Outra observação notável em Austin este ano foi a mudança na terminologia: o que antes era referido como mercado cripto Latam (América Latina), hoje é designado especificamente como mercado cripto brasileiro, um reflexo do ambiente progressista que construímos no País, singular até mesmo na região.
Mas o que está ocorrendo no Brasil para atrair esse interesse global?
Na verdade, são duas narrativas paralelas em jogo. Por um lado, o mercado americano enfrenta um período desafiador, com indícios de um endurecimento regulatório. Por outro, vemos avanços significativos no Brasil, com progresso regulatório e uma colaboração efetiva entre players e reguladores. Em suma, o Brasil está sendo percebido como um país mais “amigável” para a economia digital.
Desde a falência da FTX, a corretora cripto que era (des)controlada por Sam Bankman-Fried, a SEC, equivalente americana à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) brasileira, vem adotando uma postura mais rigorosa em relação aos criptoativos nos Estados Unidos. Muitos deles passaram a ser classificados como “securities”, ou valores mobiliários, ou, no mínimo, há uma incerteza sobre sua classificação.
Além disso, desde o início do ano, diversos bancos americanos têm se tornado menos acessíveis para empresas cripto e dois dos bancos mais receptivos ao setor, Silvergate e Signature Bank, estão fora do jogo.
Neste cenário, poucas corretoras marcaram presença na Consensus deste ano, deixando espaço para infraestruturas cripto, que dominaram o evento. As corretoras, que antes eram preponderantes deram lugar à ideia de transformar a infraestrutura do mercado financeiro e de capitais.
Momento brasileiro
Embora a situação nos Estados Unidos seja complexa para o setor de criptomoedas, o Brasil segue um caminho distinto. Em 2022, o País deu um passo significativo com a aprovação e sanção presidencial da Lei nº 14.478, conhecida como Lei dos Ativos Virtuais. A matéria, que entrará em vigor dentro de pouco mais de um mês, ainda está em processo de finalização, aguardando o decreto do Poder Executivo para definir o regulador do mercado.
No entanto, a lei, fruto de uma parceria entre o Executivo, o Legislativo e a sociedade, representa um grande avanço. Apesar de desencorajar práticas ilegais, ela não inibe a inovação no setor. Em parte isso explica o grande interesse de companhias estrangeiras pelo setor cripto brasileiro.
A ação proativa do Banco Central (BC) do Brasil ao desenvolver sua própria Moeda Digital de Banco Central (CBDC), o Real Digital, é mais um marco significativo. Em um esforço para integrar o Real Digital de maneira efetiva e segura ao ecossistema de criptomoedas, o BC incentivou a colaboração da comunidade cripto. Isso incluiu a solicitação de propostas de diferentes atores do mercado que pudessem ser incorporadas no Desafio LIFT – Laboratório de Inovações Financeiras e Tecnológicas, para iniciativas interessadas em criar produtos inovadores para o sistema financeiro nacional.
O Mercado Bitcoin, como um dos principais players do mercado brasileiro, submeteu uma proposta interessante que envolvia a negociação de ativos digitais utilizando o método de pagamento contra entrega (DvP). Notavelmente, esse método será posto à prova mais uma vez no piloto do Real Digital, programado para ocorrer no segundo semestre deste ano.
Considerando as vastas dimensões continentais do Brasil, a disseminação maciça de smartphones e a extensa rede de telefonia móvel – com mais de 234 milhões de linhas ativas, de acordo com dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) de 2022 – temos os elementos essenciais para um cenário extremamente competitivo no palco global, mesmo que não seja absolutamente perfeito.
Potência emergente
Com a iminente entrada em vigor da Lei Cripto e a adoção cada vez maior de criptomoedas em um país com população superior a 210 milhões de habitantes – dos quais estima-se que aproximadamente 10% já tiveram alguma interação com cripto –, o Brasil está se posicionando como uma potência emergente no panorama cripto global.
Portanto, não é surpresa alguma que o Brasil esteja recebendo reconhecimento em eventos internacionais, como o Consensus. O País deixou de ser apenas um ponto de interesse exótico para se transformar em um ator significativo, possuindo um mercado cripto próprio em constante crescimento e cada vez mais relevante no cenário global.
Cabe agora aos empreendedores e reguladores a tarefa de, no médio prazo, aprimorar ainda mais o ambiente cripto local, atraindo capital tanto financeiro quanto intelectual para o País. Sem dúvida, temos uma clara oportunidade ao nosso alcance.