Guerra revive o choque de oferta e muda o mapa de risco global
Alta do petróleo e tensões geopolíticas recolocam limites à oferta — um risco que a globalização havia amortecido e que agora volta a pressionar inflação, juros e mercados
Incertezas da guerra no mercado. (Foto: Adobe Stock)
O mercado voltou a lidar com um tipo de risco que parecia superado: o de que a oferta simplesmente não responde ao preço. Com o petróleo acima de US$ 100 e a guerra no Oriente Médio tensionando o fornecimento global, o velho choque de oferta — relegado aos livros de economia — retorna ao centro do cenário. Na última quarta-feira (18), Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, concedeu sua tradicional entrevista após a reunião do Federal Open Market Committee (Fomc), versão americana do Comitê de Política Monetária (Copom) e resumiu esse novo ambiente em poucas palavras: será preciso operar com mais incerteza.
Ele afirmou que a alta nos preços do petróleo, que chegou a rondar US$ 119 na semana passada, pode provocar uma alta na inflação americana, mas que ainda é cedo para dizer o que vai acontecer.
“Temos de trabalhar em uma situação de mais incerteza”, disse Powell.
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Se fosse necessário resumir os acontecimentos das três últimas semanas, seria possível fazer isso apenas com essa palavra. A incerteza passou a dominar o cenário econômico, em várias frentes.
A principal incógnita é o comportamento dos preços do petróleo no mercado internacional. O preço do barril do tipo Brent, referência para o mercado e para a Petrobras (PETR4), estacionou acima do patamar de US$ 100 e parece que vai ficar por lá durante bastante tempo, apesar das medidas de diversos países produtores para normalizar a oferta.
Petróleo é uma commodity estratégica, politicamente complicada e com inúmeros desafios logísticos. Por isso, mesmo um país pesadamente atacado e privado de recursos como o Irã é capaz de ameaçar o suprimento global de maneira efetiva.
Isso pode manter as cotações do óleo elevadas por um prazo indeterminado – eis, novamente, a incerteza no cenário – e pressionar a inflação e os juros nos Estados Unidos e na Europa.
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Com as consequências habituais sobre a atividade econômica, os lucros das empresas, o salário dos trabalhadores e a renda dos investidores.
Evolução petróleo em US$. (Foto: Elos Ayta)
A incerteza decorre do ressurgimento de um fenômeno que parecia recolhido aos livros-texto de economia: os choques de oferta.
Não vamos dizer, de novo, que ocorreu um processo de globalização a partir da década de 90. Isso já foi mais do que repetido, neste espaço inclusive.
O que vale notar é que o processo de integração econômica tornou praticamente impossíveis os chamados choques de oferta.
Oferta e demanda como conceito e na prática
Oferta e demanda, os pilares da economia. Quando elas se desalinham em economias de mercado, o desequilíbrio é resolvido por meio das oscilações de preço.
Pouca oferta ou muita demanda? O preço sobe, estimulando a entrada de novos agentes econômicos no mercado e resolvendo o problema.
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Demanda fraca demais? Os preços recuam, forçando produtores a reduzir ou interromper suas atividades. A oferta encolhe, os preços aumentam e a situação se regula.
Na teoria é perfeito. Na prática temos alguns problemas, que foram sendo resolvidos ao longo das décadas. Uma queda na oferta de, digamos, roupas de verão durante o calor não é uma catástrofe, basta tirar do armário o modelo da estação passada.
Já uma redução na oferta de comida tem um impacto catastrófico. Por isso os governos em geral mantêm estoques reguladores dos principais itens da cesta básica e também de petróleo.
Alterações prolongadas na oferta ou na demanda podem exterminar setores inteiros de uma economia, com consequências sociais e políticas graves.
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Mesmo assim, dentro de certos limites e se não forem muito intensas, as oscilações na oferta e na demanda tendem a ser absorvidas sem maiores contratempos.
Choques de oferta estão de volta?
Esses choques haviam desaparecido da paisagem nas últimas décadas. Em momentos de retração grave da demanda, como a crise das empresas de internet em 2001, a quebra do subprime americano em 2008 e a pandemia em 2020, o choque de demanda foi sanado por meio da expansão monetária.
A globalizaçãopraticamente acabou com os choques de oferta. Se, por exemplo, uma seca devasta as plantações indianas de cana-de-açúcar, a enorme população não terá de tomar chá amargo.
O açúcar custará mais caro, o que fará a alegria dos produtores brasileiros, mas a importaçãoresolve as deficiências pontuais de escassez. Com algumas variações, esse foi o roteiro das últimas décadas.
Até fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia e estrangulou o fornecimento de petróleo para a Europa. As consequências foram pesadas, com explosão nos preços da eletricidade, além de alta da inflação em geral. E agora mais um choque de oferta do petróleo.
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Durante a entrevista coletiva da quarta-feira, um jornalista perguntou a Powell se o Fed estava esperando mais choques de oferta.
Cauteloso, Powell disse que não era possível afirmar isso. “Mas, de fato, voltamos a testemunhar choques de oferta”, disse ele. Parece óbvio, mas mesmo assim é muito relevante.
Como entender o choque do petróleo
O fato de que a oferta de petróleo tenha se tornado uma variável imprevisível a ponto de já não ser resolvida com oscilações de preços provoca uma alteração profunda no mapa de riscos dos investidores.
Energia é um item crucial em todos os componentes de custo, e cerca de 30% da energia mundial ainda é produzida pela queima do petróleo.
Ao acrescentarmos os 22% do gás natural, concluímos que metade da energia mundial depende do que se extrai do subsolo. Mais do que isso, o petróleo é essencial para insumos industriais como o plástico e agrícolas como os fertilizantes.
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Colocando todos esses itens na equação, é bastante lógico concluir que os desdobramentos possíveis do conflito no Oriente Médio são mais graves do que pareciam à primeira vista. Há dezenas de cenários possíveis.
Mesmo abstraindo o terrível custo humano dos ataques, o conflito não terá um final feliz como as produções de Hollywood. Como estará a infraestrutura da produção de petróleo e gás quando as bombas pararem de cair? Em quanto tempo a produção voltará aos níveis anteriores, se é que voltará algum dia?
Todas essas questões, que pareciam fazer parte do passado, voltaram à mesa e às planilhas dos analistas. E não estamos em um cenário em que as distorções se corrigem automaticamente e onde basta comprar títulos públicos e esperar o desequilíbrio passar.
Ao contrário, voltamos a ter juros reais positivos nas principais economias, retração dos fluxos de capital e muito mais dificuldade em financiar déficits em transações correntes. O cenário mudou. E ainda não se sabe o que virá.