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De olho nos fundos de investimento

Dan Kawa é sócio da TAG Investimentos e especialista em fundos de investimento. Graduado em Ciências Econômicas pela PUC-Rio, atua no mercado financeiro desde 2003. Dan atuou nas maiores gestores independentes do País como Gap Asset Management, Bank of New York Mellon ARX Investimentos, FLAG Asset Management e Icatu Vanguarda. Em todas as gestoras por onde passou participou de todo processo de crescimento, expansão e desenvolvimento da empresa, fazendo parte de comitês de suporte e decisão em questões estratégicas dos negócios.

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Dan Kawa

Pandemia deve frear recuperação econômica nacional

Nosso processo de vacinação avança de maneira consistente, mas ainda com uma enorme restrição devido à falta de insumos

Processo de vacinação ganha tração no exterior, mas no Brasil a pandemia ainda se mostra aguda e perigosa. Foto: Gerd Altmann/ Pixabay
  • Diante deste quadro, é natural supor que nossa recuperação econômica será mais lenta e, talvez, mais fraca do que em países desenvolvidos, pelo menos até termos um endereçamento mais estrutural da pandemia
  • Agora precisamos lidar com uma nova variável, que é troca do presidente da Petrobras e a sinalização de que outras medidas serão anunciadas
  • O Brasil pode ser visto como um pêndulo. As vezes o pêndulo vai na direção da Argentina. As vezes na direção da Suíça

Utilizamos este espaço em dezembro para fazer um apanhado geral do que seria nossa expectativa para o cenário perspectivo para o Brasil e o mundo, especialmente em 2021. Em janeiro deste ano, falamos um pouco mais sobre o processo de investimentos em si, em um texto um pouco mais técnico.

Agora, em fevereiro, o momento é de entender em que passo estamos daquele cenário que tentamos desenhar em dezembro de 2020 e quais são as novas variáveis que podem vir a alterar aquele cenário base.

Comecemos pelo pano de fundo internacional, para depois aprofundarmos nos últimos e importantes eventos no Brasil.

O principal vetor de direcionamento do cenário, desde o ano passado, tem sido a pandemia, que  afetou o mundo em ciclos. O primeiro em fevereiro-março de 2020, o segundo em junho-julho e, o que podemos chamar de “terceira onda” assola o mundo desde outubro de 2020.

O que temos visto nas últimas semanas é um substancial arrefecimento desta “terceira onda”, ou deste ciclo, em especial nos EUA e na Europa. A Ásia já vinha em uma condição muito mais controlada da pandemia, enquanto os países emergentes ainda mostram um cenário heterogêneo em relação a crise de saúde.

Alguns fatores explicam essa queda no número de novos casos, óbitos e de internações, como a própria característica de ciclo de uma pandemia provocada por um vírus: um processo de vacinação que ganha tração no mundo desenvolvido; medidas mais duras de controle do vírus, como “lockdowns”, uso obrigatório de máscaras, entre outros.

O controle do vírus é importante porque irá ditar o ritmo da reabertura econômica e, consequentemente, a velocidade, duração e qualidade da recuperação econômica global.

Além da pandemia, ou por causa dela, ainda vivemos em um ambiente de liquidez global abundante, promovida por política monetárias extremamente expansionistas e ainda convivemos com pacotes de incentivos fiscais bastante agressivos. Estes vetores têm sido importante pilares de sustentação da economia mundial.

Assim, temos um alinhamento quase perfeito de expectativa de normalização econômica e social com a pandemia sendo controlada no curto prazo e as vacinas ganhando tração. Isso ocorre em um pano de fundo de liquidez abundante, suporte fiscal e, por ora, sem inflação.

Diante disso, continuamos a trabalhar com um cenário base construtivo para a recuperação do crescimento ao longo de 2021 o que deveria ser, no geral, também positivo para os ativos de risco.

Contudo, alguns riscos ainda precisam ser observados. Primeiro, uma extensão da pandemia, devido a mutação do vírus ou ineficácia das vacinas. Continuamos a ver este risco como extremamente baixo e improvável.

Segundo, seria um sobre aquecimento da economia global, devido ao excesso de estímulos, que levaria a inflação e uma retirada antecipada da liquidez global. Ainda vemos este risco como baixo no curto-prazo, mas ainda assim maior do que o risco da pandemia.

É importante frisar, contudo, que este risco teve sua probabilidade aumentada nos últimos dias, diante da dados de inflação mais elevados nos EUA e números de atividade econômica bastante robustos no país. Mesmo na Europa, ainda em “lockdown”, já vemos sinais de recuperação ou estabilização do crescimento.

Finalmente, ainda estamos atentos e crescentemente preocupados com a posição técnica, preço e valuations de alguns mercados, em especial no âmbito internacional. Estes vetores, por si só, não levam a correções ou inversões de tendências, mas podem ser aceleradores de movimentos negativos.

Em suma, mantemos uma visão construtiva para o cenário econômico global, mas elevamos nosso nível de alerta devido ao crescimento de alguns riscos e a deterioração, ou a piora do risco x retorno, de algumas classes de ativos.

Existem diversas formas de se posicionar para este ambiente, tais como a compra de proteções (“hedges”), a rotação do portfólio para ativos mais defensivos, a redução do portfólio em ativos mais sensíveis a esses vetores descritos acima, entre outros.

No Brasil, a pandemia ainda se mostra aguda e perigosa. Ainda não vemos sinais claros e consistentes de controle de curto prazo ou de fim desta última onda. A situação é bastante heterogênea entre regiões do país, com algumas cidades já em colapso do sistema de saúde e outras mostrando maior controle da situação.

Nosso processo de vacinação avança de maneira consistente, mas ainda com uma enorme restrição devido à falta de insumos.

Diante deste quadro, é natural supor que nossa recuperação econômica será mais lenta e, talvez, mais fraca do que em países desenvolvidos, pelo menos até termos um endereçamento mais estrutural da pandemia.

Em um ambiente onde o crescimento econômico já mostra sinais de fragilidade, cresce a pressão para um novo auxílio emergencial, importante e necessário para ajudar os desamparados a atravessar esta tormenta de maneira menos tortuosa, mas que precisa ser acompanhando de cortes de outras despesas, devido a um quadro de contas públicas (fiscal) já em seu limite.

Se não bastasse todos esses desafios, agora precisamos lidar com uma nova variável, que é troca do presidente da Petrobras e a sinalização de que outras medidas serão anunciadas.

A troca em si não é um problema. O presidente Jair Bolsonaro tem esse direito e essa prerrogativa, mas a forma como a substituição está sendo conduzida e os argumentos para tal ferem a imagem da empresa como uma empresa de capital misto, além de trazer enormes dúvidas em torno da real agenda deste governo para o Brasil.

Gosto de olhar o Brasil como um pêndulo. As vezes o pêndulo vai na direção da Argentina. As vezes na direção da Suíça. Na maior parte das vezes, nunca “rompe” para nenhum desses lados e sempre encontramos o meio do caminho.

Neste momento, o pêndulo parece estar migrando para um cenário similar a Argentina (ou Venezuela). Os ruídos são enormes e os riscos, por consequência, aumentam exponencialmente.

Ainda estamos sendo ajudados por um cenário internacional construtivo, como comentamos no início deste texto. Caso o cenário externo vire, estaremos extremamente fragilizados e expostos.

O mercado não dará mais o benefício da dúvida ao País. A hora de agir é agora.

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