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Investimentos

Ruim para o Brasil, pior para o mundo: Ibovespa cai menos que bolsas globais durante a guerra

Guerra no Oriente Médio leva mercados globais a mês negativo, mas analistas dizem ver fundamentos que sustentam melhor trimestre em anos da B3

Por Luíza Lanza

02/04/2026 | 5:30 Atualização: 02/04/2026 | 7:22

Guerra não interrompeu rotação global pró-emergentes que estava em curso nos mercados globais. (Imagem: manassanant em Adobe Stock)
Guerra não interrompeu rotação global pró-emergentes que estava em curso nos mercados globais. (Imagem: manassanant em Adobe Stock)

O desempenho do Ibovespa em março pode ser lido de formas diferentes. É negativo, claro, afinal trata-se da primeira queda mensal depois da sequência de sete altas consecutivas que entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026 que levou a Bolsa de Valores brasileira ao maior patamar da história. Mas, também, é possível ver a queda de 0,7% com outros olhos.

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Em um mês marcado pela eclosão de uma nova guerra no Oriente Médio e a consequente disparada do preço do petróleo, que saltou mais de 40% em março, o resultado do Ibovespa pode ser considerado resiliente. Mesmo antes desta terça-feira (31), dia em que os mercados globais deram um salto de recuperação após sinalizações do Irã indicando que estaria disposto a negociar com os Estados Unidos, o IBOV tinha uma queda perto de 2%.

No comparativo com pares globais, a perda de março também foi uma das menores. Dados levantados pela Economatica mostram que o Ibovespa só ficou atrás da bolsa mexicana e da argentina no mês. Os mercados desenvolvidos, incluindo os EUA, tiveram quedas bem superiores.

  • Saiba mais: Guerra leva Bolsas de Nova York às mínimas do ano e reabre janela para investir lá fora

Parece um movimento contrário ao modus operandi do mercado financeiro em momentos de incerteza, que geralmente leva o capital internacional a se refugiar em ativos de menor risco. Mas faz sentido tendo em vista o que vinha ocorrendo antes da guerra eclodir, explica Rodrigo Sgavioli, head de Alocação da XP Investimentos.

“Por mais que o clima de aversão a risco de março tenha impactado todo mundo, o plano de fundo não mudou. A tese principal que ainda está em curso é uma mudança de alocação marginal em bolsas globais saindo de mercados desenvolvidos, principalmente Estados Unidos, e entrando em emergentes, especialmente o Brasil”, explica. “Quem caiu menos foi quem estava subindo mais.”

A guerra não foi capaz de atrapalhar o fluxo para emergentes, mas criou diferenças dentro do grupo. Os mercados ligados a commodities, como o brasileiro e os latinos, se saem melhor por estarem relativamente menos expostos ao choque do petróleo. “A Ásia é a região mais impactada pela questão logística de energia no Estreito de Ormuz, então vários emergentes asiáticos sofreram, até desenvolvidos como o Japão“, diz Sgavioli.

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Distante do conflito e na posição de exportador de petróleo, o Brasil acaba se destacando. O fluxo de capital para o País não minou completamente e ajudou a manter os ativos locais relativamente estáveis no comparativo mensal, ainda que tenham oscilado bastante ao longo do mês. Como o Ibovespa tem concentração elevada em empresas exportadoras, a alta desses papéis ajudou a amortecer o impacto. Só a Petrobras (PETR3; PETR4), segundo maior peso no índice, subiu mais de 20% em março.

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Isso vale também para o câmbio: o DXY, que mede a performance do dólar contra moedas fortes, subiu 2,41%, enquanto contra o real a alta foi de 0,87%.

Para Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, o real não acompanhou na mesma intensidade a alta do dólar global porque, no curto prazo, o câmbio brasileiro tem respondido de forma bastante sensível à combinação entre fluxo, diferencial de juros, termos de troca e fatores técnicos, o que acaba reduzindo a transmissão automática do movimento do DXY para a moeda local.

“A alta do petróleo e de outras commodities melhora os termos de troca, fortalece a geração de divisas e ajuda a sustentar uma entrada estrutural de dólares, o que diferencia o Brasil de outros emergentes mais vulneráveis ao ambiente externo e sem a mesma compensação via balança comercial.”

Fluxo estrangeiro e tendência seguem positivos

Um outro fator importante nessa equação vem do fluxo de capital estrangeiro. Antes da guerra eclodir, o Brasil vinha recebendo bilhões de dólares graças ao movimento de rotação dos portfólios globais, que vinham há anos concentrados em Estados Unidos e começavam a buscar novas geografias. Em janeiro e fevereiro, a B3 recebeu R$ 42,56 bilhões considerando ofertas iniciais de ações (IPOs) e ofertas subsequentes (follow-ons). É mais de metade de todo o fluxo registrado no ano de 2025.

A guerra no Oriente Médio não foi capaz de interromper essa entrada. O ritmo apenas se reduziu: a B3 informou que até a segunda-feira (30), dado mais recente disponível, o saldo de capital internacional no País em março era positivo em R$ 9,475, bilhões.

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“O efeito mais provável parece ser de desaceleração e maior seletividade, e não necessariamente de reversão estrutural do fluxo. Em cenários como esse, o investidor estrangeiro tende a ficar mais tático, menos direcional e mais sensível à volatilidade, o que reduz a intensidade do movimento, ainda que não implique, de imediato, uma saída generalizada”, explica Olívia Flôres de Brás, da Magno.

  • Saiba mais: Quem é o investidor estrangeiro que banca o rali do Ibovespa em 2026

A continuidade ou não da guerra pode ser um fator chave para a manutenção desse fluxo, mas, para a recuperação dos preços dos ativos, podem haver outras saídas. Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, relembra o que aconteceu em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia e deu início à guerra no leste europeu. À época, o petróleo também disparou com receios de um choque de oferta. Mas logo o mercado entendeu que o conflito não seria tão determinante assim para a formação de preços da commodity.

O ano de 2022 foi recorde de entrada de capital estrangeiro na B3, com fluxo total de quase R$ 120 bilhões. Naquele ano, o Ibovespa subiu 4,69%.

“Nos últimos meses, houve realmente um fluxo grande para emergentes que estava saindo de mercados desenvolvidos. Esses recursos vão voltar com um pouco mais de força caso a guerra seja resolvida ou caso os mercados se acomodem, como vimos há quatro anos com Rússia e a Ucrânia”, diz Cruz. “Foram três meses muito ruins para preços de ativos e no segundo semestre isso se recuperou.”

Se a guerra passar, melhor. A impressão de boa parte do mercado financeiro é de que, não fosse a volatilidade geopolítica, o principal índice de ações da B3 poderia ter ultrapassado a marca histórica de 200 mil pontos. Para o Safra, é questão de tempo.

  • Confira também: O recado do Federal Reserve sobre guerra, inflação e o futuro dos juros nos EUA

No fim de março, o banco elevou a projeção para o Ibovespa ao final de 2026 para 220 mil pontos. O argumento é que, ainda que o choque no petróleo tenha adicionado incerteza à condução de política monetária e interrompido o rali visto nos dois primeiros meses do ano, esses eventos costumam ser temporários. O cenário-base aponta para normalização gradual dos preços, permitindo que a tendência anterior, mais positiva para emergentes, volte a ditar o rumo do mercado.

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“Assim que as incertezas relacionadas à guerra se dissiparem, acreditamos que o mercado de ações brasileiro deve retornar aos seus fundamentos. Estes permanecem sólidos, com valuations (valor de mercado de ativos) ainda atrativos, continuidade do ciclo de corte de juros – mesmo que limitado pela pressão dos preços do petróleo –, recuperação dos lucros e continuidade da rotação de capital dos mercados desenvolvidos para os emergentes”, diz o Safra em relatório.

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