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Colunista

Tecnologia DeFI tem potencial de deixar o crédito mais justo aos brasileiros

A necessidade de softwares, bancos ou cartórios para validação de contratos também pode ser suprimida

Por Fabrício Tota

09/06/2023 | 16:48 Atualização: 09/06/2023 | 16:48

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O DeFi tem um potencial extenso e um de seus aspectos mais empolgantes é a tokenização de ativos. Foto: Pixabay
O DeFi tem um potencial extenso e um de seus aspectos mais empolgantes é a tokenização de ativos. Foto: Pixabay

Um dos maiores problemas econômico-financeiros do Brasil é o acesso ao crédito. Além de tradicionalmente termos um dos mais altos juros reais do mundo, o chamado spread, a diferença entre a taxa básica de juros e o que os bancos efetivamente cobram dos clientes é consideravelmente alta.

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O juro do empréstimo consignado para pessoas físicas do setor privado pode passar de 60% ao ano, segundo levantamento do Banco Central. Curiosamente, o consignado é uma das linhas mais seguras para os bancos, já que o pagamento é diretamente descontado do salário do tomador de crédito. Vale lembrar que a taxa básica de juros, a Selic, atualmente está em 13,75% ao ano.

O que justificaria uma taxa tão elevada? Certamente, o custo dos bancos para captar recursos é muito menor. Afinal, será que as instituições financeiras oferecem retornos de 60% ao ano quando captam recursos dos clientes por meio de instrumentos como os CDBs? Mesmo considerando custos operacionais com pessoal, tecnologia e marketing, é difícil encontrar uma justificativa para tais taxas.

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O resultado dessa equação? Mais de 70 milhões de brasileiros inadimplentes, segundo a Serasa. Não é surpresa que o endividamento das famílias brasileiras tenha sido um dos temas debatidos na última eleição. E, esta semana, o governo revelou as principais linhas do seu projeto para abordar esta situação.

Muito prazer, eu me chamo DeFi

Mas imagine um cenário em que as barreiras ao acesso ao crédito fossem significativamente reduzidas e o custo para o tomador fosse mais justo. Essa realidade já está sendo moldada por uma ferramenta emergente na criptoeconomia chamada DeFi, ou Finanças Descentralizadas. Essa tecnologia, trabalhando em conjunto com a agenda do Open Finance do Banco Central e com o futuro Real Digital, tem o potencial de transformar o acesso ao crédito no Brasil, tornando-o mais eficiente e justo.

Aliás, vale ressaltar que o Mercado Bitcoin obteve licença para operar como uma Instituição de Pagamento, reforçando a possibilidade de integração entre o mundo cripto e as finanças tradicionais.

DeFi gira em torno do uso de contratos inteligentes, que possibilitam a criação e execução de acordos financeiros, como empréstimos, diretamente na blockchain. Esses contratos possibilitam que qualquer pessoa com acesso à internet possa oferecer um empréstimo com uma taxa mais justa e alinhada ao que o tomador paga, em vez de depender das taxas tradicionalmente altas dos bancos.

Com o blockchain, é possível embutir diretamente no contrato aspectos como garantias, taxas de juros, prazos, amortizações e até mesmo o cálculo do pagamento de principal e juros. Desta forma, a necessidade de softwares, bancos ou cartórios para validação desses contratos, tão característica da economia centralizada, é suprimida.

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Um exemplo prático dessa inovação é a plataforma DeFi AAVE. Ela permite a realização de empréstimos colateralizados e, com um Valor Total Bloqueado (TVL) que ultrapassa os 26 bilhões de reais, se destaca na esfera DeFi. A plataforma serve como uma alternativa ao crédito tradicional, possibilitando transações diretas entre credores e mutuários.

No contexto brasileiro, a AAVE e outras plataformas DeFi têm o potencial de serem incorporadas a soluções de crédito já existentes. Para o consumidor, o processo de obtenção de crédito poderia permanecer similar ao atual, preservando a facilidade de uso e a familiaridade. No entanto, em segundo plano, tecnologias DeFi como a AAVE estariam facilitando o processo, proporcionando taxas de juros mais justas.

Esse é um dos grandes desafios globais em cripto: entregar uma experiência do usuário (UX) eficiente e de fácil entendimento, alcançando grandes públicos, enquanto mantém o back-end operando com tecnologia blockchain.

Naturalmente, a questão da regulamentação se torna relevante quando falamos de atividades que envolvem criptomoedas. Entretanto, é importante destacar que essas operações, apesar de serem uma novidade, não estão fora do alcance do controle regulatório. Atualmente, a regulamentação de criptomoedas e DeFi está em franca discussão no Brasil, e a expectativa é que o foco seja na regulamentação dos serviços que fazem uso da tecnologia blockchain, e não da própria tecnologia em si.

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Esse ponto de vista tem recebido amplo apoio de especialistas e parece ser o caminho que nossos reguladores irão seguir. Portanto, DeFi não apenas tem o potencial de oferecer uma solução para o alto custo do crédito no Brasil, como também pode trazer significativas inovações para o setor financeiro.

Não apenas crédito

O DeFi tem um potencial extenso e um de seus aspectos mais empolgantes é a tokenização de ativos. Este é precisamente o propósito da MB Tokens, a tokenizadora que criamos no Mercado Bitcoin. Por meio da tokenização, é possível transformar uma ampla variedade de ativos reais em ativos digitais, como imóveis, obras de arte, ou recebíveis.

Imagine um cenário onde investidores podem adquirir tokens respaldados em ativos reais de maneira mais simples e direta, sem muitos intermediários. Isso pode proporcionar retornos potencialmente maiores para os investidores. Ao mesmo tempo, o emissor do token pode acessar capital de maneira mais barata, novamente devido à redução de intermediários.

As vantagens são palpáveis: há uma redução nas taxas de administração e nos custos de emissão, com todos os procedimentos relacionados ao ativo registrados diretamente na blockchain. Isso habilita possibilidades interessantes, como a antecipação de pagamentos, a negociação de renegociações contratuais por meio da governança on-chain, e até mesmo ações contra inadimplência através da colateralização.

Ademais, um elemento-chave do DeFi é a liquidez facilitada pelos contratos em blockchain. Considere a possibilidade de tomar empréstimos utilizando ativos tokenizados como garantia, o que poderia resultar em taxas de juros mais acessíveis. Plataformas como a AAVE, que permitem empréstimos colateralizados, estão demonstrando que isso não apenas é possível, mas tem potencial para transformar profundamente os sistemas de crédito tradicionais.

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A capacidade disruptiva do DeFi é inquestionável. A pergunta que se coloca é: o status quo será capaz de se adaptar a tempo, ou assistiremos a uma disrupção massiva nas mãos dos novos entrantes, aqueles que já são nativos do universo crypto e blockchain?

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