Há um aspecto conceitual fundamental que permeia toda a análise: quanto maior a valorização da ação, menor tende a ser o dividend yield projetado, dado que o preço do papel sobe mais rápido do que os proventos distribuídos. Ainda assim, os números de 2025 chamam atenção.
Das 34 ações que compõem a amostra, 28 registraram rentabilidade superior a 10% no ano, considerando o reinvestimento dos dividendos e JCPs informados à B3. Esse dado confere um duplo destaque ao grupo: além da valorização expressiva das cotações, os papéis mantiveram um patamar elevado de distribuição de proventos, o que sustenta, do ponto de vista estatístico, a projeção de dividend yield para 2026.
No entanto, essa leitura exige cautela. O último trimestre de 2025 concentrou volumes elevados de dividendos e JCPs, em grande parte como resposta à nova tributação anunciada pelo governo, que passará a incidir a partir de 2026. Como consequência, muitas empresas anteciparam pagamentos que, em condições normais, poderiam ter sido realizados ao longo do próximo exercício. Dos 34 papéis analisados, 24 registraram distribuições mais relevantes no quarto trimestre de 2025 quando comparadas aos três trimestres anteriores.
Esse movimento, embora legítimo, pode funcionar como um limitador para a capacidade de distribuição em 2026, justamente porque parte do caixa já foi consumida antecipadamente.
Quais são as empresas da amostra
A composição setorial ajuda a entender o perfil do levantamento. O grupo é liderado pelas incorporadoras, com seis ações, seguidas pelos bancos, com cinco papéis. Na sequência aparecem serviços médico-hospitalares e exploração, refino e distribuição, com três ações cada. Outros quatro setores contam com duas empresas na amostra, enquanto nove segmentos aparecem com apenas um representante. Essa diversidade setorial reduz o risco de uma leitura excessivamente concentrada, mas também evidencia que o potencial de dividendos não está restrito a um único tipo de negócio.
As maiores projeções, e os maiores cuidados
No topo da lista, cinco ações apresentam dividend yield projetado superior a 15% em 2026. Coincidentemente, ou não, todas elas informaram volumes elevados de dividendos e JCPs no quarto trimestre de 2025, o que pode sinalizar antecipação de proventos originalmente associados ao exercício seguinte. A liderança fica com a Vulcabras (VULC3), cujo DY projetado para 2026 alcança 27,20%.
O número impressiona, mas precisa ser contextualizado: em 2025, o dividend yield efetivo foi de 35,12%, o maior dos últimos cinco anos, enquanto a mediana histórica é de 7,49%. A discrepância sugere que parte relevante desse resultado decorre de dividendos extraordinários, o que reduz a probabilidade de repetição em magnitude semelhante.
Na segunda posição aparece a Unipar (UNIP6), com DY projetado de 21,54%, frente a uma mediana de 14,60% nos últimos cinco anos, também acompanhada de pagamentos expressivos no quarto trimestre de 2025. A Direcional (DIRR3) surge em terceiro lugar, com 18,70% projetados, ante mediana de 9,20%. Em seguida vêm Bradespar (BRAP4), com 16,47%, e Log Commercial Properties (LOGG3), com 16,38%.
Em todos os casos, o mesmo alerta se impõe: o dividend yield projetado só se materializa se as políticas de distribuição em 2026 forem iguais ou mais generosas do que as de 2025, e se os pagamentos extraordinários não tiverem consumido parte relevante do potencial futuro.
Ao todo, 20 ações exibem DY projetado acima de 10%, enquanto 14 ficam abaixo desse patamar, ainda que todas superem o piso mínimo de 6% estabelecido nas premissas.
Uma fotografia quantitativa, não um mapa definitivo
O retrato que emerge do levantamento é claro: há, em termos estritamente quantitativos, um conjunto amplo de ações com potencial para apresentar dividend yields relevantes em 2026. No entanto, a leitura dos dados também indica que parte significativa desse potencial pode não se concretizar, especialmente em função da antecipação de proventos realizada no quarto trimestre de 2025, motivada pela mudança na tributação de dividendos e JCPs.
Em outras palavras, os números sugerem oportunidades estatísticas, mas não oferecem garantias. O mercado, como sempre, tende a separar o que foi excepcional do que é recorrente.
| Ações com potencial de distribuição de dividendos em 2026 |
| Empresa |
Ticker |
Lucro liquido R$ Milhões |
Dividend Yield % |
| 2024 |
2025 (9 meses) |
% Lucro 2025 vs 2024 |
Realizado em 2025 |
Projetado 2026 |
| Vulcabras |
VULC3 |
570 |
1.007 |
76,62 |
35,12 |
27,20 |
| Unipar |
UNIP6 |
556 |
494 |
-11,13 |
26,11 |
21,54 |
| Direcional |
DIRR3 |
638 |
578 |
-9,47 |
29,77 |
18,70 |
| Bradespar |
BRAP4 |
1.192 |
1.216 |
2,02 |
19,76 |
16,47 |
| Log Com Prop |
LOGG3 |
343 |
285 |
-17,14 |
22,01 |
16,38 |
| Itausa |
ITSA4 |
14.778 |
12.187 |
-17,53 |
19,91 |
14,75 |
| Cury S/A |
CURY3 |
650 |
705 |
8,56 |
25,99 |
14,08 |
| Lavvi |
LAVV3 |
343 |
309 |
-9,66 |
27,57 |
12,92 |
| Cyrela Realt |
CYRE3 |
1.649 |
1.325 |
-19,68 |
22,41 |
12,83 |
| ItauUnibanco |
ITUB3 |
40.231 |
33.733 |
-16,15 |
18,75 |
12,24 |
| Tim |
TIMS3 |
3.154 |
2.981 |
-5,49 |
17,35 |
11,77 |
| BBSeguridade |
BBSE3 |
8.703 |
6.715 |
-22,85 |
11,76 |
11,77 |
| ItauUnibanco |
ITUB4 |
40.231 |
33.733 |
-16,15 |
16,41 |
11,34 |
| Fleury |
FLRY3 |
616 |
517 |
-16,18 |
13,88 |
11,17 |
| Vale |
VALE3 |
31.592 |
34.862 |
10,35 |
13,97 |
10,59 |
| Petrobras |
PETR4 |
36.606 |
94.566 |
158,33 |
9,01 |
10,58 |
| Rede D Or |
RDOR3 |
3.847 |
3.516 |
-8,60 |
16,89 |
10,57 |
| Banrisul |
BRSR6 |
916 |
947 |
3,49 |
15,72 |
10,52 |
| Bradesco |
BBDC3 |
19.086 |
18.074 |
-5,30 |
15,16 |
10,08 |
| Petrobras |
PETR3 |
36.606 |
94.566 |
158,33 |
8,27 |
10,01 |
| Azzas 2154 |
AZZA3 |
342 |
820 |
140,08 |
8,37 |
9,84 |
| Even |
EVEN3 |
42 |
193 |
357,92 |
14,28 |
9,84 |
| Bradesco |
BBDC4 |
19.086 |
18.074 |
-5,30 |
15,36 |
9,51 |
| SLC Agricola |
SLCE3 |
509 |
611 |
20,02 |
8,30 |
9,05 |
| Klabin S/A |
KLBN11 |
1.831 |
1.510 |
-17,55 |
7,31 |
8,96 |
| Klabin S/A |
KLBN4 |
1.831 |
1.510 |
-17,55 |
7,39 |
8,94 |
| Eztec |
EZTC3 |
405 |
417 |
3,18 |
14,35 |
8,90 |
| Odontoprev |
ODPV3 |
539 |
460 |
-14,72 |
8,86 |
8,59 |
| Ultrapar |
UGPA3 |
2.363 |
2.130 |
-9,83 |
11,02 |
8,37 |
| Ambev S/A |
ABEV3 |
14.437 |
11.157 |
-22,72 |
9,49 |
8,04 |
| Metal Leve |
LEVE3 |
541 |
473 |
-12,70 |
9,91 |
7,98 |
| Movida |
MOVI3 |
231 |
216 |
-6,68 |
21,92 |
7,95 |
| Porto Seguro |
PSSA3 |
2.645 |
2.542 |
-3,88 |
8,34 |
6,23 |
| Lojas Renner |
LREN3 |
1.197 |
905 |
-24,38 |
6,92 |
6,23 |
Nota metodológica e de responsabilidade
Este levantamento tem caráter exclusivamente quantitativo, baseado em dados públicos de resultados, proventos informados à B3, histórico de dividend yield e premissas estatísticas. Não se trata de recomendação de investimento. A efetivação de qualquer decisão de alocação exige análises complementares, incluindo avaliações fundamentalistas, gráficas, setoriais e de cenário macroeconômico, além da consideração do perfil e dos objetivos de cada investidor. Para isso, é recomendável a consulta a profissionais habilitados do mercado financeiro.
O ponto de partida foi estritamente numérico. O estudo considera apenas empresas que apresentaram lucro tanto em 2024 quanto em 2025, sendo que o lucro acumulado até o terceiro trimestre de 2025 corresponde a, pelo menos, 75% do resultado obtido em todo o ano anterior. Além disso, entram na amostra apenas companhias que efetivamente distribuíram dividendos ou juros sobre capital próprio (JCP) em 2025, que exibiram liquidez mínima, com volume financeiro médio diário superior a R$ 5 milhões ao longo do ano, e que apresentam dividend yield (DY) projetado para 2026 de pelo menos 6%.
Com esse filtro, ficaram de fora empresas que, embora tenham histórico de distribuição, caminham para encerrar 2025 com lucro inferior ao de 2024. O levantamento também assume, como hipótese técnica, a manutenção das políticas de distribuição de proventos em 2026, tanto em termos de payout quanto de frequência, uma premissa relevante, mas que, como se verá, carrega limitações importantes.