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Colunista

A lição do visionário Ignacy Sachs para o futuro dos investidores

O economista argumentava que o combate à pobreza e à desigualdade deveria andar de mãos dadas com a proteção ambiental

Por Fernanda Camargo

18/08/2023 | 15:12 Atualização: 18/08/2023 | 15:12

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Ignacy Sachs Foto: Eduardo Nicolau/AE
Ignacy Sachs Foto: Eduardo Nicolau/AE

Muitas vezes demoramos anos para entender o que alguém tentou nos explicar e não conseguimos compreender, pois não estávamos prontos. Os visionários, aqueles com pensamento inovador, criativo e inventivo, muitas vezes conseguem enxergar a realidade de outro jeito e a sociedade pode levar anos para compreender.

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No começo desse mês morreu Ignacy Sachs (1927 a 2023), o economista e sociólogo polonês refugiado de guerra no Brasil entre 1941 e 1953 e reconhecido como um dos pioneiros do desenvolvimento sustentável.

Olhando para trás e analisando sua obra, Sachs já na década de 1970 reconheceu a urgência de abordar as complexas interações entre fatores econômicos, sociais e ambientais na busca do desenvolvimento. Sua abordagem holística e ênfase na sustentabilidade influenciaram gerações de economistas, formuladores de políticas e ativistas, moldando o discurso sobre como o desenvolvimento deve ser buscado para garantir um futuro melhor para todos, preservando o planeta.

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Sachs recebeu inúmeros prêmios e homenagens por seu trabalho, incluindo o Right Livelihood Award (também conhecido como “Prêmio Nobel Alternativo”) em 1994. Uma de suas principais contribuições foi o conceito de “ecodesenvolvimento” – a ideia de que o desenvolvimento econômico e o equilíbrio ecológico devem andar de mãos dadas. Esse pensamento teve uma influência direta nas políticas de desenvolvimento internacional, incluindo a formação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Já naquela época, ele argumentava que o combate à pobreza e à desigualdade deveria andar de mãos dadas com a proteção ambiental. Essa abordagem desafiou a noção predominante de que o desenvolvimento era apenas sobre o crescimento econômico e abriu o caminho para uma agenda de desenvolvimento mais inclusiva e ambientalmente consciente.

Defensor da “estratégia de necessidades básicas”, Sachs enfatizava o fornecimento de serviços essenciais e a melhoria das condições de vida dos mais pobres. Acreditava que as políticas de desenvolvimento deveriam priorizar o atendimento das necessidades humanas fundamentais, como acesso à água potável, saneamento, saúde e educação. Essa abordagem contrastava com outras que se concentravam apenas no crescimento do PIB, sem garantir que os benefícios fossem distribuídos equitativamente.

Ele enfatizava a importância de um “diálogo Norte-Sul”, que pedia cooperação e colaboração entre os países mais ricos e os mais pobres para enfrentar os desafios globais. Seu trabalho procurou preencher a lacuna entre os interesses econômicos das nações desenvolvidas e as necessidades de desenvolvimento do Sul Global.

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Quase 50 anos depois, aqui estamos, ainda tentando colocar em prática algumas de suas ideias. Um dos desafios que enfrentamos é a construção de um entendimento comum do que é “ecodesenvolvimento” ou sustentabilidade, e como esses conceitos se relacionam com o propósito das empresas. No mundo dos negócios criaram-se diferentes padrões de contabilidade e reportes relacionados à sustentabilidade, fazendo uma verdadeira sopa de letrinhas (ESG, TCFD, TNFD, REDD+, ISSB, SASB, etc). Para que essas ideias ‘aterrisem’, governos, empresas e investidores precisam chegar a um acordo.

O IFRS (International Financial Reporting Standard) é uma entidade que dita um conjunto de normas contábeis reconhecidas globalmente, desenvolvidas pelo International Accounting Standards Board (IASB). O objetivo do IFRS é garantir consistência, transparência e comparabilidade nos relatórios financeiros em diferentes países e setores.

Em 2021, na COP26 em Glasgow, foi criado o International Sustainability Standards Board (ISSB) que desde então vem desenvolvendo padrões que resultarão em uma linha de base global abrangente e de alta qualidade de divulgações de sustentabilidade focadas nas necessidades dos investidores e dos mercados financeiros.

Em junho deste ano, o ISSB, que é o órgão do IFRS para padronização de relatórios relacionados à sustentabilidade, emitiu suas primeiras normas, o IFRS S1 e o IFRS S2. Essas normas ajudarão a aumentar a confiança nas divulgações das empresas sobre sustentabilidade para embasar as decisões de investimento de investidores. E, pela primeira vez, criam uma linguagem comum para divulgar o efeito dos riscos e oportunidades relacionados ao clima sobre as perspectivas de uma empresa.

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O IFRS S1 é direcionado principalmente para investidores e apresenta os riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade para uma empresa levando em consideração a materialidade financeira. Ou seja, só é considerado o que pode impactar seu resultado financeiro. Por exemplo, se um dia a compensação de carbono for obrigatória e uma empresa altamente poluente tiver que compensar todas suas emissões, isso incorrerá em um custo. Esse custo deve estar computado no S1. Essas informações são úteis para todos os investidores, independentemente de seus valores morais ou vontade de “fazer o bem”.

O IFRS S2 por sua vez é focado em questões climáticas Aqui entram tanto os impactos que o clima pode ter nas operações de uma empresa, incluindo uma análise de diferentes cenários de mudanças climáticas, quanto informações sobre as emissões de carbono, metas de redução e compromissos assumidos. Essas informações são relevantes para todas as partes interessadas de modo mais amplo. Por exemplo, gestores de fundos que têm uma preocupação em reduzir a pegada de carbono dos investimentos de seus clientes irão usar o S2 em sua tomada de decisão. Porém, a parte social, que ainda é muito importante para países como o Brasil, não foi incluída no reporte.

Além da padronização e simplificação, a grande mudança foi dar relevância a questões relacionadas à sustentabilidade. O IFRS é a referência global em padrões de contabilidade e amplamente usado pelas maiores empresas do mundo.

Apesar de o IFRS S1 e S2 ainda não serem obrigatórios, com o tempo poderão ser incorporados ao padrão de contabilidade financeira do IFRS. Isso sim impactaria diretamente o resultado das empresas. Quando esse momento chegar, todos os investidores deverão considerar critérios ambientais, sociais e de governança (conhecidos como ESG) em sua tomada de decisão.

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Que outros economistas continuem a trabalhar ideias como a de Ignacy Sachs mas com urgência, para que não sejam necessários outros 50 anos para entendermos o que ele queria dizer.

*Com a colaboração de Gustavo Carvalho.

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