O retrato vai além da renda e ajuda a explicar por que essa corrida parece cada vez mais extenuante. Mais da metade diz que o trabalho exige mais da cabeça do que do corpo, enquanto 95% afirmam precisar de renda extra, embora 64% não consiga colocar o plano em prática. Ao mesmo tempo, prioridades mudam de lugar. Organizar as finanças, guardar dinheiro e sair das dívidas ganham espaço antes ocupado pelo consumo, numa inversão silenciosa, mas reveladora, do comportamento financeiro.
A leitura da Creditas é que o problema principal mora na administração do dinheiro. A companhia traduziu esse diagnóstico no conceito “Corre que Dá”, uma plataforma que conecta três dimensões do mesmo fenômeno. De um lado, a pressão financeira do dia a dia. De outro, o avanço da corrida como hábito popular no País. No meio, a educação financeira como ferramenta prática. A proposta é usar a lógica do esporte, baseada em constância, planejamento e evolução gradual, como método para reorganizar o orçamento, sair de dívidas mais caras e construir ‘fôlego’ ao longo do tempo.
A pesquisa também aponta o desgaste mental como fator constituinte das decisões financeiras. O estudo mostra que a fadiga do brasileiro foi além do bolso e já subiu à cabeça. A sensação de estar sempre correndo contra o relógio, sem margem para erro, interfere na qualidade das resoluções e amplia a dificuldade de planejamento. Nesse contexto, para a fintech, a disciplina deixa de ser apenas um ideal e passa a ser uma necessidade operacional.
Para entender esse cenário, o E-Investidor conversou com Renato Gonçalves, vice-presidente de Vendas e Experiência do Cliente da Creditas. Ele detalha por que a pressão aumentou, o que trava a renda extra e qual deveria ser o ponto de chegada das finanças pessoais.
E-Investidor: O “corre” do brasileiro hoje está mais ligado à sobrevivência financeira do que à ascensão?
Renato Gonçalves: Quando a gente olha para a pesquisa, vê que o brasileiro sente que precisa de mais dinheiro. Existe um ponto importante de disciplina que precisa melhorar para conseguir dar conta dos gastos que ele já tem, inclusive dos imprevistos. Ele fala de falta de disciplina, fala que precisa de renda extra. Então tem mais a ver com reorganização financeira.
Se quase todos querem renda extra, por que ela não avança?
Tem uma parcela relevante que nem chega a tentar. Quando a gente olha mais de perto, cerca de 40% sequer inicia esse movimento. E, para quem tenta, o principal limitador é o tempo. O dia a dia já consome muita energia e horas, então falta disponibilidade real para fazer algo diferente. A pessoa até entende que precisa complementar a renda, mas não consegue encaixar isso na rotina.
Além disso, existe um outro ponto importante. Muitas vezes, mesmo quando a pessoa encontra uma alternativa, ela não enxerga ali um retorno que compense o esforço necessário. Ou seja, não é só uma questão de vontade. É tempo, energia e também a percepção de que aquela atividade adicional precisa gerar um resultado relevante. Quando isso não acontece, a renda extra não se sustenta.
Existe um limite entre produtividade e desgaste mental?
Quando a pessoa está preocupada com a situação financeira, isso começa a aparecer diretamente na saúde mental. A gente vê mais ansiedade, mais preocupação constante e, em alguns casos, até afastamento do trabalho. É uma pressão contínua.
Existe um limite difícil aí. A pessoa sente que não pode parar. Ela entende que, se diminuir o ritmo ou se afastar, a renda também cai. Então ela segue, mesmo já desgastada. Isso cria um ciclo em que a preocupação financeira alimenta o desgaste mental, e o desgaste mental, por sua vez, dificulta ainda mais a organização da vida financeira. Fica tudo interligado.
Qual é o papel da Creditas nesse contexto?
Desde a fundação, há 14 anos, a gente acredita em ajudar o brasileiro que está preso na bola de neve, no cheque especial, no rotativo do cartão de crédito. A ideia é trazer uma consultoria financeira e mostrar que dá para trocar uma dívida com juros mais altos por uma com juros mais baixos, com prazo maior e um montante maior, para dar um respiro e conseguir reorganizar a vida e investir no futuro.
A corrida virou metáfora ou ferramenta prática?
Os dois. A corrida é um esporte muito acessível. Você pode correr na rua, começar devagar, caminhar e evoluir no seu ritmo. Não exige uma grande estrutura para dar o primeiro passo, e isso tem muito a ver com a ideia de começar algo diferente.
Na vida financeira, a lógica é parecida. O que faz diferença é disciplina e constância. Não adianta fazer um esforço pontual, organizar um mês e depois abandonar. É a repetição, o hábito e a continuidade que, ao longo do tempo, realmente mudam o resultado.
Se a maratona é o objetivo final de quem corre, qual é o dá vida financeira?
Eu acho que tem a ver com sustentabilidade e longevidade. É você conseguir viver bem, ter mobilidade, fazer escolhas ao longo da vida. No lado financeiro, é poder escolher como trabalhar, como viver, ter disciplina para poupar e aproveitar. No fim, é ter lucidez, equilíbrio e uma jornada que faça sentido.