O mesmo órgão que supervisiona trilhões de reais em ativos acompanha liquidez, solvência e estabilidade bancária ainda opera sem uma política clara de rodízio sistemático de auditores e supervisores em determinadas frentes críticas. Confia-se na experiência acumulada, na memória institucional, na familiaridade com os números.
O problema é que familiaridade demais pode gerar excesso de autoconfiança no analista e reduzir seu ceticismo e capacidade de estranhamento frente ao objeto estudado, fatores que interferem nas chances de se identificar erros, naturalizar comportamentos e de se encontrar em uma posição em que o analista virou “sócio” do problema por não tê-lo identificado antes.
O caso Banco Master expôs algo incômodo: falhas relevantes raramente surgem de um dia para o outro. Elas se constroem no detalhe ignorado, no relatório que parece consistente demais, no crescimento que ninguém questiona porque já foi validado antes. Não é coincidência que distorções ganhem espaço quando sempre as mesmas pessoas analisam os mesmos dados, ano após ano.
Rodízio não é desconfiança do profissional. É disciplina do sistema.
No setor privado, a troca periódica de auditoria já evitou decisões equivocadas, reavaliações tardias e exposições que poderiam custar bilhões. Novos profissionais fazem perguntas diferentes, questionam premissas antigas, desafiam o trabalho dos times que os antecederam e revisitam processos tratados como consolidados. Tudo isso é saudável. É assim que se previnem crises: não reagindo a elas, mas criando atritos antes que se tornem estruturais.
O argumento contrário costuma invocar continuidade, que também tem seu valor. Mas continuidade sem revisão vira acomodação. Crescimento aparente, relatórios impecáveis e indicadores positivos não eliminam fragilidades, apenas as ignoram e adiam. A história financeira brasileira é pródiga em mostrar que confiança excessiva custa caro.
E aqui está o ponto central: se o mercado privado já internalizou o rodízio, balanceando os benefícios da continuidade e de sua ruptura como regra básica de governança, inclusive exigida pela regulação, por que o supervisor máximo do sistema não deveria avançar na mesma direção?
Não se trata de burocracia adicional, mas de assimetria de risco. O Banco Central exige das instituições financeiras protocolos rígidos de compliance, auditoria independente e segregação de funções. Porém, a supervisão concentrada por longos períodos nas mesmas equipes cria o mesmo risco que o próprio regulador combate: excesso de proximidade.
Estruturas frágeis funcionam enquanto há liquidez. Enquanto o crédito gira, o funding aparece e os números aparentemente fecham. O problema surge quando o ciclo vira. É nesse momento que inconsistências antes toleradas se tornam evidentes. E, quando isso acontece, não há discurso técnico que neutralize a perda de confiança.
O rodízio de auditores no Banco Central não evitaria todos os erros, mas reduziria a probabilidade de que falhas estruturais amadurecessem em silêncio. Governança não é detalhe operacional; é arquitetura de prevenção.
O sistema financeiro brasileiro é sofisticado, movimenta trilhões e opera com instrumentos e em ambientes — vide a Operação Carbono Oculto — cada vez mais complexos. Exigir rotatividade de auditoria das instituições e não aplicar lógica semelhante à supervisão é confiar demais na estabilidade permanente.
A matemática do risco é simples: quanto maior a concentração e o tempo sem renovação, maior a chance de acomodação. E acomodação, em finanças, raramente termina bem.
Ignorar isso não gera problema imediato; resulta em problema acumulado. E problema acumulado, no sistema financeiro, não aparece aos poucos. Aparece de uma vez e com indesejável e perigoso estardalhaço.
A discussão não é sobre o erro de ontem. É sobre a vulnerabilidade de amanhã.