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Direto da Faria Lima

TAG utiliza IA para antecipar riscos no crédito — e acelerar resposta a crises

Casa com R$ 17 bilhões sob gestão usa inteligência artificial para monitorar empresas, detectar sinais de deterioração e encurtar o tempo de reação dos analistas

Por Beatriz Rocha

07/04/2026 | 14:00 Atualização: 07/04/2026 | 13:58

À esquerda, André Leite, CIO da Tag, ao lado de Thiago de Castro, CEO da TAG, à direita. Foto: Divulgação/TAG Investimentos/Arte de Victoria Fuoco
À esquerda, André Leite, CIO da Tag, ao lado de Thiago de Castro, CEO da TAG, à direita. Foto: Divulgação/TAG Investimentos/Arte de Victoria Fuoco

Fundada em 2004, a TAG Investimentos acompanhou de perto a evolução dos multi family offices (MFOs) no Brasil em seus mais de vinte anos de atuação. Atualmente com R$ 17 bilhões sob gestão, a casa agora tem uma nova meta: tornar-se AI centric – centrada em inteligência artificial (IA).

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Thiago de Castro, CEO da TAG, mergulhou no universo dos multi family offices depois de ler um trabalho de conclusão de curso da Universidade de Columbia que narrava a origem desse modelo. A leitura despertou sua curiosidade. Com experiência acumulada em bancos como ABN Amro, Citibank e Santander, Castro se valeu dela para implementar esse formato no Brasil.

De 2004 para cá, Castro avalia que os multi family offices se transformaram em escritórios completos para o atendimento a famílias, focados não só em investimentos, como também em questões tributárias e sucessórias.

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É desse entendimento que surgiu o conceito de TAG 360. “A formação de herdeiros e o planejamento tributário passaram a ocupar um espaço muito relevante para as famílias”, destaca o CEO.

Segundo ele, casos recentes no mercado financeiro, como o do Banco Master, e problemas de crédito, como o da Raízen (RAIZ4), acenderam alertas entre investidores e ampliaram a importância dos escritórios que tomam conta das fortunas de famílias.

“Acho que nunca estivemos num momento tão relevante para a indústria do gestor de patrimônio de family office”, diz Castro.

Hoje, a TAG tem preferência por operações com mais garantias, para evitar os riscos de entrar no “efeito manada” do mercado. A casa atende pessoas físicas com patrimônio acima de R$ 20 milhões e investidores institucionais, representados por fundos de pensão de multinacionais.

O multi family office tem acelerado a estruturação de projetos ligados à IA. Se, no início da adoção da tecnologia, havia cerca de 150 demandas internas relacionadas ao tema, hoje esse número já supera 250. Castro compara a experiência com a primeira descida em um tobogã: há um receio inicial, mas, depois do primeiro contato, a reação tende a ser positiva. “Quem não aderir à IA nos próximos cinco anos estará em uma posição muito desfavorável”, opina.

Monitor de crédito

A empresa iniciou o uso de IA em 2025. Toda a equipe passou por um treinamento até chegar à fase atual, em que cada área tem como meta desenvolver protótipos, que serão posteriormente testados e aprimorados. A ideia é que os projetos sejam ferramentas de melhoria contínua.

Na frente de programação, a TAG adotou a versão corporativa do Claude, da Anthropic. A ferramenta tem ampliado a autonomia do time de negócios, que agora consegue desenvolver seus próprios protocolos — algo que antes dependia da área de Tecnologia da Informação (TI) e podia levar meses, já que nem sempre a equipe técnica tinha domínio das especificidades do negócio.

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Entre os projetos atuais, está um monitor de crédito, que monitora os resultados trimestrais de empresas divulgados no site da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e os preços disponíveis na Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Segundo André Leite, CIO da TAG, por existirem centenas de emissores de títulos de crédito privado, o acompanhamento desse setor envolve mais dificuldades. “Conseguir cobrir tudo é muito difícil, mas, hoje, usando a IA, o processo se torna mais fácil”, diz.

Na ferramenta, que ainda está em testes, os dados coletados nos resultados das empresas vão para um motor de cálculo, que compara as métricas com os números que a TAG julgar pertinentes. Se algo desviar do padrão, o monitor avisa o analista de que ele precisa observar a companhia com mais detalhe.

Por exemplo, caso a relação entre dívida líquida e lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) de uma empresa suba de 2,5 vezes para 3,5 vezes em um trimestre, isso já pode acionar um aviso para o analista para que ele olhe o resultado com mais atenção.

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A ferramenta também monitora o spread de crédito (diferença entre a taxa oferecida pelos títulos emitidos pelas empresas e as taxas dos títulos públicos). Se há um desvio incomum de abertura ou fechamento desse spread, o analista recebe um alerta.

Leite afirma que a plataforma poderia ser capaz de prever casos como o da Raízen, que entrou, em março, com o maior pedido de recuperação extrajudicial do País, para negociar uma dívida líquida de R$ 65,14 bilhões.

A eficácia do monitor, no entanto, depende da qualidade do trabalho do analista. “Se ele receber o alarme e não fizer nada, o sistema perde o propósito. Mas, em um time eficiente, a plataforma permite que o profissional chegue mais rápido às mudanças que estão acontecendo”, afirma o CIO.

De painéis no estilo Bloomberg ao mapeamento da guerra

Além do monitor de crédito, a TAG desenvolveu um painel inspirado no modelo da Bloomberg com cotações de bolsas, moedas e commodities. A ferramenta também inclui fundamentos de empresas e previsões para decisões de juros do Federal Reserve (Fed).

Outro projeto envolve as carteiras modelos da casa para diferentes perfis de investidor – doméstico, internacional, pessoa física e institucional. A IA permite que essas carteiras mostrem automaticamente a composição dos ativos, com métricas de retorno e risco, além de resultados e simulações em tempo real.

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O próximo passo será comparar automaticamente a carteira modelo com a carteira real de um cliente. O sistema irá mostrar o que está desalinhado e o ativo que precisa ser comprado ou vendido para enquadrar esse portfólio.

Para os fundos da casa, a TAG desenvolveu um painel que consolida dados da Anbima e entrega, de forma direta, os resultados ao time interno. Há também uma frente dedicada a fundos de índice (ETFs), que reúne os principais players globais do segmento e incorpora métricas como eficiência e valor de mercado.

Com a guerra no Irã, o multi family office criou ainda uma ferramenta que consolida informações e gráficos sobre os ataques e o Estreito de Ormuz, rota por onde passa certo de um quinto do petróleo mundial.

Os benefícios e os desafios ao implementar a IA

A partir dos projetos de IA, Leite avalia que os clientes passaram a acessar informações com muito mais agilidade. Demandas por dados específicos, que antes levavam meses para ser estruturadas, hoje podem ser atendidas em questão de horas ou poucos dias, já com painéis dinâmicos.

Ferramentas como o monitor de crédito também encurtam o tempo de resposta: permitem aos analistas identificar problemas mais rapidamente e tomar decisões com maior velocidade, algo alinhado ao interesse dos clientes.

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A implementação da IA, no entanto, ainda esbarra em desafios. Um deles é a qualidade e organização dos dados: se eles não forem bons, os resultados entregues também não serão. Há também barreiras internas, como incentivar as equipes a experimentarem a tecnologia e adaptar processos.

Diferentemente do uso pessoal, a adoção corporativa exige revisão de fluxos e mudanças na forma de trabalhar. “Se eu fosse resumir os desafios em três pilares, seriam: qualidade e organização dos dados, revisão de processos e questão cultural”, destaca o CIO da TAG.

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