MGLU3 R$ 23,30 +1,08% EURO R$ 6,25 +0,23% DÓLAR R$ 5,14 +0,00% BBDC4 R$ 25,58 -1,31% ITUB4 R$ 29,96 -0,07% ABEV3 R$ 14,70 -1,21% GGBR4 R$ 22,48 -4,10% IBOVESPA 112.291,59 pts +0,37% VALE3 R$ 78,96 -1,10% PETR4 R$ 26,64 +2,82%
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Marilia Fontes, sócia-fundadora da Nord Research e colunista do E-Investidor

Tudo sobre Renda Fixa

Marilia Fontes é sócia-fundadora da Nord Research e possui 12 anos de experiência de mercado financeiro. Trabalhou como gestora de renda fixa e câmbio em gestoras como Itaú, Mauá e Kondor, em fundos de até R$ 2 bilhões, com operações nacionais e internacionais. Na Empiricus, ela foi a analista fundadora e responsável pelos relatórios: Tesouro Empiricus e Empiricus Renda Fixa. Marilia é mestre em Economia pelo Insper e autora do livro “Renda Fixa NÃO é fixa!”
Twitter: @mariliadf2

Escreve na terceira sexta-feira de cada mês

Marilia Fontes

É a hora do Tesouro IPCA+?

Investidores têm a impressão de que o título é uma proteção contra a inflação alta. Não é bem assim

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Varejo de alimentos deve registrar avanço em 2020. Foto: Tiago Queiroz/Estadão
  • O Tesouro IPCA+ é um título híbrido, que tem um componente prefixado (os juros reais) e um componente pós-fixado (a inflação)
  • Em 2015, por exemplo, que o IPCA chegou a 10,67%, os detentores de IPCA+ amargaram prejuízos naquele ano, pois as taxas de juros reais subiram com o mercado precificando necessidade de subir a Selic

Hoje eu gostaria de falar não apenas sobre um, mas sobre dois temas que dominaram essas últimas semanas. O primeiro é a inflação, e se existe de fato um risco inflacionário no Brasil. O segundo é, tendo inflação, qual seria o melhor título de renda fixa para se proteger contra ela?

Apesar de não parecer, esses assuntos estão totalmente interligados, e compreender o que está acontecendo pode te ajudar a investir melhor.

Vamos à inflação!

Vocês devem ter observado no supermercado, ou lido nas notícias dos jornais, o grande aumento de preços de alimentos que tivemos recentemente. Só se fala sobre isso! Certamente já deve ter recebido no grupo da família os diversos memes criados com a alta do preço do arroz.

O IGP-DI, índice de inflação da FGV, registrou alta de 3,87% apenas no mês de agosto, e já acumula 15,23% de alta em 12 meses. Olhando apenas esse índice e os anedóticos do supermercado, pode-se facilmente temer que estamos acelerando a inflação no País.

Porém, quando olhamos para o IPCA, que é o índice oficialmente utilizado pelo Banco Central na condução da política monetária, temos uma alta em 12 meses de apenas 2,44%. A diferença é tão grande que estimula preocupações até mesmo quanto à veracidade da coleta do IBGE. Será que estamos sendo enganados?

Não é nada disso! E precisamos esclarecer.

O IGP é um índice mais voltado ao preço para o atacado, e pega alta por exemplo dos preços das commodities, dos alimentos, das matérias primas, e de itens mais expostos à variação cambial. A alta, por exemplo, do minério de ferro foi muito sentida pelos IGPs.

Já o IPCA tem o olhar no consumidor final, preços de serviços (aluguel, educação) e administrados (transporte, energia) entram no IPCA mas não entram nos IGPs. E são exatamente estes itens que mostram uma inflação muito baixa ou até mesmo deflação.

Ou seja, estamos tendo alta no preço dos alimentos, e baixa nos preços de serviços. O IPCA, como tem ambos, mostra uma resultante muito baixa e tranquila. Os núcleos de inflação (que retiram itens mais voláteis e efeitos de choques) estão ainda mais baixos.

O Banco Central utiliza a Taxa Selic para combater processos inflacionários. Processos inflacionários são altas dos preços generalizadas e persistentes. O que estamos vendo não é uma alta generalizada, ao contrário. A alta é específica dos setores de alimentos e de matéria-prima. Outros setores como serviços, vestuário, educação, transportes, estão com estabilidade ou até queda nos preços.

O que estamos vendo também não parece ser persistente. A alta de alimentos foi causada pela forte desvalorização cambial que tivemos no início da crise, somada a algum grau de desabastecimento com aumento de consumo pós auxílio emergencial. Ele deve voltar a se estabilizar no futuro.

Ou seja, se a alta de preços não é generalizada nem persistente, ela não deve ser combatida pelo Banco Central. Não é por outro motivo, ele já sinalizou no comunicado da última reunião do Copom que espera manter a Selic estável em 2% por um bom tempo.

Isso significa que não existe risco de inflação no Brasil? Não. No Brasil sempre temos risco de inflação. Mas isso vai depender muito mais do nível de recuperação econômica e do controle fiscal do governo do que especificamente dos preços dos alimentos.

Mesmo assim, venho recebendo muitas mensagens perguntando como se proteger da inflação, e sugerindo a compra do título IPCA+ do Tesouro. Aí eu percebo a segunda falácia!

Os investidores têm a impressão de que o IPCA+ é uma proteção em caso de inflação alta. Mas o título não funciona bem assim.

O Tesouro IPCA+ é um título híbrido, que tem um componente prefixado (os juros reais) e um componente pós-fixado (a inflação). Quando a inflação sobe, a parte pós fixada do seu título de fato sobe também, o que gera um valor maior de retorno.

Mas a parte prefixada, dos juros reais, também tem que ser analisada. Quando você entra no Tesouro Direto e vê um Tesouro IPCA+ 2026 com uma taxa de 3%, esse valor é o juro real. Se você segurar este título até o vencimento, você irá receber exatamente a variação do IPCA somado a 3% ao ano. Mas, caso você decida vender este título antes do vencimento, você irá sofrer a marcação a mercado.

A marcação a mercado faz com que o preço do seu título reflita a taxa de hoje. Ou seja, se a taxa do IPCA+ 2026 passa de 3% para 2%, todo mundo que tem este título passa a render automaticamente 2%.

“Mas Marília, pra onde vai esses 1% a mais que eu contratei no início?”, você deve estar se perguntando.

Toda essa diferença entre a taxa contratada que você receberia e a taxa atual de mercado, você recebe hoje, através da valorização do seu título. Ou seja, você passa a render 2%, mas em cima de um montante muito maior.

O inverso também é verdadeiro. Se a taxa do IPCA+ 2026 subir, digamos para 4%, o detentor deste título passa imediatamente a render 4%, e toda a diferença futura entre os 3% que ele contratou, e os 4% atuais, ele perde hoje.

Ou seja, se a alta da inflação for tal que faça com que o mercado precifique que a taxa de juros terá que subir mais rápido, então essa taxa de juro real dos títulos IPCA+ vão subir, e isso causará uma marcação a mercado negativa nesses títulos.

Em 2015, por exemplo, que o IPCA chegou a 10,67%, os detentores de IPCA+ amargaram prejuízos naquele ano, pois as taxas de juros reais subiram com o mercado precificando necessidade de subir a Selic.

Ou seja, agora não é o momento dos títulos IPCA+. Não estamos em um processo inflacionário e porque as taxas de juros estão tão baixas que uma surpresa inflacionária poderia causar uma alta dos juros reais, levando o detentor do título ao prejuízo.

Além disso, o nosso maior risco atualmente é o descontrole fiscal. Tivemos um aumento de gastos brutais com a pandemia, e teremos que lidar com um aumento grande da dívida brasileira. Como faremos para pagar essa conta lá na frente? Será que o governo irá manter o Teto de Gastos?

Precisamos endereçar urgentemente essas questões, caso contrário o mercado poderia cobrar um prêmio muito alto do governo para investir em seus títulos, principalmente os de longo prazo que são mais arriscados.

A alta do prêmio de risco também poderia aumentar as taxas dos títulos IPCA+, causando prejuízo ao investidor.

A verdade é que a renda fixa é um pouco mais complicada do que parece. É possível ter retornos de Bolsa com títulos do Tesouro, mas é preciso ficar atento também às possibilidades de prejuízo.

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