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Colunista

Com PDD em nível recorde, bancos refletem novo ambiente de risco e juros elevados

O sistema bancário está provisionando mais, devido ao crescimento da economia e o maior risco de crédito

Por Einar Rivero

18/03/2026 | 14:21 Atualização: 18/03/2026 | 20:56

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Em um cenário de juros elevados, o comportamento de devedores duvidosos (PDD) revela mudanças estruturais na concessão de crédito, no apetite a risco e na dinâmica de inadimplência. (Imagem: Adobe Stock)
Em um cenário de juros elevados, o comportamento de devedores duvidosos (PDD) revela mudanças estruturais na concessão de crédito, no apetite a risco e na dinâmica de inadimplência. (Imagem: Adobe Stock)

O comportamento do provisionamento de devedores duvidosos (PDD), que estima as perdas com inadimplência, ao longo do tempo funciona como um verdadeiro termômetro da qualidade do crédito no sistema bancário. Quando analisado em janelas anuais desde 2010, especialmente no caso dos quatro maiores bancos de capital aberto do País (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander), esse indicador revela não apenas ciclos econômicos, mas também mudanças estruturais na concessão de crédito, no apetite a risco e na dinâmica de inadimplência.

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Levantamento da Elos Ayta com os dados consolidados mostram que 2026 marca um ponto fora da curva: o maior volume histórico de PDD, tanto em termos nominais quanto em valores ajustados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), atingindo R$ 155,3 bilhões. Trata-se de um patamar que supera inclusive momentos tradicionalmente associados a deterioração de crédito, como crises econômicas anteriores.

O que o avanço do PDD sinaliza

O crescimento do PDD, sobretudo quando atinge máximas históricas, indica essencialmente três movimentos simultâneos:

1. Deterioração da qualidade do crédito: os bancos aumentam provisões quando identificam maior probabilidade de inadimplência nas carteiras.

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2. Postura mais conservadora: elevação preventiva das provisões, mesmo antes da materialização plena das perdas.

3. Ciclo econômico mais restritivo: geralmente associado a juros elevados, menor crescimento e pressão sobre a renda das famílias e empresas.

A análise da série histórica desde 2010 mostra ciclos bem definidos. Após picos relevantes entre 2015 e 2017, período de recessão econômica no Brasil, houve uma acomodação, seguida por nova aceleração a partir de 2020. O movimento mais recente, porém, é mais intenso: o salto observado entre 2021 e 2026 leva o indicador a um novo patamar estrutural.

Nominal vs. ajustado pela inflação

A diferença entre os dados nominais e os ajustados pelo IPCA é crucial para uma leitura técnica adequada. Mesmo após eliminar o efeito inflacionário, 2026 permanece como o maior valor da série, o que reforça que não se trata apenas de um fenômeno monetário, mas de uma deterioração real do risco de crédito.

Isso confere robustez à análise: o sistema bancário está provisionando mais não apenas porque a economia cresceu em termos nominais, mas porque o risco efetivo aumentou.

O recorte recente: 2023 a 2026

A tabela destacada no gráfico permite uma leitura mais granular dos últimos anos:

  •  2023: PDD consolidado de R$ 129,9 bilhões (R$ 141,9 bilhões ajustado);
  • 2024: leve recuo nominal para R$ 125,6 bilhões (R$ 130,9 bilhões ajustado);
  • 2026: salto expressivo para R$ 155,3 bilhões (mesmo valor ajustado, indicando base recente).

O movimento de 2024 sugere uma tentativa de estabilização, que não se sustenta no período seguinte. O avanço até 2026 indica uma reprecificação relevante do risco.

O protagonismo do Banco do Brasil

No recorte dos maiores PDDs da história ajustados pelo IPCA, o Banco do Brasil aparece com destaque: cinco das dez maiores marcas pertencem à instituição, incluindo o maior valor já registrado, R$ 66,3 bilhões em 2026.

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Esse dado é particularmente relevante. Um volume dessa magnitude sugere:

  • Forte exposição a segmentos mais sensíveis ao ciclo econômico (como agronegócio, crédito rural ou empresas de maior risco relativo);
  • Ajustes relevantes na política de provisões;
  • Eventual antecipação de perdas futuras.

Relatórios do próprio banco indicam que esse nível de provisão teve impacto direto e significativo sobre o lucro do exercício, reforçando o papel do PDD como uma das principais variáveis de compressão de resultados no setor bancário.

Relação com a taxa de juros

O ambiente de juros elevados, na faixa de 15% ao ano, ajuda a explicar parte relevante desse movimento.

Do ponto de vista técnico, a conexão é direta:

  • Juros mais altos elevam o custo da dívida, pressionando famílias e empresas;
  • A inadimplência tende a subir, especialmente em crédito ao consumo e pequenas e médias empresas;
  • Os bancos aumentam provisões para refletir o maior risco esperado.

Além disso, juros elevados também impactam o comportamento dos próprios bancos, que podem restringir concessões ou migrar para perfis de crédito mais conservadores, reforçando o ciclo de provisões.

Impacto no lucro dos bancos

O PDD é uma despesa diretamente deduzida do resultado operacional das instituições financeiras. Na prática:

  • Quanto maior o PDD, menor o lucro líquido;
  • Em momentos de forte elevação, pode haver compressão significativa da rentabilidade do retorno sobre o patrimônio líquido (ROE);

Em casos extremos, pode até levar a revisões de guidance ou mudanças estratégicas. Do ponto de vista contábil e regulatório, o PDD segue princípios prudenciais (incluindo normas como IFRS 9), que exigem o reconhecimento antecipado de perdas esperadas. Ou seja, o impacto no lucro pode ocorrer antes mesmo da inadimplência efetiva se materializar.

Leitura à luz de teoria e prática de mercado

Sob a ótica acadêmica, o comportamento observado está alinhado com o conceito de provisionamento pró-cíclico, amplamente discutido na literatura financeira: em ciclos de deterioração econômica, as provisões aumentam de forma acelerada, amplificando os efeitos sobre o crédito e o crescimento.

Analistas de mercado, por sua vez, tendem a interpretar picos de PDD sob duas perspectivas complementares:

  • Negativa no curto prazo: impacto direto sobre lucro e indicadores de rentabilidade;
  • Potencialmente positiva no médio prazo: limpeza de balanço e redução de riscos futuros.

No caso de 2026, o nível recorde sugere que os bancos estão atravessando um momento de ajuste relevante, seja por deterioração efetiva do crédito, seja por uma postura mais conservadora diante do cenário macroeconômico.

O que observar daqui para frente

A evolução do PDD nos próximos ciclos será determinante para entender se 2026 representa:

  • Um pico isolado dentro de um ciclo adverso; ou
  • Um novo patamar estrutural de risco no sistema bancário brasileiro.

Para investidores e analistas, o monitoramento conjunto de PDD, inadimplência, margem financeira e ROE continuará sendo essencial para interpretar a saúde do setor, especialmente em um ambiente ainda desafiador do ponto de vista macroeconômico.

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