, está bem posicionado para lidar com o choque global, mas é preciso avaliar riscos potenciais e ter em mente a experiência de políticas públicas utilizadas em outros países.

Quais produtos estão sendo afetados

Primeiro, vale uma breve recapitulação dos diferentes tipos de produtos que estão sendo afetados pelo conflito. A redução na disponibilidade de petróleo está levando algumas refinarias a produzirem menos, especialmente na Ásia, ainda que a queda da oferta esteja sendo atenuada pela liberação de estoques pelo setor público.

Como se sabe, os países membros da IEA realizaram a maior liberação de estoques de sua história.

O Japão é um exemplo: o governo tinha enorme estoque de petróleo bruto, acima de 240 dias de consumo, e iniciou a liberação do produto para refinarias domésticas na última semana. Outros casos eram mais críticos, como o da Austrália (cerca de 45 dias de estoques).

Os países do Oriente Médio também exportavam grande volume de combustíveis e outros derivados de petróleo, o que é mais difícil de substituir (não existe capacidade ociosa no refino de outros países para compensar).

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O exemplo do Japão é interessante porque, apesar de grande estoque de petróleo e capacidade interna de refino, importava cerca de 25% dos derivados para atender a demanda doméstica. O gás natural é outro produto muito relevante atingido e para o qual não há estoques globais abundantes.

Impacto no consumo dos combustíveis

Do lado do uso desses produtos, o mais evidente problema está nos combustíveis utilizados para transporte de cargas e deslocamento das pessoas.

O diesel é o produto mais relevante para a movimentação de cargas, utilizado em caminhões, trens, ônibus e equipamentos agrícolas e industriais (em poucos países, também é importante para o uso em automóveis).

A gasolina, claro, é o relevante para o transporte individual (carros e, bem relevante em alguns países, motos).

Combustível para aviação e para uso em navios também são afetados de forma mais homogênea globalmente.

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Em alguns países, os impactos sobre a oferta de gás liquefeito de petróleo (GLP – ou gás de botijão como são conhecidos aqui) são mais expressivos.

Esse é o caso da Índia: o país sofreu, em algumas regiões, ondas de “corrida às compras” e tem negociado bilateralmente a liberação de navios com o produto nas últimas semanas.

No caso do gás natural, o maior impacto potencial para alguns países está no uso para geração de energia elétrica (caso da Tailândia, por exemplo).

Além disso, alguns setores da indústria também são bastante afetados, uma vez que há uso do petróleo, derivados e de gás natural como matéria-prima para outros produtos (plásticos e muitos outros).

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Temos o caso também dos fertilizantes, mas que deixaremos de lado nessa análise, uma vez que merecem um capítulo à parte.

Reação dos países às restrições de oferta

Tendo em vista a dependência da produção do Oriente Médio, os países asiáticos têm sido mais rapidamente atingidos pelas restrições de oferta e são aqueles que têm adotado um conjunto mais amplo de medidas para economizar combustíveis.

A IEA divulgou recomendações de ações que podem ser adotadas, em boa medida inspiradas em políticas públicas que já estão sendo empregadas por alguns países .

A lista inclui:
(1) incentivo ao trabalho remoto (home office);
(2) redução do limite de velocidade em rodovias;
(3) incentivo ao uso do transporte público;
(4) rodízio de veículos;
(5) incentivo ao compartilhamento de carros;
(6) condução mais eficiente e maior cuidado com manutenção de caminhões;
(7) prioridade ao uso de GLP para uso como gás de cozinha em detrimento de outros usos;
(8) reduzir uso na indústria ou em setores não essenciais ou incentivas uso de produtos substitutos.

Do ponto de vista de preços, muitos países também têm buscado atenuar o impacto para os consumidores.

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Vale notar que essas políticas, apesar de serem necessárias, tornam mais difícil o ajuste global do mercado de petróleo e combustíveis.

A realidade é que o consumo global de combustíveis precisará cair no curto prazo para se adequar à menor disponibilidade de produtos. O aumento de preços é um mecanismo para reequilibrar a demanda e oferta.

A redução de impostos sobre combustíveis é a medida mais recorrente entre os países (a Agência Internacional de Energia faz um acompanhamento diário muito interessante).

Em alguns países, como na Austrália, o governo tem se mostrado relutante em reduzir os impostos, justamente porque a elevação de preços é uma solução para lidar com a menor oferta, apesar de ser algo desfavorável para o orçamento das famílias e empresas.

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Controles de preços também são frequentes, quer sejam diretamente (como na China e em muitos outros países) ou por meio de empresas estatais (a exemplo da Índia).

Subsídios para produtores e importadores de combustíveis ou à energia elétrica e mesmo fertilizantes também são medidas adotadas.

Efeitos colaterais globais

Para o mundo, a demanda e oferta precisam se reequilibrar.

Como a IEA têm ressaltado, é o maior choque sobre a oferta global de petróleo da história, proporcionalmente mesmo superior ao choque de 1973.

O ponto importante é que a demanda que estava sendo atendida em janeiro e fevereiro não poderá igualmente ser atendida em abril.

Os controles e subsídios de preços têm um efeito global contraintuitivo: no final, provocam ainda mais aumentos de preços. Os países mais frágeis e sem condições de financiar seu consumo de combustíveis é que acabam precisando ajustar mais sua demanda.

De fato, já vemos no mundo países de menor renda, especialmente na Ásia, sofrendo crises mais relevantes de abastecimento.

A situação atual talvez traga outro exemplo relevante para ser considerado na experiência internacional: países que têm planos de contingência pré-definidos para lidar com eventuais crises de oferta de energia.

A Coreia tem um plano construído em diferentes níveis de alerta (são 4 faixas) para lidar com riscos na oferta de energia, cada um com um cardápio de medidas que podem ser adotadas.

A Nova Zelândia também adota há alguns um plano de contingência, que foi recentemente revisto. O país tem feito um excelente trabalho de monitoramento, transparência e coordenação na prestação de informações e planejamento de ações para lidar com o choque de oferta atual.

Como está o cenário brasileiro

No caso do Brasil, o foco das medidas adotadas até o momento recaiu sobre o diesel, com redução dos impostos federais e subsídios para produtores e importadores.

O país tem uma posição bastante confortável no que diz respeito à energia elétrica, uma vez que a matriz depende pouco de termoelétricas e que mesmo essas dependem pouco de gás natural liquefeito importado (entre 10% e 15% da energia gerada vem de termoelétricas, dependendo do período do ano por conta das chuvas).

A dependência de importações na gasolina e no GLP (gás de cozinha) também é relativamente modesta.

A maior dependência externa ocorre no diesel (com importações que representam um pouco mais de 25% do consumo doméstico segundo a Agência Nacional de Petróleo) e configura, assim, o principal ponto de atenção.

Portanto, a economia doméstica está bem-posicionada para enfrentar os riscos de preços e disponibilidade de oferta global que afetam praticamente todos os países nesse momento.

Há riscos a serem monitorados, contudo, e talvez seja importante ter em mente a experiência de outros países que podem trazer recomendações caso haja continuidade da restrição global de oferta de petróleo, derivados e outros produtos.

O problema do mundo – e do Brasil – será garantir a quantidade necessária de combustíveis, sendo a preocupação com preços secundária.

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