O golpe do amor prospera porque encontra pessoas em momentos de abertura emocional, quando o desejo de vínculo fala mais alto que o senso de proteção. E talvez a pergunta mais honesta hoje não seja como identificar um golpista, mas porque estamos mais vulneráveis a ele.
A recente matéria do Estadão que revelou o sequestro de um juiz em São Paulo, iniciado a partir de um relacionamento construído no ambiente virtual, expõe a face mais extrema desse fenômeno. Mas ele não começa no crime. Começa muito antes. Começa na solidão, na pressa afetiva, na esperança de ser escolhido por alguém que parece finalmente enxergar.
Quem trabalha com comportamento financeiro e vínculos sabe: raramente o dinheiro é o primeiro limite rompido. Antes dele, cai o emocional. Depois, o simbólico. Só então o patrimonial.
O afeto acelera e a intimidade parece profunda demais para o pouco tempo. O vínculo começa a pedir sigilo. E, quando percebemos, ajudar financeiramente já não parece um risco: parece uma prova de amor.
Quando o amor começa a custar caro demais
Tenho visto esse padrão com frequência entre jovens da Geração Z. Não por fragilidade moral, mas por um contexto que mistura hiper conexão digital, solidão real e dificuldade de sustentar valor próprio sem validação externa.
Atendi recentemente uma jovem que gastava praticamente toda a sua renda comprando presentes para o namorado, pagando viagens, jantares e experiências que não cabiam no seu orçamento.
Não havia pedido explícito. Havia silêncio, expectativa e medo de perder. Ela fazia porque acreditava, por baixa autoestima, que não era, por si mesma, seria suficiente para ser amada. Não era generosidade. Era carência travestida de cuidado.
Esse tipo de história não é exceção. É sintoma. Um sintoma de uma geração que aprendeu a performar valor, mas ainda luta para sentir pertencimento.
Quem fica mais vulnerável?
Não existe um perfil único, mas existem histórias de vida e momentos emocionais que reduzem nossas defesas:
- fases de luto, separação ou transição importante
- solidão prolongada, mesmo com muitas conexões digitais
- dificuldade de sustentar limites por medo de abandono
- confusão entre intensidade e intimidade
- pessoas que aprenderam que amar é se sacrificar
- histórico familiar de abuso físico, moral e/ou patrimonial, onde afeto e dor foram misturados cedo demais
Quem cresce em ambientes assim tende a normalizar desequilíbrios. Aprende, sem perceber, que amar envolve tolerar excessos, justificar invasões e silenciar desconfortos. Na vida adulta, isso pode se traduzir em vínculos onde o limite financeiro é atravessado antes mesmo de ser reconhecido.
Golpistas ou relações emocionalmente abusivas não procuram fragilidade intelectual. Procuram abertura emocional sem proteção interna suficiente.
Você está mais vulnerável ao golpe do amor?
Antes de responder, pause. Não responda como gostaria de ser. Responda como tem sido. Pense nessa relação específica. Na real, não na ideal.
Agora, pergunte a si mesmo ou a si mesma:
- Tenho sentido pressa emocional, como se o vínculo precisasse ser garantido?
- Evito dizer não por medo de afastamento ou perda?
- Já normalizei gastos, presentes ou ajudas que ferem meu planejamento?
- Sinto culpa quando priorizo minhas necessidades financeiras ou emocionais?
- Estou me adaptando demais para agradar? Essa relação me acalma ou me mantém em estado constante de alerta?
- Ela amplia minha vida ou me faz encolher para caber? Sinto que me afastei da minha vida real?
Na clínica, sinais raramente aparecem como alarmes. Eles surgem como pequenos incômodos ignorados. Quando emoção, dinheiro e medo de perda caminham juntos, algo pede atenção.
A ideia desse autoteste não é acusar ou gerar culpa. É um convite à consciência.
O que esse tipo de golpe revela sobre nós
O golpe do amor, explícito ou silencioso, revela algo que raramente aprendemos: dinheiro também é linguagem emocional. Ele fala de medo, pertencimento, autoestima e valor próprio.
Por isso, proteger patrimônio não é apenas aprender a investir melhor ou desconfiar mais. É desenvolver consciência emocional para não transformar carência em contrato invisível, nem afeto em dívida.
Talvez o verdadeiro antídoto não seja endurecer o coração, mas fortalecer a autonomia emocional. Porque quando o amor exige que você se perca para existir, o risco já não está no outro, está no quanto você aprendeu, ao longo da vida, a negociar a si mesmo para não ficar só.
E esse é um trabalho profundo. De autopercepção. De limite. De maturidade emocional. Não para amar menos. Mas para amar sem se perder.